Aniversário de lançamento: “Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro”

Hoje, 11 de maio (2019), completa-se um ano de lançamento do “Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro”. Este livro, que caminha para a terceira impressão,   me proporcionou  muitas alegrias e a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas e comprometidas  em várias partes do Brasil. Fizemos lançamentos (e debates calorosos) em locais como universidades, terreiros de candomblé, coletivos, bares, web-TVs, roda de samba, escolas, livrarias, museus, entre outros e  ainda temos lançamentos agendados.

Em comemoração, publico aqui  as duas primeiras devolutivas escritas que recebi após o lançamento. A primeira (transcrita integralmente abaixo) foi escrita por Felipe de Oliveira (Choco) um dia depois do lançamento (ele leu em um dia e enviou a resposta na madrugada do dia 12 para o dia 13 de maio). A segunda (disponível nesse link) foi escrita por Rafaela Maga a partir do lançamento na Escola Winnie Mandela, na Bahia.

 

SobreFrantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro, lançado em 11/05/2018

Por Felipe Oliveira (Choco)

Lewis Gordon não forçou nota quando escreveu que “este texto maravilhoso é um presente de grande valor não só para o Brasil, mas também para todo o mundo lusófono”. Realmente ele preenche uma lacuna e certamente figurará como um divisor de águas para o estudo sobre as ideias de Fanon (Fanon Studies?) nas regiões de língua “portuguesa”. Pretendo não forçar nota também quando comparo você (Deivison Mendes Faustino), a partir desse livro, a um Carlos Nelson Coutinho (traduzindo Gramsci, introduzindo e desenvolvendo suas ideias no Brasil) e um Leandro Konder – entre outros – fazendo o mesmo com Lukács. Ambos autores brasileiros traduzindo a trajetória e ideias de indivíduos revolucionários em contextos que dialogam, apesar da matriz europeia dos primeiros.

Em tempos de polarizações histéricas e nem sempre proveitosas, defender um humanismo radicalem que ateste “a busca incessante de uma unidade maior que amplie a nossa humanidade para além de si mesma”, sem a vertigem das particularidades fechadas e nem dos universalismos abstratos, é um bom parâmetro e uma boa resposta. Aliás, “como dizia Fanon, a percepção e a afirmação de si não deve implicar o fechamento ao outro, mas o esforço constante para identificar os elementos que lhes são comuns” (p.127).

Por isso não me restam dúvidas que o lançamento desse livro é um marco. Possibilitará uma riqueza de interpretações de nossa realidade nacional, principalmente a particularmente negra.Já que um dos maiores méritos desse livro é apresentar não um mito, muito menos um mártir, mas um indivíduo que age sobre circunstâncias não escolhidas por ele próprio, e busca a partir da reflexão apurada respostas para os dilemas que a vida sempre nos apresenta. Respostas que, vale lembrar, envolvem os indivíduos sempre em relação a uma coletividade, ou particularidades e singularidades em relação ao universal.

Capítulos muito bem desenvolvidos e virtuosamente bem escolhidos. Demonstram domínio e maturidade intelectual na apresentação das passagens de vida do biografado, com uma prosa agradável, sem no entanto reduzir momentos complexos à saídas mecânicas, como se houvessem sempre uma única estratégia – “sem alternativas”. Os temas abordados e desenvolvidos por Fanon ganham força pela contextualização do período em que foram gestados. Maestria na relação entre indivíduo e sociedade sem deixar escapar as particularidades de espaço e tempo. Da criança que toma a frente dos primeiros socorros ao amigo, passando pelo adolescente que junto ao irmão jogava futebol com “um time da região”, ao jovem que vai à guerra e nos momentos limites “se descobre”, ao adulto “pai ausente” como o seu próprio, psiquiatra de profissão, revolucionário internacionalista, particularmente negro.

Só tenho a agradecer por todo seu esforço!

Felipe Oliveira (Choco)

13/05/2018

 

IMAGENS DE ALGUNS LANÇAMENTOS

Deivison Faustino (Nkosi) e Denis de Oliveira – Al Janiah (11/05/2018)
Créditos: Marciano Ventura
Al Janiah (11/05/2018) Grupo Conde Favela Créditos: Marciano Ventura
Al Janiah (11/05/2018) Créditos: Marciano Ventura
Al Janiah (11/05/2018) Créditos: Marciano Ventura
Da esquerda para a direita: Pai Celso de Oxaguiam (Celso Ricardo Monteiro), Maria Lúcia, Jussara Dias e Marli Medeiros – Al Janiah (11/05/2018)
Ao lado de Edna Roland – Al Janiah 2018
Ao lado do Prof. Dr. Lewis Gordon (MASP – São Paulo – 2018)
Ao lado das queridas Jurema Werneck e Fernanda Lopes – ABRASCO 2018 (FIOCRUZ )
Apresentando o livro ao lado do Orientador Prof. Dr. Valter Silvério – UFSCAR 19/11/2018
com Hassan Kodak Macmez (cineasta e produtor do filme Fanon hier, aujourd’hui) Paris, 2019
Lançamento no CRP Campinas (2018)

Lançamento: Museu Ferroviário de Juiz de Fora – Coletivo Fanon e Movimento Negro de Juiz de Fora – 2018
Lançamento: Semana do Curso de Serviço Social – UNIFESP – BS 2018 – Com sempre parceira Profa. Dra. Renata Gonçalves
Lançamento na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Ao lado do Prof. Dr. Osmundo Pinho (2018) – Crédito: Vinícius Zacarias
Lançamento no terreiro Ilê Axé de Iansã, durante o 2º Encontro de Estudantes Negros e Negras da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE) – 2018
Lançamento entrevista: Canal Brasil de Fato, com Ivani Oliveira (CRP e Kilombagem)
Lançamento: Museu Afro-Brasil – SP 2018 Créditos: Museu Afro-Brasil

Lançamento Grupo GIRA – Ciência Política da USP 2018 – Créditos Grupo GIRA

Lançamento NEAB- UFU (Uberlândia, 2018) – Créditos Uà Flor do Nascimento

Lançamento ECA-USP ao lado do cartunista Marcelo D’Salete e do Prof. Dr. Rosenilton Silva de Oliveira

Curso preparatório (pós-graduação) Abdias do Nascimento – NEAB Unifesp (Guarulhos)
Lançamento no IFCH-UNICAMP, com Mário Augusto da Silva – Créditos: Adriano Bueno
Lançamento Rio de Janeiro (2018) Créditos: Claudina Osório
Lançamento São Bernardo do Campo, com Deputado Federal Vicentinho (2018)
Falando sobre Fanon em algum lugar que nem eu sei mais…

 

O livro segue disponível no site da editora

 

ESTAMOS PRESOS, BABACA!!! Sobre Lula, os ciclos históricos e o cárcere de nós mesmos

Por Deivison Faustino (Nkosi)

Estou assistindo a  entrevista que o Ex-presente  Luiz Inácio Lula da Silva concedeu aos repórteres Florestan Fernandes Jr (El País) e Mônica Bergamo (Folha)  e lamentando: caraca, o nosso país trocou um Homão da P*** desses por um…   A entrevista foi tão pujante que um internauta –  infelizmente não consegui identificar a fonte – escreveu em seu facebook: : “Será que o Lula não está livre e nós é que somos os verdadeiros presos do lado de fora da cela com o Bolsonaro?”. Essa  pergunta, se a analisarmos um pouco além dos limites da própria política, pode ser completada com uma outra de ordem retórica: “Afinal, não somos nós que estamos presos?”

Jornalistas Florestan Fernandes Jr (El País) e Mônica Bergamo (Folha)

O que se vê na entrevista é um político altamente antenado, coerente e consciente das principais questões e contradições do nosso tempo. Quem já está se acostumando com as frases polêmicas de twitter e textos curtos e mal lidos em declarações gravadas, assistiu a uma aula-show de retórica e inteligência… concordemos ou não com suas ideias, teremos  de convir que o entrevistado é certamente uma das mentes mais brilhantes da atual política brasileira.

.

No entanto, não se pode deixar de observar, na entrevista, uma ausência de autocrítica em relação a escolhas políticas passadas que ajudaram (tanto ou mais que a Globo e suas concorrentes) o Brasil a chegar onde está e, sobretudo, a ausência  da crítica honesta  honesta a uma prisão ainda maior que aquela imposta injustamente (se é que existe alguma prisão justa) ao Ex-presente Lula pelo então Juiz Sergio Moro. É possível que o desafio da nossa época não se restrinja a constatar que o Lula foi preso injustamente mas, sobretudo, que os presos somos nós (Babaca!!!).

.

O ex-Presidente Lula não está errado ao reclamar que “todo mundo pede autocrítica ao PT e não à elite brasileira que está aceitando a atual conjuntura”, no entanto, há que se lembrar que a explicitação insistentemente  dos erros dos outros não anula os seus, mas pode esconde-los. Se foi a estratégia de conciliação de classes (como ele disse: “maior parceria política que já se viu, representada por um empresário e um operário”) que permitiu ao PT chegar ao governo em 2003 e fazer as benesses que fez, foi essa mesma estratégia que inviabilizou mudanças de longo prazo na estrutura da desigualdade no país.

.

Ao mesmo tempo que o governo Lula ampliou o acesso ao consumo de determinados setores vulneráveis (ao qual eu me incluo), abriu mão de democratização verdadeira dos meios de comunicação (e fortaleceu as famílias e igrejas donas da Globo, Record e Bandeirantes); protelou uma reforma agrária radical que desmantelasse o ou, ao menos, relativizasse o poder do latifúndio (propriedades das mesmas famílias acima) e o Estado-Policial, aliás… a política carcerária e as atuais leis de segurança (em sua criminalização de movimentos sociais), de que hoje o presidente é vítima, cresceu nos governos petistas.

.

Se e verdade que o assunto “corrupção” foi uma grande distração pública (financiada por Grandes interesses) para tirar o PT da jogada e preservar outros partidos muito mais corruptos, também é necessário reconhecer que a própria luta de classes foi dando lugar – teórica e politicamente – na retórica e horizontes do Partido a jargões despolitizantes como “cidadania” e acesso ao consumo. Não se pode desconsiderar que em um país como o nosso, que foi forjado a partir da escravidão e uma abolição inconclusa, a garantia de um mínimo de direitos sociais é algo nobre e o ponto de partida de qualquer projeto transformador, mas em alguns momentos, ao observar a trajetória desse grande Partido (não confundir com o esforço sobre humano de parte aguerrida de sua base)  surge a dúvida se ele realmente buscava a transformação radical ou apenas a adaptação e continuidade às atuais estruturas de poder.

.

 Embora tenha o mérito de acolher parcialmente e dado vazão à reivindicação de importantes movimentos sociais, como o movimento de mulheres, ambientalista, LGBTTIQ e movimento negro, o Partido não conseguiu democratizar (do ponto de vista racial) nem o seu próprio organograma político e mesmo diante da crise e de uma percepção aguda de que o partido precisa mudar, lideranças negras expressivas (como Paulo Paim e tantos outros anônimos nas estruturas municipais e estaduais) continuam à margem das grandes negociações, decisões e distribuição dos recursos de campanha. Embora seja um partido criado a partir dos sindicatos – espaços legítimos de organização dos trabalhadores – o PT seus limites politicistas (quando se ignora a preponderância do econômico sobre o político) mobilizou mais trabalhadores para protestar contra a prisão injusta de Lula do que para protestar contra a Reforma Trabalhistaque tramitava no Congresso e hoje, a Reforma da Previdência, que aliás, iniciou no Governo Lula.

Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

Lula, o preso político mais importante do Brasil, mostrou que continua sendo um gigante em suas ideias, humanismo e apreensão do mundo, mas perdeu uma grande oportunidade, ao sustentar uma retórica onde apenas os “outros” erram e traem. O ciclo histórico– do qual ele foi principal sujeito, mas não o único, como ele sugere em sua fala – se esgotou.E a História não se repete, sa não ser não como farsa e depois ainda, como tragédia. Se o Lula voltasse hoje, assim como um Messias, não conseguiria repetir alguns dos feitos da década passada porque a conjuntura econômica, política e cultura não é a mesma. Como ele disse, “a classe trabalhadora de agora não é mais a mesma da década de oitenta”, e também não é, graças ao seu Governo (para bem e para mal) a mesma do início dos anos 2000.

.

 Talvez não seja a hora de mexer em time que está perdendo, ou a crítica pública de si mesmo só alimente a sede voraz de inimigos oportunistas que explorarão as nossas fraquezas contra nós mesmos; Talvez a crítica reforce os erros e contradições e dê pouco espaço para os acertos e possibilidades criadas no período; talvez, o próprio emissor da crítica seja um ingrato que só pode fazer-la porque se beneficiou daquilo que está criticando, com políticas e possibilidades rasgadas sob barreiras reais que existiram… talvez essa crítica seja inadequada no momento exato em que milhões de pessoas, baqueadas pela derrota nas urnas, precisavam de um referencial positivo, de um líder ou um Messias anti-Messias  (diferente do Messias eleito).

Entretanto,  não reconhecer os limites do próprio projeto diante da realidade concreta do presente, Lula, a maior liderança que a esquerda já teve – perde a oportunidade de apontar para algo maior que ele mesmo ou a política que representae com isso, nos convida à perigosa aventura de desejar o velho, ao invés de almejar um novo em que ele próprio – ou seu legado – pudesse estar incluído de outra forma e em um outro lugar. Mas seria cobrar demais (mesmo de uma das mentes mais  brilhantes) que em uma situação de inegável injustiça contra a sua vida, ideologia e projetos políticos propusesse que seguíssemos sem Ele (O verdadeiro Messias) ou o superássemos  uma vez que ele não voltará (a tempo) para nos salvar.

LULA CONTINUA SENDO UM GIGANTE, mas precisamos ir além (e não contra) – dele, do PT e de um certo jeito de pensar a política que também está presente em seus concorrentes –   em direção à árdua construção  novos ciclos políticos-ideológicos que acertem as contas com esse passado sob o risco de ficarmos presos infinitamente naquele CÁRCERE  que Luís Fernando Veríssimo constata quando diz que no Brasil “a história não se repete como farsa, as farsas se repetem como história”.

 

A CIÊNCIA, A FÉ E O ERRO DE EINSTEN: Sobre a Deusa preta da Verdade e a fotografia do buraco Negro

É verdade que o conhecimento científico também exige uma certa crença… 
Por Deivison Faustino (Nkosi)
Deusa Ma’at: a verdade é uma Deusa Preta
 
Você observa que as galáxias estão se afastando: calcula a posição e a direção de cada uma no espaço observável e refaz o caminho retrospectivamente (com base em todo conhecimento físico que obtemos), concluindo que um dia toda essa matéria esteve concentrada em UNICO PONTO. Aplica-se a essa informação o fato (observado por Newton) de que a gravidade faz com que os corpos se atraiam mutuamente, e depois de se aproximar, conforme a massa, vão ficando tão juntinhos, mas tão juntinhos, que até o volume diminui (quanto maior a massa maior a sua gravidade). Conclui-se a partir daí que esse único ponto  que continha toda a matéria do universo era infinitamente pequeno (menor que a cabeça de um alfinete). Por alguma razão que ainda não foi explicada, em algum momento (ou em nenhum, pq até o Tempo estava comprimido nesse minúsculo e infinitamente pesado ponto) ele “explode'”(embora didático, os físicos afirmam que o termo explosão não é o mais adequado) e os elementos ali contidos se espalham, chocano-se, fundindo-se e criando aos poucos novas formas das matérias que hoje compõem o universo em expansão e que hoje estudamos na tabela periódica. Vem daí a teoria do Big Bang… e depois do Big Crunsh (não, não é Crush, mas o sentido é parecido, pq a gente se atrai s2).
 
Tem que ter uma certa nos cálculos observáveis e em sua capacidade de generalização para acreditar em determinadas teorias. No nosso caso (moderno), enquanto avança a consciência a respeito desse movimento histórico do mundo, um físico Alemão retoma a teoria da gravidade de Newton e a eleva a um novo patamar mostrando, a partir de complexas equações, que a gravidade não apenas aproxima os corpos mais os distorce a medida em que os aproxima, a depender da quantidade de massa e energia que possuam. A Relatividade Geral é a teoria da distorção do espaço e o do tempo. E o Einstein prova isso a partir de equações que eu só não explico aqui, porque eu simplesmente, não entendo nada… rsrs mas tenho convicções! É preciso de um pouco de fé, na ciência rsrs…
A gravidade na Relatividade Geral de Einstein
Essas equações do físico alemão foram a base para a hipótese de buracos negros. Porque se a massa de um objeto é proporcional à sua gravidade, e por isso distorce proporcionalmente o espaço tempo a sua volta… uma imensa quantidade de massa cria também uma gravidade imensa que, a partir de determinado ponto, suga não apenas aquilo que está a sua volta, mas, sobretudo, a si mesma… inclusive a luz… rasgando o espaço tempo de uma forma que ainda não somos capazes de explicar. Nasce aí a teoria dos Buracos Negros.
Buraco negro
Mas a ciência exige um quantidade de fé e o Einstein, herege da maior proporção, ao observar os resultados de seus próprios cálculos não acreditou. Ele não acreditava  que pudessem existir buracos negros, e contra essa ideia maluca (olha, que fita!!!), chegou a escrever um artigo contestando a hipótese.
 
Não há ciência sem fé, mas o que  faz a primeira tão interessante – e nisso ela lembra a antiga crença kemética (egípcia) na Deusa Ma’at, a divindade da Verdade – é a capacidade de se rever a partir do momento em que surgem novas descobertas…  Como pesava o ensinamento egípcio, a Verdade deve estar acima de tudo, inclusive da crença. E se por um acaso, as informações (que conseguimos obter até aquele momento) mostrarem que a nossa fé estava errada… não é pecado ter a humildade de rever as posições.
 
Em Ma’at, a Verdade deve estar acima das crenças, mas não as substituem ou as invalidam. Essa posição presente no Antigo Egito (KMT) fez (somadas à necessidade racista de mostrar a Europa como o local mais desenvolvido do globo terrestre) com que os historiadores modernos da filosofia não incluísse essa região nos manuais de história da filosofia. Aprendemos que o “milagre grego” (aquilo que permitiu a filosofia surgir) foi justamente o fato deste povo separar fé e razão. Essa separação ajuda explicar o trato hostil da Igreja Cristã européia com alguns de seus melhores cérebros como Giordano Bruno, Nicolai Copernico, Galileu e tantos outros.
Simulação feita com os cálculos de Einstein X fotografia real do Buraco Negro
 
O desafio para nós, ocidentais (ou não-ocidentais ocidentalizados = o que dá no mesmo) que repetimos a 500 anos que ciência e fé são coisas distintas, é conseguir fazer o que, provavelmente, Einstein faria diante das informações hoje disponíveis (tenho convicções mas não posso provar rs): teria  a humildade de reavaliar a própria crença a partir das evidências que a vida (mas também as pesquisas) nos oferecem. Exatamente o contrário do que está fazendo o nosso Governo que ao se deparar com dados crescentes de desigualdades e injustiça no Brasil (a febre) ou de análises técnicas e teóricas que discordem de seus pressupostos (o diagnóstico)  , opta por quebrar o termômetro  e os profissionais que o manuseiam (desmontando  e criminalizando o IBGE e as universidades públicas).
.
A Verdade é uma Deusa preta, subversiva demais para ser aceita por pessoas fracas e de pouca convicção, inclusive na sua própria fé… e por isso, precisa ser, mais uma vez, queimada na fogueira.  Felizmente, na física, nada se perde, e  ela, a Verdade, mesmo esmagada pelas grandes mãos do poder, sempre dá um jeitinho de escapar pelos poros infinitamente imensos  da nossa própria existência: 

A Crossroad, o Diabo e as encruzilhadas escorregadias da cultura

*Mpambu Njila Njila vua! Kiambote! Mutu e mutu ave hanga ko
Por Deivison Faustino (Nkosi)
O  Documentário ReMastered: O Diabo na Encruzilhada‘, a ser lançado  pela Netflix em breve, trará  à tona a fascinante história do músico do Blues Robert Leroy Johnson (May 8, 1911 – August 16, 1938), que segundo conta a lenda, fez um pacto na encruzilhada para tocar bem e ter sucesso. Depois do suposto pacto e o seu desaparecimento por um ano, o músico regressou aos palcos  com habilidades e desenvoltura rítmica jamais vistas.  O seu sucesso meteórico foi interrompido aos 27 anos após uma morte “misteriosa”.

O documentário, que se compromete a resgatar a história do músico, acaba por evidenciar um tema nem sempre debatido no Brasil: a influência das crenças sagradas de matriz africana nos EUA.
.
Dado à sua influência protestante, o modelo de colonização adotado nos EUA (Segregação), sustentou-se por uma negação QUASE absoluta dos valores culturais (estéticos) trazidos à diáspora pelos africanos escravisados e os seus descendentes. Não apenas os tambores foram proibidos  como também as diversas crenças religiosas trazidas de regiões que hoje são conhecidas como Congo, Angola, Senegal, Nigéria, Gâmbia, Camarões, Namíbia, e Costa do Marfim, entre outros. Pode-se imaginar o terror que essas crenças exerciam  às mentalidades escravistas  estadunidenses quando vemos os seus esforços de demonização do que chamam genericamente de Vodum (ou vodoo): do desenho do Picapau à conhecidos filmes de Hollywoodeanos, essas crenças são geralmente cobertas de estigmas, distorções fantasmagóricas e preconceitos. 
.
Ainda assim, como mostram os principais estudiosos da cultura… a relação entre povos, mesmo sob dominação colonial, resulta sempre em influências múltiplas quem nem sempre são percebidas ou reconhecidas, mas estão la, tensionando as noções simplistas de existir e resistir. Se é verdade que as culturas de matriz africana foram violentamente perseguidas e demonizadas naquele país, diversos de seus elementos insistiram em se fazer visíveis. Não sem o atravessamento de importantes contradições. 
.
No caso da música, como lamentava o trompetista Dizzy Gillespie a proibição dos tambores na terra do Tio San resultou em uma menor complexidade rítmica da música afro-americana (quando comparada aos ritmos afro latino-americana), mas também em um hipnotizante trato percussivo com o corpo ou os instrumentos de cordas
 .
No caso da religião, mesmo nas regiões católicas como a Luiziana, a proibição das crenças trazidas de África não resultaram na sua extinção – como queriam desesperadamente os racistas, mas na transfiguração delas em outros termos, como a musicalidade e espiritualidade corporal do Gospel ou mesmo na permanência de símbolos africanos adaptados ou em tensão com os binários códigos cristãos.
 .
É sabido que esse negócio de Diabo é uma invenção judaico cristã que não comporta a complexidade cosmogonica africana. A inexistência de uma visão binária (entre natureza e sociedade, espiritual e humano, liberdade e necessidade, bem e mal, masculino e feminino, etc…) permitiu, em diversas crenças africanas, a compreensão de entidades ou divindades mediadoras das dimensões que compõe a existência. A possibilidade de mediação é tão sofisticada que alguns teóricos chegam a questionar se   o termo “religião” realmente se aplicaria às  crenças sagradas africanas uma vez que inexiste, na  maioria delas, a ideia de expulsão do paraíso ou pecado original que exigisse o re-ligare.  
.
O ponto que interessa, quando olhamos a história do Gospel, Blues ou Spirituals  é a dinâmica nada linear dos encontros (e dês-encontros) culturais. Os colonizadores acreditavam piamente que a sua cultura era superior à dos povos dominados por eles e que estes, no contato com a cultura ocidental, assimilariam os valores espirituais e estéticos considerados superiores e abandonariam as suas crenças originais, entendidas como atrasadas.
.
Ao que parece – e isso fica gritante no caso de Robert Leroy Johnson –  não se pode manipular mecanicamente os jogos dos significados sem ter que se deparar com efeitos colaterais imprevistos. Como revela um famoso ditado iorubá: Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje…”
.
Em primeiro lugar, como alertava o sociólogo Clóvis Moura, o “sincretismo” cultural não é, como se costuma pensar um processo unilateral de imposição de uma cultura dominante sobre um povo dominado, mas também a influência dos elementos culturais negados sobre a cultura dominante. Moura afirmava, olhando para o cenário brasileiro, que assim como houve uma influência cristã sobre as crenças de matriz africana, houveram influências simbólicas de matriz africana sobre as crenças cristãs, especialmente naquilo que se denomina “catolicismo popular”.  
.
Em segundo lugar, e não menos importante, aquilo que se busca enterrar vivo e para sempre – uma ideia, um jeito de olhar o mundo material ou sagrado, um movimento – depois de agonizar sem ar por debaixo da terra, pode se decompor e se recompor como sementes e, eventualmente emergir sob novas formas de vida, à revelia dos sistemas de crenças vigentes. Não estou me referindo ao “Diabo” (ou o Satan cantado por Johnson). Aliás, o cristianismo jamais o enterraria ou abriria mão dele porque ele é figura central nesse sistema de crenças. Sem  medo  d’Ele, não haveria razão procurar intermediários humanos que institucionalizam a possibilidade do religare (igreja com instituição). Me refiro  à milenares crenças africanas, levadas pelos diversos povos sequestrados para as Américas.
.
Qualquer brasileiro – independente de sua concepção religiosa – sabe o valor das encruzilhadas para os diversos sistemas de crenças de matriz africana. Da Umbanda, Quimbanda, Terecô, Batuque aos Candomblés de qualquer nação que se observe, encontra-se na encruzilhada uma dimensão espaço temporal de fundamental importância.
Cruz Bakongo
É na encruzilhada (Mpambu= cruzar e Njila= caminho) que uma série de caminhos se cruzam e abrem a possibilidade para novas escolhas e contradições. Seja como fronteira, limite, ponte ou portal, é nela que as contradições se explicitam, e se permitem ser superadas dando vida a novas outras contradições. É também na fronteira entre o masculino e o feminino (e porque não, entre masculino e masculino, feminino e feminino e tantas outras infinitas combinações), mas principalmente no cruzamento dessas fronteiras que os polos inter-sexionam-se sexuadamente.   Esse caráter dinâmico da vida (mas também da história) está fartamente representado, nas religiosidades de matriz africana no Brasil,  em divindades como Exu (candomblé Ketu), Legba (candomblé jeje) Mpambu Njila (candomblé congo-angola),  Pombagiras e Exus (umbanda e quimbanda).
.
Esses sistemas de crenças não são pautados, como no cristianismo pela ideia de pecado ou de oposição entre bem e mal, como algo definido a priori por um sagrado absoluto, mas sim pela ideia de liberdade, necessidade e responsabilidade ou, se preferirmos, causa e efeito de nossas próprias ações. Isso significa que o universo sagrado não está radicalmente oposto à existência material (mas a compõe em todos os aspectos) mas, sobretudo, que a nossa ação na terra exerce influência sobre  esse universo ao mesmo tempo que este exerce a sua influência sobre nós.
.
Assim, as divindades são entendidas – não como bem ou mal, anjos ou demônios, mas –  como forças da natureza ou ancestrais desencarnados que podem nos auxiliar (e eventualmente atrapalhar) na tomada de escolhas ou mesmo interceder por nós naquelas instancias da existência que não alcançamos materialmente, mas esse contato com aquilo que “está além” do que vemos pressupõe mediações e atravessamentos que são possíveis na encruzilhada (fronteira ou ponte). Assim, a encruzilhada é uma dimensão espaço temporal sagrada privilegiada para qualquer pedido e os seus guardiões, cultuados com destaque em qualquer culto  realizado no âmbito desses sistema de crenças.
.
Não é atoa que essas representações (Exu, Mpambo Njila, Pombagira, Legba, etc) foram demonizadas no âmbito do colonialismo escravista. Esse conjunto de crenças representavam riscos reais ao colonialismo porque permitia em uma só tacada que: 1. os africanos (e seus descendentes) preservassem o seu sistema de referencia e memória coletiva  (negando, pelo menos simbolicamente, a máxima colonial segundo o qual os africanos eram coisas e não humanos); 2. fosse possível esboçar relações de poder, ideologia e hierarquia que fugissem ao controle da casa grande, representando grande ameaça e; 3. organizar resistência política implícita ou aberta contra  o regime escravista.
.
O irônico, para retomar ao hipnotizante blues de Robert Leroy Johnson, é que ao associar esse sistema de crenças ao demônio enquanto impunham o cristianismo como única forma de interpretação do mundo, os escravistas cristãos não não contavam com o caráter escorregadio e contraditório dos significados: se o Sinhô afirmava e fazia repetir – sob a força do chicote e da baioneta – que as divindades dinâmicas  da existência eram o diabo ou o mal (Evil)… e diziam ainda que o Bem Supremo era Aquele que abençoava a escravidão, a tortura e o estupro… então, que mal havia em cultuar esse nomeado “mal”  para garantir um bem imediato  que podia variar entre o alívio da dor física ou mental da escravidão, até a tentativa de uma conquista maior como o sucesso no mundo da música, depois de uma abolição que continuou marginalizando e violentando a população negra?
Colonos belgas lendo a Bíblia antes de enforcar uma criança negra de 7 anos de idade, no Congo governado pelo rei Leopold.
Ainda não assisti o Documentário, mas pode ser que Robert Johnson tenha pregado uma grande peça em nosso imaginário judaico-cristão.
.

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo ávores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como ávores e montes e flores e luar e sol.

“Deus”, por Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Parafraseando o ateísmo spinosiano de Fernando Pessoa  , poderíamos dizer que se “Deus” é a ordem que mata e legitima a escravidão, e o “Diabo” a possiblidade de subverte-la – quem disse isso foram os missionários cristãos nas Américas – então, parceiro… chame-os do que quiser  desde que possamos aliviar ou nos livrar, tanto no plano material como sagrado, dos  traumas da tortura, estupro e do linchamento…
.
O problema, para os africanos e seus descendentes na Diáspora escravagista é que essas encruzilhadas da cultura não tiveram efeitos apenas sobre o dominador, mas também sobre si, e eles próprios (nós), a jogar o jogo de dentro  dos significado, também foram (fomos)  jogados para além do que suponhamos ir e ao longo dos tempos e espaços, e acabaram(acabamos) interiorizado parcialmente os valores que outrora lhe(nos) contrapunham. Muitos de nós também acreditamos que Exu era o mal, pouco importando aí se o mal era  o mau a se combatido ou o bem a ser almejado. Quando os evangélicos neo-petqencostais descobriram isso, exploraram essa informação com eficácia mortal que explica hoje o porquê boa parte da  população negra do continente americano fugir como “como o diabo foge da cruz” (?) das representações  sagradas referentes às encruzilhadas. Mas isso é outra história que desfocaria o grandioso e enigmático Robert Johnson.

Não é pelos franceses, é por você, mesmo! Sobre o porquê também deveríamos chorar a queima da Catedral

Por Deivison Faustino

 

Tenho visto muita gente que eu respeito  compartilhando memes em comemoração à queima da Catedral Notre-Dame, um dos símbolos franceses mais conhecidos da dita “cultura universal”. A nossa comemoração à essa perda,  em um país tão violentamente colonialista como a França, é compreensível uma vez que fomos (e somos) colonizados, mas este ato convidativo é tão equivocado quanto a postura de um certo presidente que ignora o incêndio no museu do próprio pais para se solidarizar com perda “dos outros”.  Vou tentar explicar o porquê: 

É verdade que  a  Europa colonial atribuiu narcisicamente  um caráter de universalidade aos seus símbolos (religiosos ou laicos) enquanto desumanizou (ou se apropriou de) tudo o que não era europeu. Se você for no museu do Louvre (em Paris) verá obras roubadas de KMT, Pércia, Península Arábica, América, etc, mas esses povos nunca são representados como universais., apenas os Europeus. É o racismo colonial moderno… e em função dele, o mundo chora a morte de alguns franceses em um atentado terrorista  (ja que toda morte merece o seu luto) mas ignora o genocídio de milhões provocados pelo neo-colonialismo (inclusive francês) então, a comemoração à queima dessa igreja (justo a igreja) que logo será reconstruída  é super compreensível. E esse genocídio também se concretiza  no campo do conhecimento:

XXVII antes de Cristo.  – e no momento em que os europeus ainda estavam nas cavernas  ou saqueando-se entre si  em um sangrento  “jogo de tronos” – o matemático, arquiteto, médico, poeta e filósofo In-hotep já projetava a primeira pirâmide que deu certo (houveram muitas tentativas anteriormente fracassadas)  utilizando, para tal, cálculos geométricos hj conhecidos como “triângulo retângulo. Mas de acordo com os narradores modernos, o “pai” da matemática (e da geometria é o Pitágoras).

Mil anos antes de Darwin, o filósofo árabe  Abu Usman Amr Bahr Alkanani al-Basri (conhecido como  al-Jahiz) formulava, em meio o califado Abássida, publicava  “O livro dos animais” com observações e afirmações que mais tarde seriam consideradas invenções de Darwin (que obviamente aperfeiçoou os saberes com novas observações e conclusões – mas atribuir a ele o  título de Pai da Biologia é desconsiderar a contribuição inclusive de outros europeus como Aristóteles). 

Darwin: o pai do evolucionismo?

Um século antes de Kant (1724-1808) o filósofo etíope Zera Yacob (1599-1692)  misturava Platão e Aristóteles à filosofia etíope e árabe para formular o seu livro “Hatãta”(investigação)  onde defendia que Deus estava na razão (lembra muito a filosofia de Ma-at – que não era desconhecida pelos etíopes) e  não nas escrituras (bíblia) e na igreja. Esses  posicionamentos são a base do que depois seria conhecido como Iluminismo. Mas nenhum africano é mencionado na história dessa filosofia. 

Para o eurocentrismo europeu… de Hegel à Heidegger, a Europa (e nem é qualquer região da Europa)  é o patamar mais avançado da humanidade: é universal e os não-europeus nem são gente, ou não são tão gente assim como eles. Por isso não choramos (nem ficamos sabendo) do bombardeio que destruiu vidas humanas e relíquias culturais no Yemem e nem o extermínio indígena nas Américas… até hoje, a escravidão não foi reconhecida como um crime contra a humanidade e os descendentes dessas vítimas não foram reparados… e assim seguimos… 

No entanto, há uma pegadinha nesse esquema que só é possível perceber se avançarmos para além do imediato em direção à uma série de mediações que por vezes são ignoradas nestes assuntos. 

Narciso antes de morrer afogado por se apaixonar à própria imagem

Foram os europeus que atribuíram a si próprios a pecha de universal , e aos não-europeus o caráter de  especíe(ficos)… mas em resposta a essa mentira narcisista, ao invés de tomarmos de volta a percepção de nós também como universais – afinal, o universal do humano é a sua capacidade de transformar a natureza e a si proprio nesse ato transformador (o trabalho ) – mantivemos intacto o pressuposto eurocentrico  deixando pra eles a ideia de universalidade, e em troca, adquirimos uma espécie de narcisismo invertido (o Fanon chamava isso de “duplo narcisismo”) que nos faz apegar-se a nossa espécie(ficidade) de migalhas. Os mais radicais de nós, em resposta ao racismo europeu e o ódio anti-negro, afirmam só gostar “do que é nosso”… mas nem sempre explicitam quais os critérios que definem “o que é deles” e “o que é nosso”. É o crime perfeito!!! 

Quando a Catedral Gótica de Paris pega fogo…  ela não queima porque o povo percebeu o papel histórico da Igreja na dominação colonial dos povos não-europeus ou na manutenção da sua sua própria  miséria material e espiritual ao longo de dois milênios e resolveu tomar para si o seu destino (material ou espiritual) sem intermediários humanos pseudo-iluminados (isso ocorreu na Revolução Francesa).. ela pega fogo, não se sabe ainda o porquê, mas nesse contexto, nos adiantamos para comemorar porque não conseguimos mais nos ver  naquilo  que não é imediatamente idêntico a nós mesmose isso é uma grande perda humana, aliás… é a expressão do triunfo do colonialismo.  A comemoração só é possível  porque interiorizamos os pressupostos eurocêntricos – que afirmam que  ela não é nossa também… àquilo que está na Europa aparece como se fosse deles (dos “nossos inimigos”), assim como também seria deles a razão, o Iluminismo, a biologia e a matemática… “que queimem então  no inferno todos esses saberes brancos opressores enquanto eu toco o meu tambor”… oi? Quem foi mesmo que inventou e definiu os critérios de marcação entre o “nós” e “eles”? Quem foi que disse que o “deles” não é “nosso”?… e quem foi que acreditou? 

Em primeiro lugar, quem separou  tambor  e razão foram “eles” – os ocidentais racistas, na tentativa de nos animalizar. Em segundo lugar, aquilo que eles disseram ser “deles”, só existe entre eles porque beberam (ou expropriaram ou aprenderam com ) o “nosso” conhecimento, assim como o conhecimento meso-americano, árabe, indiano, persa, chines, etc… não estou colocando em debate se o cristianismo ou a cultura judaica tem raizes africanas (daria um bom debate), mas estou chamando à atenção para o fato de que se tem alguma universalidade na Catedral, não é porque ela é europeia, mas pq é uma obra humana que nos ajuda a entender uma parte importante da história (humana – europeia ou não)… o fato dela ser “cultura universal”  não significa (como defendiam os racistas) que as Igrejas esculpidas em rocha, em Lalibela (Etiópia) ou as universidades de Machu Picchu (Peru) não sejam, mas sim, que o “Nós”, não se resume a uma geografia humana e historicamente inventada (no caso da moderna, inventada por brancos racistas)… o “Nós” se refere   a espécie humana , mas o racismo ensinou aos negros que eles não são parte “disso daí ” (Sic) e eles (nós) obedientemente rebeldes acreditaram…. 

A Catedral de Notre-Dame  mantém viva arquitetura (gótica) muito rica que só foi possível  no contexto europeu mediante séculos de influências entre os godos (tribo germânica) com uma série de culturas antigas (especialmente do mediterrâneo árabe e norte-africano) no âmbito da cultura romana.  Tem saber humano (inclusive africano, mas não só) acumulado ali que também é meu – mesmo que os godos tivessem vindo da Groelândia ou do Polo Norte.

Se a gente levar a sérios os ensinamentos de Cheikh Anta Diop, podemos sugerir que a devoção  dos cristãos patriarcais europeus às várias Virgens Marias (Notre-Dame = Nossa Dama = Madona mia = nossa mãe )  só é possível (olhem o lugar das mulheres nas hierarquias do catolicismo), pq antes das chegadas dos povos setentrionais (saqueadores patriarcais e vindos do extremo norte europeu) ao sul da Europa e depois, com o advento do Cristianismo sob o julgo do Império Romano, vigorava nessas regiões uma série de cultos matriarcais. É possível que o cristianismo, para se estabelecer, tenha tido que negociar  interiorizando elementos nãos cristãos (pagãos) em seu próprio sistema teológico. O culto às madonas podem ser uma grande concessão dessa religião patriarcal a milênios de crença daquilo que eles chamaram de paganismo e depois, ao não conseguir controlar, criminalizaram e queimaram milhares de sacerdotisas (a chamada caça as bruxas europeia). O curioso, é que por uma série de razões que não cabem nesse artigo, a representação destas Madonas (Notre-Dames) em geral é negra. 

Não estou convidando ninguém a se tornar cristão e nem esquecer as atrocidades cometidas em nome do cristianismo, mas o  ponto que gostaria de colocar em debate (inclusive para ser corrigido por dados mais precisos ou reflexões mais rigorosas) é que o  renascimento, o iluminismo, a industrialização, a desenvolvimento do próprio capitalismo seriam impossíveis, na Europa sem o saque, a rapinagem, o estupro, a apropriação de conhecimento do restante do mundo, mas também troca de saber e influências múltiplas.  Se deixarmos o eurocentrismo europeu de lado, veremos que o “nós” é muito mais que aquilo que eles disseram que somos… o “nós” também está “neles”, ou melhor, é obra de toda a humanidade, com as suas diferenças, contradições e diversidades… 

Não estou dizendo com isso, que podemos abolir as  divisões e hierarquias raciais existentes apenas negando verbalmente a sua existência ou afirmando uma “consciência humana” abstrata… o “fogo nos racistas é necessário” de que fala Djonga  é necessário, pois sem a afirmação daquilo que foi negado em contraposição à própria negação  não há movimento social emancipador… e por isso, a “consciência negra” de que falava Steve Biko nunca foi tão necessária como agora, no entanto, o horizonte que  ele via não não pode se perder de vista:  “a busca da verdadeira humanidade”… a superação da racialização imposta pelo colonialismo e a possibilidade de concretizar o sonho de Beatriz do Nascimento…  do contrário, perderemos a guerra antes de começar.

“a terra é o meu quilombo,
meu espaço é o meu quilombo.
onde eu estou, eu estou,
onde eu estou, eu sou.”
Maria Beatriz do Nascimento

A grande pegadinha da história – que infelizmente não cabe em um meme viral –  é que o universal do humano é o próprio humano, em sua atividade sensível de transformação da natureza para satisfazer as suas necessidades e com isso, na transformação progressiva e infinita de seus próprios pressupostos (cada vez mais sociais). O  conhecimento humano é universal, e não alguns humanos particulares. O conhecimento é universal pq é historicamente acumulado a ponto de cada novo salto de saber, acumula em sua raiz, todos os saberes humanos anteriormente desenvolvidos por indivíduos e povos diversos… o Egito (KMT) só foi o grande Egito pq gozou de um contexto geológico  (a cheia do Nilo) e geográfico (o Delta do Nilo permitia o contato com a cima do rio e ao Mediterrâneo)  que favorecia a troca de saberes com povos de outras partes da África e de outros conhecimentos .  

O saber só se desenvolve  quando transborda nacionalidades e geografias… é humano e todos os humanos pertence.. é por isso que deveríamos ter chorado os bombardeios do Daesh (conhecido no ocidente como Estado Islâmico) às ruinas da antiga cidade de Palmira (na Síria)  ou Hatra (no Iraque) – mesmo sem ser sírios ou iraquianos) assim como o incêndio da biblioteca de Alexandria e no terreiro de candomblé de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás…  foi fundamental, na história francesa, enforcar os reis e os padres, mas do ponto de vista humano, se quisermos questionar o papel colonial da igreja, ou nega-la radicalmente em sua existência concreta, faz mais sentido preservar  o prédio como museu ou parlamento (como fizeram os comunista russos) do que incendia-los como fazem os radicais do Daesh, pq afinal de contas, esses espaços (e construções arquitetônicas antigas trazem  traços importantes do que somos ou fomos… se  estes traços se perdem e o único resultado é o empobrecimento ainda maior da nossa própria humanidade… e exatamente ai que o racismo foi tão eficaz:  o branco  racista disse que alguns saberes são brancos… e os não brancos acreditaram, aponto de comemoram a sua destruição. 

O problema aqui considerado situa-se na temporalidade. Serão desalienados pretos e brancos que se recusarão enclausurar-se na Torre substancializada do Passado. Por outro lado, para muitos outros pretos, a desalienação nascerá da recusa em aceitar a atualidade como definitiva.

Sou um homem e é todo o passado do mundo que devo recuperar. Não sou responsável apenas pela revolta de São Domingos.

Todas as vezes em que um homem fizer triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disser não a qualquer tentativa de opressão do seu semelhante, sinto-me solidário com seu ato.

[…]

O indochinês não se revoltou porque descobriu um cultura própria, mas “simplesmente” porque, sob diversos aspectos, não lhe era mais possível respirar.

Frantz Fanon (1952)

PREFÁCIO DO LIVRO “RACISMO E EUGENIA NO PENSAMENTO CONSERVADOR BRASILEIRO: A PROPOSTA DE POVO EM RENATO KEHL”

FAUSTINO, D. Prefácio. In: GÓES, W. L. . Racismo e eugenia no pensamento conservador brasileiro: a proposta de povo em Renato Kehl. 1. ed. São Paulo: LiverArs, 2018. 226p .

Ao abrir este livro, pode o leitor estar certo de que abriu um estudo de alto valor, feito com tenacidade crítica, força de convicção, solidez de argumentos, coragem mental, clareza expositiva e grande originalidade.

Antônio Cândido

 

As palavras acima transcritas, não foram originalmente dirigidas ao presente livro mas poderiam ser, sem nenhuma forçação de barra. Weber Lopes Góes, em seu Racismo, eugenia no pensamento conservador brasileiro: a proposta de povo em Renato Kehlnos oferece uma análise precisa do racismo no seio do pensamento conservador brasileiro.

O paralelo com o livro elogiado por Antônio Cândido [O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio, de José Chasin, 1978] não é gratuito já que ambos investigam importantes expoentes do pensamento conservador brasileiro tendo como mote, por um lado, as particularidades da organização capitalista brasileira, onde o “moderno” (o desenvolvimento das forças produtivas) entrelaça-se com o “atraso” (o escravismo, a sesmaria, o latifúndio, o coronelismo, o patrimonialismo, e a autocracia institucionalizada) ao invés de instaurar relações novas e, no mínimo, democráticas. Por outro lado, o leitor encontrará aqui – assim como acolá – uma análise da influência desses pensadores no curso de acontecimentos decisivos para a história do Brasil.

A diferença entre eles, entretanto, não está na perspectiva teórica – uma vez que ambos se ancoram no filósofo húngaro Gyorgy Lukács (1979; 1959; 2009) para pensar as particularidades de entificação do capitalismo em seu desenvolvimento desigual e combinado – mas sim nas singularidades dos objetos estudados: se José Chasin analisa o Integralismo de Plínio Salgado como expressão própria do caráter hiper-tardio (débil) do nosso capitalismo, Weber Lopes Góes partirá daí para afirmar que esse capitalismo não pode ser devidamente apreendido sem o equacionamento preciso do racismo em sua gênese e reprodução. Uma tarefa ousada que é cumprida com maestria e farta oferta de dados historiográficos e sociológicos que relacionam articuladamente o autor a obra e o seu contexto de produção.

A ousadia da proposta se apresenta ainda mais evidente quando a equacionamos ao atual contexto político e acadêmico brasileiro: a despeito das raras e valorosas exceções, as análises “sérias” a respeito do capitalismo tendem a ocultar as suas dimensões raciais. No polo oposto do espectro, observa-se, da mesma forma, que boa parte dos estudos sobre o racismo o tomam como algo em si, sem conexões com o modo e as relações de produção existentes em cada sociedade, com exceção ao casos econométricos em que a luta de classes é discursivamente reduzida às suas dimensões aparentes e tomada (apenas) como marcador social de diferença. Ao contrário disso, para Góes, “Renato Kehl é um dos intelectuais que expressa a natureza do pensamento conservador brasileiro, pois é favorável à conciliação do ‘novo’ com o ‘velho’, mediado pela eugenia, isto é, conserva os traços de dominação de classe sem favorecer os setores subalternos, ausentes de qualquer avanço democrático ou distribuição de terras ou rendas” (GÓES, p. 215).

Outra distorção frequente que o autor evita é a redução do racismo a um epifenômeno da luta de classes, ou pior, a um mero resquício da escravidão, posição que leva importantes intelectuais brasileiros a suporem que o desenvolvimento (seja lá o que se entenda por isso) do país ou mesmo a negação discursiva do conceito de raça seria suficiente para sua dissolução.

Num caminho diferente, mas, sobretudo, atento aos descaminhos inocentes ou mal-intencionados do nosso pensamento social (subordinado)[1], Weber Lopes Góes nos faz lembrar a famosa sentença atribuída a Tom Jobim –  quando o mesmo afirma que  “o Brasil não é para principiantes” – ao desvelar a propositura teórica de Renato Kehl em meio ao ambiente intelectual que o gerou. Até hoje, se pode encontrar em alguns clássicos brasileiros uma falsa polarização entre a recusa da miscigenação – identificada como expressão máxima do racismo segregacionista – e o seu elogio, visto quase sempre como símbolo da ausência de racismo.

O que encontramos no programa eugênico de Renato Kehl, precisamente captado na presente publicação, é a apologia crítica à miscigenação como uma espécie de mal necessárioque nos leve, ao final, à cura da fealdade[2]e do atrasosocial brasileiro.

A redenção de Can – 1985

Góes nos ajuda a perceber a existência de um jeitinho brasileirodiante nos rígidos ensinamentos segregacionistas do Conde de Gobineau[3], que faz jus à definição de “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, ao pensa-lo (o homem cordial) não como aquele provido de “civilidade” e “polidez”, mas  sim, no seu oposto à civilidade, em suas dimensões coercitivas e formalistas é substituída pela aversão ao ritualismo e a polidez, expressa apenas de maneira aparente e não de fato: o objetivo da Eugenia, segundo Renato Kehl era  –  assim como nos outros membros de seu círculo intelectual[4]- a nada polida extinção completa dos descendentes de africanos no Brasil.

Mas este objetivo não se apresenta de cara, em uma primeira leitura, nem em Renato Kehl e nem na brilhante exposição Weber Lopes Góes. O autor vai explorando o seu objeto de pesquisa, decompondo suas partes, uma a uma, para durante o percurso, ir apresentando uma síntese, cada vez mais concreta de suas determinações ideológicas e políticas. Por isso, argumenta:

constatamos que seu objetivo era fornecer subsídios para a concretização de um projeto de povo brasileiro, sendo necessário, para isso, enfrentar e resolver as questões relacionadas ao sanitarismo, à educação, delinquência, pobreza, prostituição, raça, imigração e mestiçagem. A eugenia era a ferramenta primordial para disponibilizar os meios de superação dos problemas (GÓES, p. 212).

A ideologia eugênica – que se propunha ao mesmo tempo como ciência e religião – proposta por Kehl é apresentada, primeiramente, em seu contexto histórico mais amplo, remontando ao surgimento do conceito de raça, ao chamado racismo científico e ao darwinismo social na Europa imperialista do século XVIII e XIX. Vale avisar, entretanto, que o leitor não encontrará aqui apenas uma história das ideias eugênicas, mas também, das determinações materiais que as possibilitaram emergir em uma Europa burguesa que opta, de um lado, por explicar biologicamente as contradições de classe no capitalismo maduro e do outro, justificar a ocupação imperial-colonialista de territórios não-europeus.

Em seguida, o autor se debruça sobre as particularidades da formação social do Brasil e a objetivação do conservadorismo em importantes expoentes do pensamento social brasileiro ou das políticas públicas de saúde ou educação como Oliveira Viana, Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Artur Neiva, Belisário Pena, Carlos Chagas, Miguel Pereira, Azevedo do Amaral, Vital Brasil, Dr. Arnaldo, e Afrânio Peixoto. Todos estes inspirados no racismo científico e ativos militantes eugênicos.

É deste ciclo intelectual que surgirão os primeiros encontros e congressos eugênicos, bem com os subsídios políticos para a formulação de políticas públicas implementadas pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. É um pouco frustrante, para quem se engaja em uma luta antirracista apenas por meio das políticas de representação, descobrir que o brilhante psicólogo negro Juliano Moreira – frequentemente lembrado como o pai da psiquiatria no Brasil – também era um adepto do movimento.

É só no final, quando analisa as propostas da Eugenia como nova religião que o autor nos expõe as dimensões de gênero e raça da eugenia. Chama a atenção que Renato Kehl estava atento às diversas vertentes do feminismo e, portanto, se posicionava no debate defendendo aquilo que chamava de “bom feminismo”, em contraponto ao “mal feminismo”.

O primeiro, segundo o pensador eugenista, seria aquele que valorizaria as mulheres incentivando-as a serem boas mães e boas esposas. Nas palavras de Kehl, apresentadas criticamente por Góes, o feminismo deveria “contribuir para a preservação da mulher na posição de companheira do homem, gabaritada para ganhar a vida com o trabalho, caso seja necessário, e ‘cultivando talentos, se o tiver’”. Já o mal feminismo, seria aquele composto por “mulheres extremistas” que tentam se igualar aos homens. Nenhuma novidade no país que realizou agora em 2018 o 1o. Congresso Antifeminista do Brasil[5].

Outro tema, presente na proposta de Renato Kehl, e que a caracteriza, segundo argumenta Góes, como expressão do pensamento conservador no Brasil, é a sua recusa frontal à modernidade e ao humanismo.  Entretanto, dado que a crítica à modernidade não é exclusividade do pensamento conservador, é valido explicar que a sua posição parece estar mais próxima da posição do Nietzsche de O Nascimento da Tragédia e Além do Bem e do Mal (e por que não, Olavo de Carvalho), como afirma, Kehl, citado por Góes:

a civilização mudou por completo os verdadeiros instintos da seleção natural, transformou os ideais da humanidade e interferiu na marcha selecionista da espécie. Os mais fortes foram os que garantiam a vitória benéfica entre os homens, pois a evolução desde o período neolítico até a nossa atualidade tem colocado a espécie humana numa posição superior aos demais animais. Todavia, a “civilização fez que o homem da caverna passasse a habitar palácios; fez que o código da natureza fosse abrigado e substituído pelo código do sentimentalismo humano” (KEHL, 1923b, p. 22, apud GÓES, p. 182).

Por fim, e não menos importante – especialmente neste ano em que a parte da população da cidade de Pacaraima, em Roraima, expulsou violentamente os imigrantes venezuelanos que ali se encontravam[6]- são as proposições do já mencionado autor eugenista às políticas migratórias. O interlocutor do movimento eugênico brasileiro, como nos apresenta Weber Lopes Góes, visualizava a mistura racial como possibilidade de embranquecer a população brasileira e, com isso, diminuir a criminalidade e as demais contradições sociais do país. Assim, defendia a imigração, mas propunha, na mesma medida a existência de leis regulatórias que impedissem certos tipos de imigrantes.  Em outras palavras, a imigração era desejada, desde que oriunda da Europa, para todos os outros imigrantes – especialmente africanos – propunha-se o fechamento da fronteira.

O leitor tem em mãos um estudo muito rico detalhado de Renato Kehl, de sua propositura teórica e de seu período, permitindo-nos uma melhor compreensão não apenas do passado mas também de um certo presente que não acertou as contas com ele. O livro nos provoca a pensar nas permanências fantasmagóricas deste passado quando pensamos na violência, estigma e barreiras vividas por imigrantes e refugiados não-brancos que vivem entre nós, mas também nos índices absolutamente desproporcionais de mortalidade entre a negros/as quando comparados a brancos/as para problemas como assassinatos, morte em função do parto, Aids, tuberculose e etc, quando observamos a dimensão racial do mapa brasileiro do encarceramento ou a distribuição geográfica da população de qualquer capital do pais.

Somente a observação atenta das reminiscências do projeto eugênico entre nós – obviamente de forma “cordial” e mascarada – se pode entender a resistência vivida no Brasil às tentativas de aplicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e da Política Nacional de Saúde da População Negra, bem como ao tratamento violento que a especulação imobiliária e o agronegócio vem tratando as populações indígenas e quilombolas.

genocídios contemporâneos

Weber Lopes Góes nos alerta em seu estudo sobre Renato Kehl que a eugenia não se resumiu à castração dos indivíduos considerados inaptos, mas se fez presente na história do Brasil como um poderoso e eficaz projeto – em franca implementação – de sociedade em que o negro não era bem-vindo. Afinal, como alertou Clóvis Moura (1988), para essa elite, que Kehl compôs e apostou todas as fichas, “o Brasil teria que ser branco, capitalista e cristão” e para que esse objetivo fosse alcançado, não apenas os projetos alternativos de sociedade deveriam ser radicalmente combatidos, mas até a própria democracia (e, principalmente, de assistencialismo) deveria ser erradicada com vistas ao retorno de um hobbesianismo nietzsche-darwinista que favorecesse a multiplicação dos “mais fortes” e “saudáveis” em detrimento daqueles que configurariam o oposto. Como afirma Góes, para Kehl:

O “humanismo” da civilização transformou os verdadeiros intuitos seletivos próprios da natureza, provou a estagnação da humanidade favorecendo a proliferação dos degenerados e criminosos. Entretanto, a civilização ao trazer tais implicações à sociedade, contraditoriamente, nos deu o seu principal mediador, entre a vida social e biológica, neste caso, o remédio da eugenia (GÓES, p. 183).

Para Kehl – mas também para muitos influentes políticos contemporâneos – bolsa família, políticas de ações afirmativas, e outros tipos de políticas de assistência, mas sobretudo, – não esqueçamos – a possibilidade de auto-organização da classe trabalhadora, são problemas que devem ser frontalmente combatidos. Basta assistirmos alguns minutos da propaganda eleitoral para perceber que o clamor para mais cadeias (onde se inclui a castração de criminosos), segregação social e espacial daqueles que são considerados perigosos em potencial, fechamento da fronteira para determinados imigrantes, exaltação de um certo padrão de beleza e estímulo à sua reprodução são consignas que não se restringem aos autores citados no brilhante estudo de Weber Lopes Góes. Mais atual do que isso impossível.

 

Deivison Mendes Faustino

Professor do Departamento de Saúde, Educação e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Integrante do Núcleo Reflexos de Palmares, do Grupo Kilombagem e do Instituto Amma Psique e Negritude

 

São Paulo, 26 de agosto de 2018.

[1]“Pensamento social subordinado” é o termo utilizado por Clóvis Moura (1988) para descrever a vinculação ideológica (conservadora) dos primeiros estudos sobre o negro no Brasil. Trata-se, segundo argumenta, de uma sociologia subordinada aos interesses e privilégios (de raça e classe) ao qual se originam. Tal classificação inspirou-se na constatação Guerreiro Ramos ao afirmar que a “nossa sociologia do negro é, em larga margem, uma pseudomorfose, isto é, uma visão carente de suportes existenciais genuínos, que oprime e dificulta mesmo a emergência, ou a indução da teoria objetiva dos fatos da vida nacional” (Guerreiro Ramos citado por Moura, 1988, p. 20).

[2]Como nos mostra Góes, “A cura da Fealdade” é o título de um dos livros de Kehl, publicado em 1923, onde defende a mistura racial, a chamada mestiçagem, como solução para o país, como afirma, citando o referido autor: “a miscigenação é concebida como projeto inteligentede extinção do negro, ou seja: ‘Sendo o Brasil um cadinho de cruzamentos, pode-se afirmar que ele está avançando para o aperfeiçoamento do seu povo, até constituir uma raça forte, vigorosa e intelectualmente superior’”

[3]Joseph Arthur de Gobineau(1818-1882) foi um diplomata, escritor e filósofo francês. É conhecido como um dos mais importantes teóricos do racialismo do século XIX. Defendia a desigualdade biológica entre as raças e se aliava a outros teóricos que defendiam que a história da humanidade é a história da luta de raças. Entretanto, para ele, a o lado mais forte (europeu) estaria perdendo a luta. É neste contexto que fará sua mais famosa declaração “não creio que viemos do macaco, mas creio que estamos caminhando nessa direção”. Para Gobineau, a miscigenação levaria as espécies à degeneração.

[4]Me refiro aqui a Lobato, Neiva, etc., listados pelo autor neste estudo.

[5]Com os lemas “feche as pernas”, “libertar o Brasil da tirania do comunismo”, o 1º Congresso Antifeminista do Brasil reuniu cerca de 150 pessoas na Igreja de Sant’Ana, no centro do Rio de Janeiro em 4 de agosto de 2018. Ver: https://epoca.globo.com/feche-as-pernas-que-pregam-os-participantes-do-1-congresso-antifeminista-do-brasil-22964525#ixzz5OkO5lvhU.

[6]Ver, nesse sentido:  https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2018/08/18/venezuelanos-atravessam-a-fronteira-apos-ataques-em-rr-veja-video.ghtml.

Reflexões e Informes

Link para a Tese “Frantz Fanon e os fanonismos no Brasil”  – Deivison Faustino (Nkosi) (2015)

Resenha do livro What Fanon said, de Lewis Gordon (2016)

A Série é o ópio do povo (2016)

VICH, FODEU! A ESQUERDA ESTÁ EM CRISE!!! Mas a foda ainda é o melhor maneira de alcançar o orgasmo (2016)

Nonagésimo aniversário de Fanon – seleção de textos de e sobre Fanon (2015)

Je suis… hypocrite et sélective (2015)

Sobre Cláudias e Adelaides: se “uma piada é só uma piada” porque não rimos do tombo da própria mãe? (2014)

Pan-africanismo, marxismo e as encruzilhadas nossas de cada dia (2014)

Apoio à Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta: por que marcharemos no dia 22 de agosto? (2013)

O Governo de São Paulo e a máfia do Metrô (2013)

Os crimes de maio e as manifestações de junho e o Amarildo: o extermínio nosso de cada dia (2013)

TAMBÉM ASSASSINA QUEM APONTA O REVOLVER!!! Por que o Senhor Atirou em mim? (2013)

bell hooks e as Intelectuais Negras (2013)

O Egito (KMT) e a história da perfumaria (2013)

O Encarceramento em massa e os aspectos raciais da exploração de classe no Brasil.(2013)

Heidegger e o Nazismo (por José Pablo Fenmann) (2012)

Reflexões sobre o perigo de uma história única (2012)

Introdução ao Estudo das civilizações Africanas (2011)

 

Education from an Afrocentric perspective

postado originalmente em 19 de outubro de 2011

 

This ppt (Education from an Afrocentric perspective) was presented at the CUMBRE MUNDIAL DE JUVENTUD AFRODESCENDIENTE  – Costa Rica 2011

The goal is to conduct a critical dialogue in relation to myths about Africa and African descent in the world.
The presentation shows that Africans contributed actively to the development of universal human

Deivison Nkosi – Kilombagem Group – Brazil

Aula: Racismo, Colonialismo e Racismo Moderno

Postado originalmente em 08 de junho de 2011

 

Existem atualmente muitas “visões” em disputa sobre o que é o Racismo. A visão mais difundida é a que confunde o racismo ao preconceito (em geral). Em alguns casos chega-se a dizer que existe racismo contra gordo ou homossexual. Outros (às vezes bem intencionados) afirmam que a “questão não é racial e sim social”.

Estas visões reducionistas do racismo além de confundi-lo com preconceito acabam por ignorar que o racismo não se resume a pré-jugamentos a cerca do negro, mas que está sim relacionado à divisão e conservação “racial” de privilégios (de classe).

Nas palavras de Fanon:

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais  vasto: a opressão sistematizada de um povo(…) Assiste-se à destruição dos valores culturais, das modalidades de existência. A linguagem, o vestuário, as técnicas são desvalorizados. Na realidade, as nações que empreendem uma guerra colonial, não se preocupam com o confronto das culturas. A guerra é um negócio comercial gigantesco e toda a perspectiva deve ter isto em conta.

A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone.Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência. A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objetivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas afirmado, com todo o seu peso de canhões e de sabres.” (Frantz Fanon)

Nesta perspectiva, podemos afirmar que o racismo está associado aos interesses econômicos das classes dominantes.  E este fator sugere que o seu fim esteja relacionado e exija a socialização da economia (dos meios de produção).

Por outro lado, a não compreensão correta do racismo pode levar-nos (mesmo nos casos em que bem intencionados) a mobilizar forças e concentrar energia em ações que não combatem o racismo de fato, mas nos dão a (muitas vezes falsa) sensação de que estamos avançando rumo a uma sociedade mais fraterna.

Para uma compreensão adequada do racismo é importante considerar em primeiro lugar as diferenças entre preconceito, discriminação e racismo.

Em segundo lugar o racismo não é um fenômeno cultural autônomo, e nem está inacessível para ser transformado. A constituição  histórica do Racismo esta profundamente relacionada ao desenvolvimento do modo de produção capitalista.

Em terceiro lugar o racismo atravessa o tempo e se renova durante o século XXI a partir da opressão não assumida dos africanos e seus descendentes em todo o globo terrestre, agora unificado pela mundialização do capital. Em todos lugares que observamos, os africanos (e/ou seus descendentes) são os mais pobres, inclusive no continente africano, em contraste com um melhor padrão de vida dos Europeus (e seus descendentes pelo mundo, inclusive nos países africanos).

A aula apresentada no slide acima comenta alguns destes pontos objetivando a construção de uma análise crítica sobre as relações raciais, apontando para a transformação da nossa sociedade e alertando para armadilhas conceituais freqüentemente difundidas a respeito do racismo.

 

Deivison Nkosi

A formação continuada para educação das relações étnico-raciais: um relato de experiência

FAUSTINO e OLIVEIRA. “A formação continuada para educação das relações étnico-raciais: um relato de experiência”.  in: Cultura afro-brasileira: temas fundamentais em ensino, pesquisa e extensão [recurso eletrônico] / organização José Carlos Gomes da Silva, Melvina Araújo. – 1. ed. – São Paulo : Alameda, 2017. pp. 61-84

Artigo que escrevi com Leila Maria de Oliveira, relatando uma experiência de formação de professores nos temas referentes às Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação das Relações Étnico-Raciais, no município de São Paulo, sob a coordenação da Elisabeth Fernandes de Sousa e supervisão de Billy Malachias e Valter Roberto Silverio.

A coletânea também conta com textos de Salloma Jovino Salomão, Janaína de Figueiredo, José Carlos Gomes da Silva, entre outros.

Acesse a coletânea completa [Aqui]