ESTAMOS PRESOS, BABACA!!! Sobre Lula, os ciclos históricos e o cárcere de nós mesmos

Por Deivison Faustino (Nkosi)

Estou assistindo a  entrevista que o Ex-presente  Luiz Inácio Lula da Silva concedeu aos repórteres Florestan Fernandes Jr (El País) e Mônica Bergamo (Folha)  e lamentando: caraca, o nosso país trocou um Homão da P*** desses por um…   A entrevista foi tão pujante que um internauta –  infelizmente não consegui identificar a fonte – escreveu em seu facebook: : “Será que o Lula não está livre e nós é que somos os verdadeiros presos do lado de fora da cela com o Bolsonaro?”. Essa  pergunta, se a analisarmos um pouco além dos limites da própria política, pode ser completada com uma outra de ordem retórica: “Afinal, não somos nós que estamos presos?”

Jornalistas Florestan Fernandes Jr (El País) e Mônica Bergamo (Folha)

O que se vê na entrevista é um político altamente antenado, coerente e consciente das principais questões e contradições do nosso tempo. Quem já está se acostumando com as frases polêmicas de twitter e textos curtos e mal lidos em declarações gravadas, assistiu a uma aula-show de retórica e inteligência… concordemos ou não com suas ideias, teremos  de convir que o entrevistado é certamente uma das mentes mais brilhantes da atual política brasileira.

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No entanto, não se pode deixar de observar, na entrevista, uma ausência de autocrítica em relação a escolhas políticas passadas que ajudaram (tanto ou mais que a Globo e suas concorrentes) o Brasil a chegar onde está e, sobretudo, a ausência  da crítica honesta  honesta a uma prisão ainda maior que aquela imposta injustamente (se é que existe alguma prisão justa) ao Ex-presente Lula pelo então Juiz Sergio Moro. É possível que o desafio da nossa época não se restrinja a constatar que o Lula foi preso injustamente mas, sobretudo, que os presos somos nós (Babaca!!!).

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O ex-Presidente Lula não está errado ao reclamar que “todo mundo pede autocrítica ao PT e não à elite brasileira que está aceitando a atual conjuntura”, no entanto, há que se lembrar que a explicitação insistentemente  dos erros dos outros não anula os seus, mas pode esconde-los. Se foi a estratégia de conciliação de classes (como ele disse: “maior parceria política que já se viu, representada por um empresário e um operário”) que permitiu ao PT chegar ao governo em 2003 e fazer as benesses que fez, foi essa mesma estratégia que inviabilizou mudanças de longo prazo na estrutura da desigualdade no país.

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Ao mesmo tempo que o governo Lula ampliou o acesso ao consumo de determinados setores vulneráveis (ao qual eu me incluo), abriu mão de democratização verdadeira dos meios de comunicação (e fortaleceu as famílias e igrejas donas da Globo, Record e Bandeirantes); protelou uma reforma agrária radical que desmantelasse o ou, ao menos, relativizasse o poder do latifúndio (propriedades das mesmas famílias acima) e o Estado-Policial, aliás… a política carcerária e as atuais leis de segurança (em sua criminalização de movimentos sociais), de que hoje o presidente é vítima, cresceu nos governos petistas.

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Se e verdade que o assunto “corrupção” foi uma grande distração pública (financiada por Grandes interesses) para tirar o PT da jogada e preservar outros partidos muito mais corruptos, também é necessário reconhecer que a própria luta de classes foi dando lugar – teórica e politicamente – na retórica e horizontes do Partido a jargões despolitizantes como “cidadania” e acesso ao consumo. Não se pode desconsiderar que em um país como o nosso, que foi forjado a partir da escravidão e uma abolição inconclusa, a garantia de um mínimo de direitos sociais é algo nobre e o ponto de partida de qualquer projeto transformador, mas em alguns momentos, ao observar a trajetória desse grande Partido (não confundir com o esforço sobre humano de parte aguerrida de sua base)  surge a dúvida se ele realmente buscava a transformação radical ou apenas a adaptação e continuidade às atuais estruturas de poder.

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 Embora tenha o mérito de acolher parcialmente e dado vazão à reivindicação de importantes movimentos sociais, como o movimento de mulheres, ambientalista, LGBTTIQ e movimento negro, o Partido não conseguiu democratizar (do ponto de vista racial) nem o seu próprio organograma político e mesmo diante da crise e de uma percepção aguda de que o partido precisa mudar, lideranças negras expressivas (como Paulo Paim e tantos outros anônimos nas estruturas municipais e estaduais) continuam à margem das grandes negociações, decisões e distribuição dos recursos de campanha. Embora seja um partido criado a partir dos sindicatos – espaços legítimos de organização dos trabalhadores – o PT seus limites politicistas (quando se ignora a preponderância do econômico sobre o político) mobilizou mais trabalhadores para protestar contra a prisão injusta de Lula do que para protestar contra a Reforma Trabalhistaque tramitava no Congresso e hoje, a Reforma da Previdência, que aliás, iniciou no Governo Lula.

Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

Lula, o preso político mais importante do Brasil, mostrou que continua sendo um gigante em suas ideias, humanismo e apreensão do mundo, mas perdeu uma grande oportunidade, ao sustentar uma retórica onde apenas os “outros” erram e traem. O ciclo histórico– do qual ele foi principal sujeito, mas não o único, como ele sugere em sua fala – se esgotou.E a História não se repete, sa não ser não como farsa e depois ainda, como tragédia. Se o Lula voltasse hoje, assim como um Messias, não conseguiria repetir alguns dos feitos da década passada porque a conjuntura econômica, política e cultura não é a mesma. Como ele disse, “a classe trabalhadora de agora não é mais a mesma da década de oitenta”, e também não é, graças ao seu Governo (para bem e para mal) a mesma do início dos anos 2000.

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 Talvez não seja a hora de mexer em time que está perdendo, ou a crítica pública de si mesmo só alimente a sede voraz de inimigos oportunistas que explorarão as nossas fraquezas contra nós mesmos; Talvez a crítica reforce os erros e contradições e dê pouco espaço para os acertos e possibilidades criadas no período; talvez, o próprio emissor da crítica seja um ingrato que só pode fazer-la porque se beneficiou daquilo que está criticando, com políticas e possibilidades rasgadas sob barreiras reais que existiram… talvez essa crítica seja inadequada no momento exato em que milhões de pessoas, baqueadas pela derrota nas urnas, precisavam de um referencial positivo, de um líder ou um Messias anti-Messias  (diferente do Messias eleito).

Entretanto,  não reconhecer os limites do próprio projeto diante da realidade concreta do presente, Lula, a maior liderança que a esquerda já teve – perde a oportunidade de apontar para algo maior que ele mesmo ou a política que representae com isso, nos convida à perigosa aventura de desejar o velho, ao invés de almejar um novo em que ele próprio – ou seu legado – pudesse estar incluído de outra forma e em um outro lugar. Mas seria cobrar demais (mesmo de uma das mentes mais  brilhantes) que em uma situação de inegável injustiça contra a sua vida, ideologia e projetos políticos propusesse que seguíssemos sem Ele (O verdadeiro Messias) ou o superássemos  uma vez que ele não voltará (a tempo) para nos salvar.

LULA CONTINUA SENDO UM GIGANTE, mas precisamos ir além (e não contra) – dele, do PT e de um certo jeito de pensar a política que também está presente em seus concorrentes –   em direção à árdua construção  novos ciclos políticos-ideológicos que acertem as contas com esse passado sob o risco de ficarmos presos infinitamente naquele CÁRCERE  que Luís Fernando Veríssimo constata quando diz que no Brasil “a história não se repete como farsa, as farsas se repetem como história”.