Não é pelos franceses, é por você, mesmo! Sobre o porquê também deveríamos chorar a queima da Catedral

Por Deivison Faustino

 

Tenho visto muita gente que eu respeito  compartilhando memes em comemoração à queima da Catedral Notre-Dame, um dos símbolos franceses mais conhecidos da dita “cultura universal”. A nossa comemoração à essa perda,  em um país tão violentamente colonialista como a França, é compreensível uma vez que fomos (e somos) colonizados, mas este ato convidativo é tão equivocado quanto a postura de um certo presidente que ignora o incêndio no museu do próprio pais para se solidarizar com perda “dos outros”.  Vou tentar explicar o porquê: 

É verdade que  a  Europa colonial atribuiu narcisicamente  um caráter de universalidade aos seus símbolos (religiosos ou laicos) enquanto desumanizou (ou se apropriou de) tudo o que não era europeu. Se você for no museu do Louvre (em Paris) verá obras roubadas de KMT, Pércia, Península Arábica, América, etc, mas esses povos nunca são representados como universais., apenas os Europeus. É o racismo colonial moderno… e em função dele, o mundo chora a morte de alguns franceses em um atentado terrorista  (ja que toda morte merece o seu luto) mas ignora o genocídio de milhões provocados pelo neo-colonialismo (inclusive francês) então, a comemoração à queima dessa igreja (justo a igreja) que logo será reconstruída  é super compreensível. E esse genocídio também se concretiza  no campo do conhecimento:

XXVII antes de Cristo.  – e no momento em que os europeus ainda estavam nas cavernas  ou saqueando-se entre si  em um sangrento  “jogo de tronos” – o matemático, arquiteto, médico, poeta e filósofo In-hotep já projetava a primeira pirâmide que deu certo (houveram muitas tentativas anteriormente fracassadas)  utilizando, para tal, cálculos geométricos hj conhecidos como “triângulo retângulo. Mas de acordo com os narradores modernos, o “pai” da matemática (e da geometria é o Pitágoras).

Mil anos antes de Darwin, o filósofo árabe  Abu Usman Amr Bahr Alkanani al-Basri (conhecido como  al-Jahiz) formulava, em meio o califado Abássida, publicava  “O livro dos animais” com observações e afirmações que mais tarde seriam consideradas invenções de Darwin (que obviamente aperfeiçoou os saberes com novas observações e conclusões – mas atribuir a ele o  título de Pai da Biologia é desconsiderar a contribuição inclusive de outros europeus como Aristóteles). 

Darwin: o pai do evolucionismo?

Um século antes de Kant (1724-1808) o filósofo etíope Zera Yacob (1599-1692)  misturava Platão e Aristóteles à filosofia etíope e árabe para formular o seu livro “Hatãta”(investigação)  onde defendia que Deus estava na razão (lembra muito a filosofia de Ma-at – que não era desconhecida pelos etíopes) e  não nas escrituras (bíblia) e na igreja. Esses  posicionamentos são a base do que depois seria conhecido como Iluminismo. Mas nenhum africano é mencionado na história dessa filosofia. 

Para o eurocentrismo europeu… de Hegel à Heidegger, a Europa (e nem é qualquer região da Europa)  é o patamar mais avançado da humanidade: é universal e os não-europeus nem são gente, ou não são tão gente assim como eles. Por isso não choramos (nem ficamos sabendo) do bombardeio que destruiu vidas humanas e relíquias culturais no Yemem e nem o extermínio indígena nas Américas… até hoje, a escravidão não foi reconhecida como um crime contra a humanidade e os descendentes dessas vítimas não foram reparados… e assim seguimos… 

No entanto, há uma pegadinha nesse esquema que só é possível perceber se avançarmos para além do imediato em direção à uma série de mediações que por vezes são ignoradas nestes assuntos. 

Narciso antes de morrer afogado por se apaixonar à própria imagem

Foram os europeus que atribuíram a si próprios a pecha de universal , e aos não-europeus o caráter de  especíe(ficos)… mas em resposta a essa mentira narcisista, ao invés de tomarmos de volta a percepção de nós também como universais – afinal, o universal do humano é a sua capacidade de transformar a natureza e a si proprio nesse ato transformador (o trabalho ) – mantivemos intacto o pressuposto eurocentrico  deixando pra eles a ideia de universalidade, e em troca, adquirimos uma espécie de narcisismo invertido (o Fanon chamava isso de “duplo narcisismo”) que nos faz apegar-se a nossa espécie(ficidade) de migalhas. Os mais radicais de nós, em resposta ao racismo europeu e o ódio anti-negro, afirmam só gostar “do que é nosso”… mas nem sempre explicitam quais os critérios que definem “o que é deles” e “o que é nosso”. É o crime perfeito!!! 

Quando a Catedral Gótica de Paris pega fogo…  ela não queima porque o povo percebeu o papel histórico da Igreja na dominação colonial dos povos não-europeus ou na manutenção da sua sua própria  miséria material e espiritual ao longo de dois milênios e resolveu tomar para si o seu destino (material ou espiritual) sem intermediários humanos pseudo-iluminados (isso ocorreu na Revolução Francesa).. ela pega fogo, não se sabe ainda o porquê, mas nesse contexto, nos adiantamos para comemorar porque não conseguimos mais nos ver  naquilo  que não é imediatamente idêntico a nós mesmose isso é uma grande perda humana, aliás… é a expressão do triunfo do colonialismo.  A comemoração só é possível  porque interiorizamos os pressupostos eurocêntricos – que afirmam que  ela não é nossa também… àquilo que está na Europa aparece como se fosse deles (dos “nossos inimigos”), assim como também seria deles a razão, o Iluminismo, a biologia e a matemática… “que queimem então  no inferno todos esses saberes brancos opressores enquanto eu toco o meu tambor”… oi? Quem foi mesmo que inventou e definiu os critérios de marcação entre o “nós” e “eles”? Quem foi que disse que o “deles” não é “nosso”?… e quem foi que acreditou? 

Em primeiro lugar, quem separou  tambor  e razão foram “eles” – os ocidentais racistas, na tentativa de nos animalizar. Em segundo lugar, aquilo que eles disseram ser “deles”, só existe entre eles porque beberam (ou expropriaram ou aprenderam com ) o “nosso” conhecimento, assim como o conhecimento meso-americano, árabe, indiano, persa, chines, etc… não estou colocando em debate se o cristianismo ou a cultura judaica tem raizes africanas (daria um bom debate), mas estou chamando à atenção para o fato de que se tem alguma universalidade na Catedral, não é porque ela é europeia, mas pq é uma obra humana que nos ajuda a entender uma parte importante da história (humana – europeia ou não)… o fato dela ser “cultura universal”  não significa (como defendiam os racistas) que as Igrejas esculpidas em rocha, em Lalibela (Etiópia) ou as universidades de Machu Picchu (Peru) não sejam, mas sim, que o “Nós”, não se resume a uma geografia humana e historicamente inventada (no caso da moderna, inventada por brancos racistas)… o “Nós” se refere   a espécie humana , mas o racismo ensinou aos negros que eles não são parte “disso daí ” (Sic) e eles (nós) obedientemente rebeldes acreditaram…. 

A Catedral de Notre-Dame  mantém viva arquitetura (gótica) muito rica que só foi possível  no contexto europeu mediante séculos de influências entre os godos (tribo germânica) com uma série de culturas antigas (especialmente do mediterrâneo árabe e norte-africano) no âmbito da cultura romana.  Tem saber humano (inclusive africano, mas não só) acumulado ali que também é meu – mesmo que os godos tivessem vindo da Groelândia ou do Polo Norte.

Se a gente levar a sérios os ensinamentos de Cheikh Anta Diop, podemos sugerir que a devoção  dos cristãos patriarcais europeus às várias Virgens Marias (Notre-Dame = Nossa Dama = Madona mia = nossa mãe )  só é possível (olhem o lugar das mulheres nas hierarquias do catolicismo), pq antes das chegadas dos povos setentrionais (saqueadores patriarcais e vindos do extremo norte europeu) ao sul da Europa e depois, com o advento do Cristianismo sob o julgo do Império Romano, vigorava nessas regiões uma série de cultos matriarcais. É possível que o cristianismo, para se estabelecer, tenha tido que negociar  interiorizando elementos nãos cristãos (pagãos) em seu próprio sistema teológico. O culto às madonas podem ser uma grande concessão dessa religião patriarcal a milênios de crença daquilo que eles chamaram de paganismo e depois, ao não conseguir controlar, criminalizaram e queimaram milhares de sacerdotisas (a chamada caça as bruxas europeia). O curioso, é que por uma série de razões que não cabem nesse artigo, a representação destas Madonas (Notre-Dames) em geral é negra. 

Não estou convidando ninguém a se tornar cristão e nem esquecer as atrocidades cometidas em nome do cristianismo, mas o  ponto que gostaria de colocar em debate (inclusive para ser corrigido por dados mais precisos ou reflexões mais rigorosas) é que o  renascimento, o iluminismo, a industrialização, a desenvolvimento do próprio capitalismo seriam impossíveis, na Europa sem o saque, a rapinagem, o estupro, a apropriação de conhecimento do restante do mundo, mas também troca de saber e influências múltiplas.  Se deixarmos o eurocentrismo europeu de lado, veremos que o “nós” é muito mais que aquilo que eles disseram que somos… o “nós” também está “neles”, ou melhor, é obra de toda a humanidade, com as suas diferenças, contradições e diversidades… 

Não estou dizendo com isso, que podemos abolir as  divisões e hierarquias raciais existentes apenas negando verbalmente a sua existência ou afirmando uma “consciência humana” abstrata… o “fogo nos racistas é necessário” de que fala Djonga  é necessário, pois sem a afirmação daquilo que foi negado em contraposição à própria negação  não há movimento social emancipador… e por isso, a “consciência negra” de que falava Steve Biko nunca foi tão necessária como agora, no entanto, o horizonte que  ele via não não pode se perder de vista:  “a busca da verdadeira humanidade”… a superação da racialização imposta pelo colonialismo e a possibilidade de concretizar o sonho de Beatriz do Nascimento…  do contrário, perderemos a guerra antes de começar.

“a terra é o meu quilombo,
meu espaço é o meu quilombo.
onde eu estou, eu estou,
onde eu estou, eu sou.”
Maria Beatriz do Nascimento

A grande pegadinha da história – que infelizmente não cabe em um meme viral –  é que o universal do humano é o próprio humano, em sua atividade sensível de transformação da natureza para satisfazer as suas necessidades e com isso, na transformação progressiva e infinita de seus próprios pressupostos (cada vez mais sociais). O  conhecimento humano é universal, e não alguns humanos particulares. O conhecimento é universal pq é historicamente acumulado a ponto de cada novo salto de saber, acumula em sua raiz, todos os saberes humanos anteriormente desenvolvidos por indivíduos e povos diversos… o Egito (KMT) só foi o grande Egito pq gozou de um contexto geológico  (a cheia do Nilo) e geográfico (o Delta do Nilo permitia o contato com a cima do rio e ao Mediterrâneo)  que favorecia a troca de saberes com povos de outras partes da África e de outros conhecimentos .  

O saber só se desenvolve  quando transborda nacionalidades e geografias… é humano e todos os humanos pertence.. é por isso que deveríamos ter chorado os bombardeios do Daesh (conhecido no ocidente como Estado Islâmico) às ruinas da antiga cidade de Palmira (na Síria)  ou Hatra (no Iraque) – mesmo sem ser sírios ou iraquianos) assim como o incêndio da biblioteca de Alexandria e no terreiro de candomblé de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás…  foi fundamental, na história francesa, enforcar os reis e os padres, mas do ponto de vista humano, se quisermos questionar o papel colonial da igreja, ou nega-la radicalmente em sua existência concreta, faz mais sentido preservar  o prédio como museu ou parlamento (como fizeram os comunista russos) do que incendia-los como fazem os radicais do Daesh, pq afinal de contas, esses espaços (e construções arquitetônicas antigas trazem  traços importantes do que somos ou fomos… se  estes traços se perdem e o único resultado é o empobrecimento ainda maior da nossa própria humanidade… e exatamente ai que o racismo foi tão eficaz:  o branco  racista disse que alguns saberes são brancos… e os não brancos acreditaram, aponto de comemoram a sua destruição. 

O problema aqui considerado situa-se na temporalidade. Serão desalienados pretos e brancos que se recusarão enclausurar-se na Torre substancializada do Passado. Por outro lado, para muitos outros pretos, a desalienação nascerá da recusa em aceitar a atualidade como definitiva.

Sou um homem e é todo o passado do mundo que devo recuperar. Não sou responsável apenas pela revolta de São Domingos.

Todas as vezes em que um homem fizer triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disser não a qualquer tentativa de opressão do seu semelhante, sinto-me solidário com seu ato.

[…]

O indochinês não se revoltou porque descobriu um cultura própria, mas “simplesmente” porque, sob diversos aspectos, não lhe era mais possível respirar.

Frantz Fanon (1952)

Reflexões sobre o Perigo de uma única história

Texto escrito em 19 de junho de 2012, originalmente publicado em: https://kamugere.wordpress.com/2011/06/10/reflexoes-sobre-o-perigo-de-uma-unica-historia/#comments

Por Deivison Nkosi

Gostaria de iniciar esse texto com o belíssimo vídeo da escritora e contadora de histórias nigeriana Chimamanda Adichie.  Esta seção está reservada para comentários, reflexões e críticas a respeito do contexto que estamos vivendo e achei muito oportuno começar por este vídeo.

Como a minha internet é lenta (na periferia de Santo André – Zona Metropolitana de São Paulo – não existe oferta de banda larga L) fui escrevendo enquanto o filme carregava no youtube…

A autora narra a partir de sua trajetória individual o que ela chama de “o perigo de uma história única” e nos expõe questões centrais para pensarmos a nossa época, inclusive no que tange a Lei 10.639/03. Esta lei, que institui a obrigatoriedade de abordagem no ensino público dos conteúdos referentes à história da África, dos Negros no Brasil e das relações raciais em nossa sociedade, alterada em 2008 para  incluir a obrigatoriedade de abordagem da história indígena(Lei 11.645/08) trás como principal pano de fundo a necessidade de se contar o que Chimamanda chamaria de “outras histórias” ocultadas ou distorcidas pelos séculos de racismo presentes em nossa sociedade.

O vídeo dispensa comentários, mas me provoca a refletir sobre aquilo que é o objetivo central deste blog. Como contar as “outras histórias” (ignoradas ou distorcidas) sem que se perca o uno que nos liga enquanto seres humanos?

A história humana enquanto processo de desenvolvimento do ser humano em seu fazer-se no tempo é um processo dialético, contraditório e articulado de fazeres individuais envolvidos no tempo… este processo é tão intenso e objetivo que se torna impossível a existência de “histórias” individualmente isoladas… cada pessoa tem a sua história individual mas o seu desenvolvimento está profundamente marcado pelos limites e possiblidades de seu tempo, bem como a sua relação com os outros indivíduos… o nosso eu se faz na relação com o outro de tal forma que não pode haver “eu” sem os “outros”.

Neste sentido, a história não é uma construção da nossa subjetividade, como defendem os acadêmicos da “Nova História” mas sim um dado real (objetivo) do nosso fazer-se, seja individual ou coletivo. Falar em histórias portanto é sempre delicado, pq exige pensarmos nas influencias recíprocas de uma “história”com outra, da história do meu grupo com a minha história individual”da história do meu grupo com outros grupos.

Considerando que o capitalismo integrou o mundo sob a sua lógica, a nossa história individual nunca foi tão coletiva, de forma que os indivíduos se relacionam multuamente, mesmo sem se conhecer. A ocupação estadunidense no Iraque influencia diretamente no preço do combustível do caminhão que carrega os produtos que compro todo dia, definindo o meu poder de compra, por exemplo, de tal forma que não da mais pra pensar a história do Iraque como se não fosse (também) a minha história.

Reproduzindo um questionamento presente na historiografia contemporânea podemos nos perguntar: A HISTÓRIA é reconhecimento, memória ou interpretação (subjetiva) ou fato concreto, acontecido (objetivo) mesmo que eu não tenha consciencia da sua influencia em minha vida? Uma reposta possível é que a história do Iraque (pra insistir no exemplo) é a minha história, mesmo que eu não reconheça ou não saiba de sua existência real.

VOCÊ QUE É UM LEITOR ATENTO DEVE ESTAR SE PERGUNTANDO: “Mas e o que a lei 10.639/03 (ou a 11.645/08) tem a ver com esta ‘história’?”

O fato é que a HUMANIDADE é a síntese (e não a soma) do conjunto dos indivíduos articulados e se influenciando reciprocamente. Este é um dado da realidade, independente de nosso reconhecimento sobre isto. Ocorre que o RACISMO aliena a nossa percepção sobre a nossa humanidade de tal forma que passamos a não ver (reconhecer subjetivamente) o negro ou o africano como parte da humanidade. A “HISTÓRIA” DA HUMANIDADE passa a ser contada a partir do europeu de forma que por vezes confundimos o universal com o europeu. Falamos em cultura NEGRA (específica), em música NEGRA(específica) em história NEGRA (específica) mas não falamos em cultura BRANCA,  em múcia BRANCA, em história BRANCA… o Branco (europeu) foi apresentado por eles mesmo desde o sec XIX como UNIVERSAIS a ponto de os negros, mesmo os militantes mais radicais no combate ao racismo não se verem no UNIVERSAL.

Esta dificuldade de nos vermos como universal é um dos frutos do racismo e de séculos de negação da nossa humanidade… de exclusão do negro daquilo que se entende por história (a memória, ou a interpretação dos fatos ou da contação de fatos desconexos). Se o negro foi excluído da história, sobrar-nos-ia, portanto sob o risco de ficar excluídos da “história” a tarefa de contar a nossa história, ou seja, CONTAR OUTRAS HISTÓRIAS.

Aqui está uma armadilha gigantesca que devemos estar alertas:

Se por um lado a história oficial UNIVERSAL (ocidental, judaico, cristã e burguesa) nos privou do direito de reconhecimento e quando aparecemos na história somos pintados como bárbaros ou coitadinhos… por outro lado, a recontagem de OUTRAS HISTÓRIAS ESPECÍFICAS tem a tarefa de desconstruir este imaginário, mas acima de tudo, “recuperar” (reconhecer) os nexos de nossas especificidades com a história da humanidade como um todo. Caso contrario, correremos o risco de novamente fortalecer as idéias racistas do século XIX, idéias estas que afirmavam que não éramos humanos, éramos os outros.

A chave para superarmos O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA está na própria HISTÓRIA REAL (não como memória ou interpretação de fatos seqüenciais). Ao contrario do que afirmam os racistas, e muitas vezes repetimos inocentemente, quanto mais estudamos a história da humanidade mais se percebe a presença e ativa contribuição dos africanos para o desenvolvimento humano universal. A humanidade surge na África e lá podemos observar o surgimento primeiro de diversos saltos evolutivos em nossa trajetória enquanto ser social.

A contribuição do continente africano para o conhecimento sobre astronomia, metalurgia, geometria, mineração, arquitetura, cultura, religião, artes, filosofia é imperceptível apenas aqueles que estão cegos pelas lupas do racismo forjado no sec XIX. O próprio pensador grego Heródoto (considerado erroneamente como um dos pais da história) reconhece a superioridade dos egípcios frente ao a muitos conhecimentos de altíssima importância à sociedade grega, como é o caso da astronomia e astrologia. (ver slide: introdução ao estudo das civilizações africanas)

A presença africana na cultura brasileira chega a tal ponto que o pensador de esquerda Darci Ribeiro chegou a dizer (inspirado em Gilberto Freire) que o Brasil não é mais um mosaico de raças, mas a síntese de uma mistura. O que o nosso pensador ignora é que esta mistura não impediu o massacre físico e cultural do negro e que até hoje existe um “gradiente de cor” que faz com que a pessoa sofra os efeitos do racismo mais intenso quanto for a coloração da sua pele.

Ocorre que até hoje, QUANDO O NEGRO APARECE NA MÍDIA, OU NA ESCOLA É SEMPRE COMO COITADINHO OU BÁRBARO… isto quando aparece, e isto tem causado impactos horríveis em nossa subjetividade (tanto negros como brancos, embora os últimos se beneficiem deste processo). Chimamanda nos alerta para o fato de que a história ocidental (não só a disciplina de história, mas a forma que nos vemos enquanto seres humanos) tem estado permeado de um olhar que nos desconhece a humanidade, influenciando o nosso pensar e agir sejamos negros ou brancos.

 

Fui escrevendo este texto enquanto assistia ao vídeo (lembra que a minha internet é lenta né? rs) e confesso que quando cheguei ao final do filme estava em choque… pensei várias vezes em não seguir escrevendo porque o vídeo já havia falado tudo que precisava ser dito no momento. O filme é um tapa na cara que nos questiona sabiamente sobre o que temos feito para ser diferentes de todo este processo de “contação de uma única história”.

Ao trabalhar com a formação de professores e educadores sociais para abordagem dos conteúdos presentes na Lei tenho visto muita iniciativa “bem intencionada” fracassar pelo desconhecimento da historia real da África e da humanidade. Tenho visto que muitas vezes os poucos professores sensibilizados para a importância deste debate só conseguem  falar das contribuições do negro no campo lúdico, confirmando a visão de Hegel de que a África é a infância da humanidade, desconsiderando as contribuições dos africanos para o desenvolvimento humano-universal. Tenho visto militantes negros estudados assumindo desesperadamente uma visão distorcida do que é história (a história como factóides, ou interpretação dos fatos, ou apenas Memória) para se contrapor a esta “história” inventada no sec XIX.

Este é o desafio central da Lei 10.639/03(ou 11.645/08): NÃO É A HISTÓRIA DO NEGRO OU DOS AFRICANOS QUE ESTÁ EM QUESTÃO, não se trata de contar mais uma história. Falar da história da África ou do Negro no Brasil EXIGE SIM RECONTAR A HISTÓRIA DO BRASIL E DA PRÓPRIA HUMANIDADE. O desafio para nós é o que Steve Biko chamava no seu texto “a definição da consciência negra”na BUSCA PELA VERDADEIRA HUMANIDADE. Qualquer coisa abaixo disto será um tiro no próprio pé.

Deivison Nkosi – Professor de História da África