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A ausência de testagem e o genocídio

A ausência de testes no Brasil agravará os efeitos da pandemia

Eu havia me colocado a tarefa de atualizar diariamente aqui os números disponíveis do avanço do Covid-19 no País e nos Estados mas desisti. 
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A epidemiologia é uma ciência importante para planejar ações públicas e individuais. No entanto a opção do Governo (diante de anos de sucateamento e negligência com SUS) é priorizar os esforços no atendimento aos casos graves e não nos testes em massa, o que nos deixa epidemiologicamente cegos e desarmados em um tiroteio. Diante da escassez de recursos, não há o que fazer a não ser priorizar quem mais precisa, mas em uma pandemia como esta, não testar os possíveis assintomáticos é permitir que eles sigam circulando e transmitindo à conhecidos e estranho durante dias, até cairem enfermos. O problema não é a escolha diante da escassez mas a própria escassez que nos obriga a escolher entre duas medidas igualmente necessárias. 
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Não temos testes suficientes e por isso, não conseguiremos copiar as estratégias bem sucedidas de barreira ao vírus, como na Coréia. Chegamos a esse ponto não apenas porque o atual Executivo Federal é completamente incompetente para dar conta da tarefa que temos à frente, mas porque elegemos um Congresso, um Senado e um Executivo (nos três níveis de gestão) que vem a anos destruindo o bem público (de saúde e educação e pesquisas científicas) em benefício do mercado de convênios, das universidades privadas, pior, em beneficio das O.S.s (organizações sociais) que garantirão a sua próxima eleição. 
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Curioso é que o mundo inteiro aguarda uma vacina, uma cura eficiente ou pelo menos, uma forma barata de produzir testes em massa. De onde elas viriam se não de pesquisa científica feita por pesquisadores com recursos em universidades ou centros de pesquisa? Sem testes em massa não saberemos com exatidão e antecedência (apenas quando for tarde demais) em quais bairros ou cidades o vírus está concentrado. Assim, não se poderá tomar medidas preventivas mais rígidas e localizadas… restará contar os corpos, mas até isso será questionável porque a subnotificação implica (como se suspeita em BH) que o avanço da pandemia é muito maior do que se presume.
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Enquanto a cura não vem, a precarização do trabalho (via informalidade e pseudo empreendendorismo), o medo de perder o emprego, a precariedade da vida em barracos minúsculos sem saneamento, ventilação, alimentação e condições de higiene adequados fazem com a maioria das pessoas nas periferias dos grandes centros urbanos não tenham condições mínimas para cumprir o tão desejado isolamento. Isso para não mencionar a situação das pessoas que vivem na rua e nas cadeias. No entanto, ao invés de discutir um plano de seguridade econômica mínima aos trabalhadores eventualmente demitidos ou necessitados ou mesmo aos micro empresários que estão a ponto de quebrar; ao invés de discutir taxação das grandes fortunas para subsidiar os gastos crescentes que o Sistema de Saúde exigirá; ao invés de articular esforços com empresários, governos, prefeitos e sociedade civil para criar uma força tarefa contra o vírus que garanta empregos, reorganização da produção (para entender a demanda por inumas de saúde ou segurança dos trabalhadores de saúde) ou outras iniciativas que ajudem a manter o trabalhador em quarentena, o Bolsonaro e sua equipe, em um ato de insanidade (muito bem pensada e prevista desde o início em sua plataforma política) briga com os governadores, implementa ou propõe medidas que permitem dispensa sem salário dos trabalhadores ou propõe a diminuição dos salários até 50%, disseminando, com isso, o caos como tecnologia de governo e, ao mesmo tempo – no momento que se prevê faltar insumos básicos de saúde aos doentes em alguns dias – doa máscaras (já em falta na rede de saúde) e ventiladores pulmonares para a Itália. 
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Esse deveria ser o momento para nós, mortais que não estamos na linha de frente do serviço de saúde, em nome da nossa saúde mental, desapegarmos mentalmente desta tema e lidarmos (vivendo, tretanto, engordando, escrevendo testão ou nos afogando em séries) com as nossas próprias contradições, mediocridades e limites diante do isolamento em nossas casas cada vez menos confortáveis diante da convivência forçada (full time) com entes queridos e/ou nem tanto… mas neste momento o vírus não é pior dos problemas . Estamos às portas de um genocídio necropolítico anunciado! 
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A Periferia está se organizando como pode (há focos belíssimos de auto-organização e redes de solidariedade em curso) e seguirá, mas, neste momento, ou a gente inventa um meio – mantendo o isolamento biológico – que nos permita influenciar nos acontecimentos políticos ou veremos uma catástrofe sem precedentes nas próximas semanas.

Por: Deivison, 24/03/2020

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