O Coronavírus e a quarentena que não chega na Periferia: O que fazer?

Este texto foi publicado, originalmente, no dia 17 de março de 2020, quando o Brasil já contabilizava 291 casos confirmados e uma morte por complicações provocadas por COVID-19. À esta altura a maioria dos casos (57%) ainda eram “importados” (aqueles contraídos fora do país) e 32% oriundos de transmissão local (adquiridos no contato com o primeiro grupo) e apenas 12%, resultado da “transmissão comunitária” (quando não se sabe identificar a cadeia de infecção). Isto significa que a epidemia, no Brasil, com algumas exceções, ainda estava concentrada nas classes com poder aquisitivo para circular internacionalmente e em seus congêneres do mesmo grupo social.

Neste momento, diante das informações disponíveis sobre a dinâmica de infecção e contensão do vírus na China, Irã, Itália e Espanha, mas também da subestimação por parte da Presidência da República do Brasil, em relação ao potencial destruidor da pandemia no Brasil, alguns pesquisadores e ativistas da saúde, ao qual me incluo,  empenharam-se em divulgar ao máximo  as consequências e as previsões de adoecimento e morte. A divulgação dos dados visava alertar as autoridades políticas e sanitárias a respeito dos riscos, mas sobretudo, instar a população me geral a aderir ao confinamento social como possibilidade de amenizar a curva de infecção do vírus.

A questão que motivou a escrita do presente texto – e consequentemente a redação do seu título –, na ocasião, foi a minha constatação, em redes sociais das mais variadas, de uma preocupação crescente de lideranças comunitárias, ativistas e militantes que vivem nas favelas ou que atuam com população de rua ou institucionalizadas pelo encarceramento sobre como cumprir o isolamento necessário – a chamada quarentena –  diante das históricas desigualdades de habitação, saneamento, acesso à saúde e ao trabalho decente à que a população negra e periférica está assujeitada nos grandes centros urbanos onde a epidemia vem crescendo vertiginosamente.

Reviso este texto no dia 31 de março, quando o Brasil, que ainda não conseguiu disponibilizar testes suficientes para saber o real alcance da epidemia, conta com 4.661 casos confirmados e 154 mortes (803 casos confirmados e 39.016 mortes no mundo todo), e após o Governo Federal ainda resiste – sob a descrença nas evidências científicas e confronto às próprias recomendações e previsões do Ministério da Saúde – a criar ações coordenadas para garantir as medidas de prevenção da infecção. Não obstante, lançou uma peça publicitária chamada “O Brasil não pode parar” (felizmente suspensa pela Justiça Federal do Rio de Janeiro) onde incentivou os trabalhadores precarizados do setor de serviço a romperem a quarentena em nome da economia do país. Chamou a atenção, no entanto, que 99% das personagens apresentadas na peça publicitária eram negros, o que indica bem qual é o grupo a ser sacrificado.

Devido à urgência do texto, na ocasião, pensado para circular entre ativistas e lideranças comunitárias, mas também, devido à mobilização pública que se seguiu, a presente redação foi atualizada com indicação de novos dados e Redes que naquele momento não existiam ou não eram de meu conhecimento.

 

Salve família,

Tenho lido muitos relatos (coerentes) lembrando que em uma sociedade desigual como a nossa a quarentena é privilégio para poucos e que nas quebradas (das periferias ou dos centros) ou mesmo para o povo que vive nas ruas o bagulho é diferente. Nestes lugares os trabalhadores (a maioria preto/as) são jogados à situações degradantes de moradia, saneamento, trabalho e transporte precários e, por isso, não podem se dar ao luxo de seguir as recomendações da Organização Mundial de Saúde.

Escrevo este texto para concordar com essa preocupação, mas também para fazer algumas considerações que podem ser importantes daqui para frente:

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Em primeiro lugar, é fundamental denunciar essa Necropolítica de classe e raça que impede que tenhamos acesso à iguais condições de cuidado contra esta e outras epidemias (as outras mortes de sempre não tiraram férias na periferia enquanto o Novo Corona entra em cena). No entanto, seguir apenas repetindo que “para a Perifa a quarentena é um luxo inalcançável” é contraproducente e não resolverá o problema que está por vir, aliás, acaba revelando um tipo de negacionismo irracional. Este é o momento de pensar, partindo dessa correta constatação, o que fazer.

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Taxa de mortalidade COVID-19 por idade

Em segundo lugar,  o grande desafio, neste momento, especialmente diante de um presidente que desacredita os dados científicos e as recomendações do próprio Ministério da Saúde incentivando os pobres a seguirem trabalhando,  é convencer o nosso povo (especialmente os/as nossos/as mais velhos/as) de que a situação é séria e requer cuidados difíceis, mas necessários: cancelar aquele bom papo no bar, aquele churrasco firmeza no final de semana, o beijo dengoso no rosto ou na boca, e, por que não, adotar a saudação wakandiana, quando encontrar aquele/a truta firmeza? Isso não significa ignorar que o nosso povo vai ter que continuar pegando o trem e busão lotados, vai seguir se expondo enquanto trabalha de forma precária (porque a maioria é “autônomo” ou operário mal pago). A questão que precisaremos pensar, a partir de agora é: CASO NÃO SEJA POSSÍVEL SE ISOLAR, que redução de danos podemos inventar e utilizar para minimizar a treta que está por vir? Quais meios e estratégias devemos desenvolver para nós defender o máximo possível?

– se não posso me isolar em casa, posso, pelo menos, evitar cumprimentar dando as mãos ou beijo no rosto quando precisar estar fora de casa?

– se tenho que pegar o busão ou o trem, posso usar máscara? Segundo a OMS, a máscara só é recomendável para quem estiver doente e para os profissionais de saúde. Mas e no Busão lotado onde a distância mínima de um desconhecido se mede em  poucos centímetros? Mas se não tenho máscaras, há outros recursos como lenço (gangsta ou trap stile), máscara k-pop ou qualquer, bandana ou coisa parecida que posso usar ou improvisar?

– se precisei usar transporte público ou pegar em dinheiro ou mercadoria de outra pessoa: dá para usar álcool em gel após cada contato com o corrimão e banco do busão ou as mãos das pessoas? se não tiver álcool em gel, dá para improvisar uma garrafinha de água com detergente?

Tem se discutido, atualmente, o grau de eficiência e efetividade destas medidas que estou indicando, mas por hora, a pergunta mais sensata deve mobilizar profissionais de saúde e ativistas é: “quais os meios disponíveis em cada realidade que podemos lançar mão para diminuir o máximo possível a vulnerabilidade ao contágio?”. Esse debate é tão importante quanto a constatação de que a quarentena não chega na favela.

Agora, se o bagulho virar The Walking Dead, truta, com comércios totalmente fechados, crise de abastecimento, caos social e saques em desespero ou mesmo se os governos continuarem ignorando a periferia no planejamento do Covid19,  teremos que nos antecipar e ir organizando grupos comunitários (os coletivos de quebrada, partidos, organizações comunitárias serão fundamentais) e redes/comitês/articulações amplas de defesa da saúde para suprir as ausências do Estado nas quebradas: fazendo compras para os mais velhos ou com dificuldade de locomoção; arregimentando doações de itens de higiene para moradores de rua e os mais necessitados; e eventualmente, pensando estratégias de socorro (locomoção para hospitais, e até velórios, se for o caso) e até de segurança das quebradas, porque o medo e a necessidade extrema podem libertar monstros horríveis no que há de melhor em nós… tudo sem esquecer a própria segurança, óbvio!

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Para além de tudo isso, os momentos de crise oferecem ótimas oportunidades para colocar em reflexão, enquanto  agimos, que sociedade é essa que nos coloca nessa situação de vulnerabilidade e que sociedade queremos daqui pra frente, mas, sobretudo,  qual é o papel dos bens públicos como o SUS, diante do interesse comum. O capitalismo está entrando em uma das maiores crises já vistas nos últimos anos e A SOLUÇÃO DELES é aumentar a precarização da NOSSA vida através de reformas (na verdade, deformas) que destroem a educação, renda, moradia e, sobretudo, de saúde dos NOSSOS. Como um urubu que sobrevoa a carniça que ainda nem veio à óbito, Paulo Guedes, antes de se infectar, estava propondo aproveitar o momento pra “acelerar as reformas”. “É a nossa destruição que eles querem, física e mentalmente o mais que puderem” (Racionais, Mcs). Por outro lado, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, ao constatar que o capitalismo está cagando para a nossa segurança, mandou papo reto ao  ameaçar fazer greve, reivindicando uma licença remunerada para os trabalhadores em quarentena. Na França e Itália explodiram uma série de greves espontâneas – mesmo sem a participação das burocracias sindicais – reivindicando licenças remuneradas (o grande Capital tem gordura de sobra para isso, mas só o fará se estiver pressionado pelos trabalhadores). O momento exige que transformemos o medo em auto-organização e que utilizemos os meios tradicionais de afastar ou confundir as pessoas (Zap-zap, insta, face, telegran) e mesmo aquela JBL possante a serviço do Pancadão para dar a letra certa e organizar redes de ajuda mútua e partilha de informações sérias que possam nos ajudar a atravessar o que está por vir.

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Por fim, é mais que o momento de politizar a distribuição desigual de recursos de saúde e saneamento e nos apropriarmos desta luta (independente de qual igreja teórica a nossa militância se baseie). O Sistema Único de Saúde (e também as pesquisas de saúde que podem nos salvar neste momento) vêm sendo atacados por este governo messiânico e fundamentalista, mas mesmo antes destes ataques, o SUS já chegava com mais precariedade aos territórios negros, rurais, quilombolas, ribeirinhos e, à população de rua ou dos cortiços dos grandes centros urbanos (o Racismo institucional). Há o risco deste Racismo Institucional se repetir agora, no momento de crise onde não há teses, leitos ou respiradores suficientes… Nós conhecemos bem o amargo colapso do Sistema de Saúde muito antes de existir Coronavirus, em cada negligência, fila e mal atendimento  vivido em primeira pessoa. No entanto, é necessário lembrar que o SUS é uma conquista que só foi possível por conta da mobilização política do povo preto junto a outros grupos sociais e, sobretudo, reconhecer, que algumas direitos são alcançados com a luta organizada. Ao acompanhar um parente ou amigo necessitado, que precisar do Sistema de Saúde, teremos que nos colocar como militantes da saúde pública e universal (princípios do SUS) e neste momento, se informar sobre com funciona o Sistema e, principalmente, sobre os movimentos de defesa da saúde pode nos ajudar muito.

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Penso que este é o momento das Redes Ativistas de Saúde se apresentarem para a população como mediadores e aglutinadores do que chamamos de Controle Social das políticas de saúde, de forma a ajudar as pessoas comuns e militantes de outras áreas a não lutarem sozinhas. Seguiremos defenderemos o SUS com toda a nossa força, mas sabemos que a Necropolítica tem endereço, especialmente em momentos de crise. É o momento de exigir dos governos a criação de estratégias concretas de enfrentamento ao Covid nas periferias, quilombos, comunidades indígenas, presídios e população de rua.

Hora de colocar nossas teorias em prática e, mesmo sob isolamento biológico, romper o isolamento social e político a que fomos confinados e acabamos aceitando nos últimos anos. Hora de forjarmos o novo, assumindo a dianteira dos nossos próprios corres. O “nós por nós” nunca fez tanto sentido, mas ele deverá ser muito mais amplo do que imaginávamos ou definharemos confinados em nossas verdades inertes!

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Destaco, a seguir, algumas iniciativas firmezas que foram aparecendo ou sendo fortalecidas nos últimos dias e podem ser úteis (não conseguirei listar a todas, mas elas mandam a visão do que pode ser replicado):

Memórias de um MC: relatos de uma caminhada a partir do hip hop militante

Por Deivison Nkosi

O artigo que se segue, apesar de ter sido publicado em 2017, foi escrito em 2012, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na disciplina Sociologia Urbana, do  Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (PPGS-UFSCar), oferecida pelo Prof. Gabriel Feltran. A ocasião da escrita foi marcada, em primeiro lugar, pela euforia econômica – com fortes impactos culturais –  gerada nas periferias das grandes cidades do Brasil, devido ao aquecimento econômico e à ampliação dos índices de consumo das classes C, D e E, ocorridos durante o Governo Lula (2003-2010).

Era um momento em que se discutia se ainda fazia sentido existir rap de protesto, uma vez que a realidade empírica sugeria ser possível a ascensão individual pelo consumo financeirizado. Por outro lado (ou, em consequência,), era o momento em que eu, um MC militante e panafricanista de esquerda, aposentava  o microfone e iniciava o doutorado em uma cidade do interior paulista. Apesar de ser um texto datado, torna-se extremamente precioso e revelador de como uma parcela da juventude negra de uma certa época respondia política, subjetiva e esteticamente aos dilemas de raça, classe e gênero.

*O texto abaixo, com excessão das fotos, foi integralmente publicado em FAUSTINO, D. M. Memórias de um MC: relatos de uma caminhada a partir do hip-hop militante. In: BERTELLI, Giordano B.; FELTRAN, Gabriel. (Orgs.). Vozes à margem: periferias, estética e política. São Carlos: EdUFSCar, 2017,  , p. 233-258.

 

Memórias de um MC: relatos de uma caminhada a partir do hip-hop militante

Os dilemas da memória  

Originalmente, esse texto, que por pouco não foi uma música, seria nomeado como Memórias póstumas de um MC. Evidentemente, contra a minha vontade, o grupo de  rap Amandla,  ao qual  dediquei tantos anos da minha vida, havia se dissolvido e eu  – agora, ainda com tantos  sonhos, porém, com muito mais responsabilidades, que não se assemelhavam em nada ao contexto de sua criação,  precisava encontrar uma maneira de elaborar o luto, mesmo que fosse escrevendo uma letra final. Todavia faltava-me o estímulo necessário.

E esse estímulo chegou em meados de 2012, depois de assistir às aulas de Sociologia Urbana do Prof. Gabriel Feltran, no PPGS-UFSCar. Nas aulas, o professor apresentou algumas letras de rap, ao lado de textos sociológicos renomados, como subsídio teórico privilegiado para a compreensão das contradições do Brasil contemporâneo.  Empolgado com a iniciativa e, ao mesmo tempo, provocado pelas reflexões proporcionadas pelas aulas, resolvi chegar junto ao debate falando um pouco da minha trajetória pregressa como MC e ativista orgânico do Movimento Hip-Hop durante 15 anos.

Escrever este texto foi uma tarefa deliciosa, que me despertou sentimentos diversos[[i]]. Enquanto digitava o manuscrito, fui me dando conta de que o tema “memórias póstumas” não seria capaz de expressar o meu desejo de seguir a caminhada por outros meios. A “morte”, representada pelo fim do grupo musical, não havia “matado” em mim a disposição para seguir em frente, a partir de novos ciclos. Assim, resolvi renomear o artigo como “Memória de um ex-MC”. Após escrever o manuscrito e submetê-lo à crítica de alguns amigos, recebi da MC Larissa Borges Amorim, do grupo Negras Ativas de Belo Horizonte, alguns preciosos comentários, que muito me emocionaram. Entre eles, uma advertência, que abalaria o meu sistema nervoso e o sanguíneo:

Como assim, ex-MC? Preto, você tem o poder da palavra. Lembra? Se MC é aquele(a) que representa a Cultura Hip-Hop, que com o Microfone na mão e através de suas posturas, falas e atitudes,  mostra-se conhecedor(a) e integrado(a) ao Hip-Hop. Aquele(a) que através da palavra é, registra, revela, visibiliza, media, articula, organiza, mobiliza, promove… é Griot contemporâneo(a). Tem que ver com habilidades que a gente desenvolve e com ações que a gente realiza, mas que se incorporam em nós. Você sente que é possível deixar de ser MC? Talvez você seja um MC descansando suas rimas no papel. No máximo um MC aposentado… e vai saber por quanto tempo?

Dizer o que, depois disso? Tratei logo de suprimir o “ex” do título e, desde então, o texto segue com o seguinte nome: “Memórias de um MC: relatos de uma caminhada a partir do hip-hop militante”.

Acho relevante confessar que relutei em submeter este texto à publicação. Primeiro, como será possível constatar, relato um processo rico e, ao mesmo tempo, contraditório, em que não fui apenas um observador distante, mas, sobretudo, parte constituinte e, como tal, sujeito a parcialidades que se farão notar durante a leitura.  O hip-hop, bem como outras expressões políticas e culturais modernas, é demasiadamente complexo para ser reduzido à perspectiva que aqui apresento e as posições políticas e ideológicas que eu defendi nunca foram hegemônicas no rolê como um todo, mas, ainda assim, na humilde, mas, ao mesmo tempo, ciente de que este relato pode ser útil, resolvi registrar a caminhada e disponibilizá-la a  quem interessar.

O segundo motivo pelo qual relutei em publicar o texto relaciona-se com os dilemas pertinentes ao lugar comum do Negro na Academia. Via de regra, a participação do Negro no universo acadêmico pode ser resumida à sua aparição como mero  objeto de estudo, ou, na melhor das hipóteses, a “informante privilegiado” da reflexão de outrem. O Negro que se lança nesse espaço, ainda eurocêntrico, tem que driblar – estamos longe de falar em superar – as marcas da racialização.

Publicar um artigo que mistura as “expressões linguísticas” aprendidas ao longo da vida com os jargões – por que não falar em gírias? – acadêmicos da sociologia. para falar, em primeira pessoa, de experiências relacionadas à favela, ao crime e racismo, pode reforçar estigmas demasiadamente pesados para quem almeja ser intelectualmente reconhecido nesse espaço, para além desses rótulos.

De todo modo, como me lembra a Griot andreense Sônia Maria de Souza Raimundo, “quem tem medo de cagar não come”, então, pode pá que é nois que tá! Por via das dúvidas – ciente de não fazer parte dos que definem o que é ou não é o padrão e a norma – optei por escrever as gírias da minha quebrada em formato itálico, enquanto finjo naturalizar as gírias da academia.

Por último, e não menos relevante, é importante reconhecer que em empreitadas como essa que estou assumindo, a memória encontra dilemas que não podem ser ignorados: não há quem não fique empolgado ao contar a sua história e  o  entusiasmo  por apresentar a própria trajetória como uma saga heróica pode fazer com que a trama assuma um tom teleológico, que só existe na imaginação do narrador, apresentando a falsa ideia de que o desfecho da história já estava inscrita desde o início. Não estou certo de ter superado esse dilema – se é que é possível superá-lo – mas tentei ser honesto com as lembranças que tenho, mesmo correndo o risco de ser injusto com alguém.

Busquei, ao longo do texto, apresentar alguns trechos de músicas que marcaram minha caminhada, mas, desde já, aviso aos não iniciados na arte do flow – refiro-me ao rap enquanto gênero musical – que essa expressão artística não foi originalmente criada para ser lida, e sim escutada.  Isso significa, penso, que a dimensão estética da produção pode ser potencializada quando se mescla a leitura das letras com a audição simultânea das músicas e, por isso, fiz questão de oferecer, nas notas de rodapé, o link para todas as canções citadas.

 

O Sítio dos Vianas

Minha mãe (Alaíde), irmã (Shirlei) e eu, em frente de casa… provavelmente aos 5 anos

Em 1995, quando eu ainda tinha 13 anos de idade, transferi o meu horário de estudos para o período noturno, para poder trabalhar durante o dia. Como a transferência aconteceu no meio do ano, só o que me restou foi uma vaga na sexta série F, descrita pelos professores da escola como sendo “a pior turma da escola”.

Para a minha sorte, havia vários manos do Sítio, nessa turma, e antes que eu fosse vítima de alguma zueira, por ser muleke novo na área, o meu vizinho, pelo menos  uns 10 anos mais velho do que eu, avisou em voz alta a quem pudesse escutar: “Ninguém mexe com o muleke que ele é do Sítio!”.

Naquela época, ser do Sítio era um fator que demarcava o nosso lugar no mundo: as guerras entre grupos criminosos e as numerosas mortes resultantes desses enfrentamentos  eram as notícias mais comuns que circulavam na cidade sobre o bairro, o que fazia, por exemplo, os motoristas dos  caminhões de entrega de mercadorias recusarem-se a adentrar o bairro; a polícia, por sua vez, quando identificava que éramos moradores desse bairro, nos tratava como bandidos em potencial; e os moradores,  como estratégia para vencer os preconceitos enfrentados no mercado de trabalho, colocavam o endereço de bairros vizinhos em seus currículos.

Se, por um lado, essa (má) fama nos reservava todo o tipo de estereótipos, entre os moradores dos bairros vizinhos, e, principalmente, entre os proprietários do comércio local, essa mesma fama ajudou a construir certa respeitabilidade entre os outros mulekes da mesma faixa etária e fortalecia o sentimento de orgulho entre nós.

Com a mudança de horário na escola, um admirável mundo novo abriu-se à minha frente, e eu, que acabava de me desviar de uma igreja neo-pentecostal, descobria o mundo com todo o fervor e a inocência que a adolescência pode proporcionar.

Conheci a malandragem e os seus pressupostos; beijei na boca pela primeira vez; comecei a matar aula para ir ao samba e para ficar com as meninas das escolas dos bairros vizinhos, mas, sobretudo, comecei a juntar-me com os manos do rap, que ficavam no canto do pátio da escola cantando as músicas novas de grupos, como Racionais MC’s, Consciência Humana, e de outros que circulavam através de fitas cassetes trocadas entre nós.

Eu já conhecia rap antes, porque, na rua em que eu morava, a diversão dos manos, aos fins de semana, era colocar as caixas de som pra fora do barraco e ouvir um rap estalado no último volume, irritando os vizinhos mais conservadores – o meu saudoso avô que o diga!. Eu sempre acompanhei tudo, mas até aquele momento eu era muito “novo” e me contentava em “filmar o movimento ao meu redor” [[ii]]  sem participar diretamente. Mas, ao chegar na escola e vivenciar o submundo noturno, eu passei a escutar os raps com mais atenção e a minha diversão favorita se tornou colar junto com os parceiros para decorar as músicas novas dos grupos famosos e, em seguida, mandar um som no intervalo das aulas…

O Fião – O Mano maior divulgador dos Racionais Mcs, na escola (1996)

Enquanto cantávamos, colava uma pá de gente pra curtir o som, e quem sabia a letra cantava junto. O barato era tão loko que a música Fórmula Mágica da Paz já circulava entre nós quase dois anos antes do Grupo Racionais MC’s lançá-la oficialmente, em 1997, no CD Sobrevivendo no Inferno. Cantávamos e a repetíamos catarticamente, como um mantra que nos elevava à frente do espelho:

Essa pôrra é um campo minado / Quantas vezes eu pensei em me jogar daqui, / Mas, aí, minha área é tudo o que eu tenho / a minha vida é aqui e eu não consigo sair, é muito fácil fugir, mas eu não vou… / não vou trair quem eu fui e quem eu sou / gosto de onde estou e de onde eu vim / o ensinamento da favela foi muito bom pra mim… [[iii]]

Foram momentos intensos, marcados por deliciosas descobertas e dolorosas frustrações. A violência causada pelas guerras entre os manos do corre, os gambé (polícia) e os justiceiros, levava muitos amigos queridos a óbito e, nesse momento, aquilo que proporcionava status se tornava pesadelo diante do risco de sermos confundidos com e por alguns desses sistemas. Sob esse clima de perda, o advento da morte, e nós que não éramos nem o crime e nem o creme, procurávamos voltar da escola em grupo, para nos proteger. No caminho, como era de lei, cantávamos:

Rajada, Rajada, Ra Ta, Ta, Tá. / Cuidado que esta bala pode te matar / […] /  E eu vou, vou citar alguns nomes pra vocês acreditarem; / Pé de Pato, Cabo Bruno, Conte Lopez passaram por lá; / “Cheios de razões e calibres em punho”; / Somente pra matar, somente pra matar;[[iv]]

Mas nem tudo era luto. Lembro-me da primeira vez em que visitei o Club Hause, uma casa noturna que só tocava rap, em uma época em que o rap nem mesmo era considerado música, por muitos produtores culturais; aliás, o repúdio ao rap era tão grande que a nossa reação foi nos voltar violentamente a seu favor. Quando cheguei na entrada do Club House pela primeira vez, eu tomei um susto: por onde quer que eu olhasse, só observava gente preta. Os manos com aqueles cabelos black power, as minas com aquelas tranças… pela primeira vez, eu não me sentia encerrado em mim mesmo.

Embora a casa noturna estivesse situada em um bairro de classe média, ela  era tão demarcadamente negra que, em geral, os jovens brancos, especialmente os de classe média, tinham medo de circular por aquela região, nos dias de eventos. Em contrapartida, os negros que ali frequentavam não tinham vergonha de seu cabelo, das gírias que falavam, e de toda a sua corporeidade, pelo contrário, era como se, pelo menos ali, quanto “mais negra” uma pessoa fosse, melhor  avaliada seria.

Isso não quer dizer que não houvesse brancos, nessa casa noturna, evidentenmente que estavam presentes, mas eram “aqueles brancos” que colavam com a gente e que, de alguma forma, também aparentavam trazer a favela no corpo. Os conflitos e estranhamentos davam-se mesmo com aqueles a quem julgávamos Playboys: assim como nós, não poderíamos escapar aos seus olhares de medo e desprezo, por sermos imediatamente identificados como favelados, eles, aos nossos olhos, não passavam de riquinhos mimados e frágeis, que mereciam o nosso repúdio e, por isso, o encontro nas ruas da cidade era sempre marcado por uma certa tensão.

Fachada do Club House Fonte: DjRic 1989

O Club House foi muito importante para a minha trajetória. Foi o lugar em que pude conhecer o grande King Nino Brown falando para os jovens sobre os elementos do hip-hop na fila da entrada para o baile; pude ouvir ao vivo os grupos musicais que eu mais gostava e dar uns beijos inesquecíveis. Ali, entre tranças e cabelos Black’s Powers, eu começava a ver e admirar as mulheres negras de uma forma diferente do que havia feito até então. Os padrões de beleza foram se alterando, aos meu olhos e eu, encantado e cada vez mais envolvido nesse mundo negro, deixava-me perder na noite da alma.

Aquele foi o momento em que o “Nós” oferecia significado às nossas vidas em um mundo em que “Eles” – com sua violência policial, discriminação, e opulência – eram sempre muito hostis.

Lembro-me de um incidente na porta do Club House que expressa bem esse sentimento:  Numa certa noite, enquanto aguardávamos para entrar, um carro passou por nós em alta velocidade e avançou o farol vermelho em uma manobra bastante arriscada. Em seguida, um carro de polícia surgiu em sua perseguição, mas, inesperadamente, os carros que estavam posicionados entre o fugitivo e a polícia pararam no farol vermelho, não restando passagem aos policiais, que se aproximavam em velocidade máxima. Ao frear bruscamente, a viatura começou a derrapar na avenida, enquanto subia desgovernada pela calçada até capotar sob um orelhão e um poste.

A reação dos jovens que assistiam foi unânime, mais ou menos 500 pessoas na rua olhando e torcendo em coro: Vai, vai, vai… Foi!

Ninguém disfarçou a euforia… E assim como acontece no estádio após um gol inesperado do time do coração, os gritos de comemoração tomaram conta do ambiente. No auge dos meus 13 anos, depois de já ter sido tratado como lixo pela polícia, inúmeras vezes, não esperava outra reação dos presentes.

 

A conversão

Era uma quinta-feira qualquer de 1995, em um momento em que matar aula para cantar rap na porta da escola já virara rotina, rumamos em um grupo de 8 amigos para o centro da cidade para assistir á um show de rap gratuito. Até aquele momento, eu não dava a mínima para o fato de que o show fora organizado na cidade em comemoração aos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares. A única coisa que me importava era que aquela seria a oportunidade de ver ao vivo o show do melhor grupo de rap do Brasil.

Embora soubesse que era Negro e já havia vivenciado diversas situações desagradáveis por causa da minha cor, até aquele momento o racismo não era um tema que despertasse muito a minha atenção. Mas isso estava para mudar. No caminho, enquanto seguíamos conversando sobre mulheres, ou cantando rap pelas ruas escuras, empolgados para chegar ao show, fomos surpreendidos por uma desagradável surpresa:“É A POLÍCIA, CARALHO, MÃO NA CABEÇA, FILHO DA PUTA! ENCOSTA NA PAREDE VAI, VAI, VAI NEGUINHO… SE TEM DROGA OU ARMA FALA LOGO!”

O que se seguiu, em meio às agressões físicas e simbólicas das mais variadas, foi uma cena que não esquecerei. Antes de iniciar a revista, um dos policiais olhou para três dos nossos amigos (curiosamente os brancos da turma) e disse a cada um: “Você, você e você! VAZA PORRA, VAZA!…” e os três  seguiram em frente sem serem revistados. Ficamos nós, os cinco pretos, para sermos revistados e humilhados enquanto nossos três amigos seguiam em frente de cabeça baixa.

Depois de alguns longos e intermináveis minutos de violência física e simbólica, fomos liberados e nos juntamos aos outros três amigos que nos esperavam, envergonhados, na esquina… Ninguém ousou olhar nos olhos um do outro. Seguimos todos em direção ao show atravessados por um silêncio que só foi quebrado pelo som dos scratcsh do DJK. L. Jay.

Ao chegarmos, as sensações foram múltiplas. Havia mais de 2 mil pessoas curtindo um som em sintonia e nós, fragilizados como estávamos, nos sentimos acolhidos ali, na medida em que confirmávamos que “a maioria por ali se parecia com a gente” [[v]]. Ao escutar “O homem na estrada” [[vi]] cantado ao vivo no palco, eu sentia que a musica falava diretamente para nós.

De repente o som foi interrompido…

E Mano Brown, sempre imponente e com muito sangue nos olhos – como se soubesse da violência que acabávamos de sofrer (talvez soubesse) – iniciou um discurso que figurarei a partir do que é possível lembrar:

“Ae mano! O sistema te trata como lixo. Te humilha! Te pisa e dá as costas… mas hoje é o dia de provar que você é mais. Quem aqui já tomou geral da polícia? Quem aqui já foi seguido numa loja por ser preto?… Aí favela…”

E, em meio ao discurso, KLJ entoava scratchs com os dizeres: “a juventude negra agora tem a vós ativa… Porque quem gosta de nós somos nós mesmos.” Em seguida, a próxima música se iniciou numa sincronia catártica:

Você não me escuta. / Ou não entende o que eu falo. / Procuro te dar um toque. / E sou chamado de preto otário. / Atrasado, revoltado./ […] /  Racionais declaram guerra. / Contra aqueles que querem ver os pretos na merda. / E os manos que nos ouvem irão entender. / Que a informação é uma grande arma. / Mais poderosa que qualquer PT carregada. / Roupas caras de etiqueta, não valem nada. / Se comparadas a uma mente articulada. / Contra os racistas otários é química perfeita / Inteligência, e um cruzado de direita. / Será temido, e também respeitado. / Um preto digno, e não um negro limitado. [[vii]]

Enquanto o grupo cantava, cantávamos todos, juntos e hipnotizados, enquanto socávamos o ar com todo o ódio acumulado e amplificado pelos vermes que haviam atentado contra a nossa dignidade. Alí eu sentia que o sofrimento tinha um sentido: a violência, as mortes precoces, as mortes em vida, o lixão que nos serviu de parquinho, o asfalto que não chegava ao Sítio, a sexta série F. Tudo aquilo se encaixava nas letras de rap que eu já havia ouvido, mas que, agora, depois de uma calorosa revista policial, inflamavam como coquetéis molotov. Eu não seria mais o mesmo.

Toda conversão exige símbolos de rupturas com o momento anterior e, com o passar dos anos, ao entender que o rap era parte de um movimento maior chamado hip-hop eu fui buscando me enquadrar naquilo que identificava como postura adequada a um “verdadeiro MC”. Inspirado em alguns raps que havia ouvido, decidi comprar o livro A Autobiografia de Malcolm X.

O livro acrescentou muito à minha forma de interpretar o mundo e, entre as várias contribuições políticas, teóricas e ideológicas que proporcionava, apresentou-me alguns conflitos existenciais muito profundos. Segundo  Malcolm X, a destruição da identidade seria uma das principais estratégias de dominação colonial. Eu e os manos que colavam comigo entendemos a crítica ao Negro que “não sabe de cor o seu próprio RG”, na música “Negro Limitado”, dos Racionais, que se referia às pessoas que se perderam em meio às  agruras do racismo e não sabiam mais quem eram.

Malcolm argumentava que uma das estratégias de “destruição da identidade” do escravo era substituir o seu nome e lhe atribuir o sobrenome do seu senhor. Assim, os descendentes das pessoas escravizadas, mesmo que com nomes próprios escolhidos por seus pais, carregavam o sobrenome dos seus algozes opressores. O Mendes, Faustino, Silva, Oliveira, e tantos outros sobrenomes utilizados pela população negra na diáspora, seriam, segundo Malcolm, a marca colonial que portávamos. A nossa verdadeira identidade não poderia ser fornecida pelo número do RG  e, nesse sentido, alguns de nós entenderam que a mudança do nome ou do sobrenome seria um símbolo de repúdio à identidade escravizada.

Nem todos os hip-hoppers da nossa época pensavam assim, mas a impressão que eu tenho é que a atitude de auto-nomeação nos proporcionava uma sensação de poder. Parecia ser a possibilidade de (re)criar a própria identidade a partir do contexto e da ideologia que defendíamos. Não posso dizer que as motivações dos outros MCs foram as mesmas que as minhas, mas, naquele momento, foi assim que interpretei o surgimento de nomes: Mano Brown, Nino Brown, Nina Brown, Ice Boy, etc. Num segundo momento, com o avanço daquilo que classifico aqui como hip-hop militante, os nomes tornam-se ideologicamente mais explícitos, revelando aspirações políticas de esquerda ou mesmo afrocentristas: Rapper Pirata, Nando Comunista, Aliado G. Bá Kimbuta, Lio Nzumbi, Robson Dio, Edson Ike, Honerê Amim OADQ, Ike Banto e etc.

No meu caso, depois de me interessar pela cultura banto, escolhi um nome de língua Kimbundo, que simbolizava guerreiro. O Deivison Mendes Faustino já estava morto e a partir dali, eu me sentia (re)nascendo das chamas, ao assumir o nome de luta Deivison Nkosi.

Eu, que já havia sido crente neopentecostal, alguns anos antes, passava por uma nova conversão, a diferença. Levando em conta todos os limites e as possibilidades desse processo, era que agora o paraíso prometido podia ser conquistado aqui mesmo, na terra, a partir da luta política organizada e os “demônios”, como bem caracterizava Malcolm X ,  estariam ao alcance dos olhos e das mãos e por isso poderiam ser combatidos de frente: playboys, a polícia, o governo e os seus instrumentos de manipulação. Eu havia me convertido e, a partir desse ponto, a maioria das minhas escolhas pessoais seria realizada com base nessa conversão.

 

As Posses e as ideologias

Juliana (JuSoul), o grande professor Nino Brown e eu em um evento que discutia se o Bit Box era ou não o quinto elemento do Hip Hop Arquivo Dj Kurtz Ano 2001

Passado algum tempo, fui convidado pelo Fião, o mesmo mano que me apresentou o rap na escola,  a compor um grupo de rap. O nome do grupo foi escolhido pelo Douglas Marques, que hoje é um dos melhores DJs da cidade. O nome escolhido por ele foi Crime Cautela. O nome soava bem e o significado, embora hoje pareça simplista, expressava nitidamente  a mensagem que o grupo queria transmitir na época: “Não somos nós que  definimos o que é crime ou não, mas podemos ser enquadrados, então: Cautela!”.

Graças ao grupo, pude conhecer muitas quebradas da região metropolitana de São Paulo. Era uma época muito rica, para quem cantava rap, porque havia muitos shows organizados em todas as partes da grande São Paulo e do Interior. Em alguns lugares, muitos grupos passaram a se organizar em Posses ou Crew, isto é, espécie de organização comunitária voltada ao fomento de eventos culturais ligados ao hip-hop. Conheci a Posse Conceito de Rua, de Embu das Artes; a Associação Cultural Negro Atividades, de Santo André; a Posse Haúsa, de São Bernardo do Campo; a Posse Aliança Negra; o Núcleo Cultural Força Ativa, da Cidade Tiradentes; o Juventude Afro Consciente (Junac), de vários bairros da zona leste de São Paulo e muitos outras organizações  que faziam um trampo fantástico nas periferias.

Grupo de estudos Nucleo Cultural Força Ativa – Fernanda, Wellington, Deivison, Góes – sem data

Lembro-me da primeira apresentação pública do nosso grupo. Foi em um evento de tributo a Steve Biko, um show de rap organizado pela Posse Hausa e pela Associação Cultural Negro Atividades, em Santo André. O frio na barriga foi marcante, mas a apresentação nos possibilitou o contato com outros grupos e, principalmente, outras formas de fazer rap, mais politizadas do que aquelas que tínhamos acesso ouvindo os grupos famosos. Esses novos contatos apresentaram-nos  a necessidade de entender melhor esse “tal de sistema” que dizíamos combater.

Nessa época, chegavam-nos, através de fanzines e mesmo raps de outros Estados, notícias sobre grupos e Posses em todas as partes do Brasil. Ao mesmo tempo, íamos percebendo que os problemas em outras quebradas eram muito parecidos, em qualquer parte do Brasil que observássemos:

Aqui a visão já não é tão bela / Brasília periferia Santa Maria é o nome dela / Estupros assaltos fatos corriqueiros / Desempregados se embriagam o dia inteiro / A boca mais famosa é o puteiro / Onde que só rola me desculpem os roqueiros os metaleiros / É só rap forró e samba os verdadeiros sons do gueto / […] mas só pra te lembrar /  periferia é periferia em qualquer lugar…[[viii]]

As Posses foram fundamentais para o crescimento do hip-hop pelo país porque, além de organizar eventos culturais, promoviam palestras e formavam grupos de estudos sobre temas ligados aos problemas vividos na periferia. Nesta altura, em meados dos anos 2000, a maioria das Posses entendia-se como articulações políticas “contra o sistema” e algumas das mais importantes chegavam a falar em Revolução.

Eu não entendia muito bem o que isao significava na prática, mas me senti pressionado a me articular politicamente. Como não havia Posses na minha quebrada – o Núcleo Cultural Negro Atividades  organizava-se do outro lado da cidade –  propus aos membros dos outros grupos de rap para nos organizarmos.

O Ny, o Flávio, a Érica (Da Bret), o Nego Will e tantos outros, que vieram depois, aceitaram o desafio e, inspirados nos grupos que já conhecíamos,  principalmente o Núcleo Cultural Força Ativa, criamos em conjunto a Posse Direto Consciente e Realista (DCR), aglutinando grupos de vários bairros da Região do Jardim Santo André, Cata Preta e Sítio dos Vianas, região que, além de ser a mais violenta;  até hoje é onde se concentra o maior percentual de Negros da cidade.

Nós, membros da Posse, cantávamos com orgulho a música do RZO, que parecia ter sido feita para nós:

Corre nas veias do preto brasileiro / Nos deixa ligeiros / RAP é o som! / E só pra lembrar aos outros quase todos pretos / Não tem jeito, são quase todos pretos! [[ix]]

Havia, da nossa parte, uma crítica a tudo o que considerávamos vir dos Boys: suas músicas, estética, partidos políticos, movimento estudantil. Tudo isso era visto com muita desconfiança e, em dada medida, afastou muitos de nós da militância partidária, mas, ainda assim, procurávamos estar atentos a tudo o que acontecia no universo político:

A lição meu irmão está aí / Nos ataques a bomba No genocídio em huanda Na pobreza no Haiti / É triste mais eu vi / O clamor materno
Rogando logo o céu o inferno
ao seu filho subnutrido
que aos dezoito não pesava mais que vinte e poucos quilos / Mas de nada adiantava isso
Do outro lado do mundo seu futuro era decidido
num café matinal entre políticos malditos…[[x]]

Foi uma época muito rica de parcerias e alianças políticas. Entramos em contato com diversas vertentes de movimentos sociais e afiliações teóricas, e passamos a frequentar os debates das outras Posses. Criamos o nosso próprio grupo de estudos e iniciamos um trabalho de formação de base a partir da leitura coletiva de livros e de Fanzines[[xi]] que nos chegavam de todas as partes do Brasil. Foi nessa época que eu conheci a Mara – que depois se tornaria Mara Oninjá, uma MC feminista que mantinha contato com diversas Posses do Brasil a partir de fanzines e, durante os shows, fornecia-nos muitas cópias de fanzines politizados para usarmos em nossos grupos de estudos.

Eu e o Ny passamos a representar a nossa organização nas reuniões com a prefeitura na recém-criada Assessoria da Juventude de Santo André, coordenada pela Sueli Chan, e o Centro de Referência da Juventude, coordenado pela Márcia Furquim, bem como a Katia Coelho, que também era funcionária da Assessoria da Juventude. Essas mulheres tiveram decisiva influência sobre a minha caminhada, na medida em que cobravam de nós, que já éramos vistos como militantes de esquerda, uma postura que fosse ao mesmo tempo feminista e anti-racista.

Eu ao lado de Eloa Katia Coelho, Assessoria de juventude, 2001

Foi um momento muito rico, para todos nós, mas me entristece pensar que muitos artistas talentosos ficaram pelo caminho porque precisaram   priorizar ou a família, ou o emprego. Para além disso, a falta de estrutura física para ensaiar se apresentava como um desestímulo para muitos. Depois de algum tempo, a Posse DCR dissolveu-se.

A essa altura,  eu já estava envolvidíssimo com a militância e, a convite da Mara Oninjá e do Marcos, para nos juntamos  ao Geo, Caio, à Angela,  ao Devil,  Elba,  Ney,  Guto, à Shirlei, e ao Riso Di Falange, para fundar uma nova Organização chamada Núcleo R.O.T.Ação (Resistência Organizada de Trabalho e Ação) com a finalidade de  atuarmos  realizando  encontros frequentes de estudos e ensaios musicais. Foi nesse contexto que iniciamos a leitura de Clóvis Moura, Ângela Davis e, em seguida, lemos o Manifesto do Partido Comunista e os grupos de rap, break e de grafite, que colavam com a gente ,  se propunham a ser veículos de difusão das ideias estudadas. Estávamos certos de que faziamos parte, como sujeitos históricos, de um processo de transformação social.

Reunião do Núcleo Rotação – Garagem da Casa do Marcos (Mara, Deivison, Daniela, Emerson, Guto e Shirlei)
Atividade de Hip Hop – Grupo R.O.T.Ação no Sítio dos Vianas – 2002

Um espaço importantíssimo a ser citado nessa trajetória foi o Rap em Festa, organizada anualmente pelo Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca). Essa atividade abria as portas para qualquer grupo de rap que se inscrevesse e, nessa época, tudo o que queríamos e precisávamos era um lugar para mostrar o nosso trampo, que corria à margem do mainstream musical. Para participar, era necessário frequentar, durante seis meses,  alguns debates mediados pelo Fran e a Valdenia, que, na época, eram coordenadores da instituição e importantes referências política para a organização dos trabalhos de base em Sapopemba, distrito localizado na zona leste de São Paulo.

O espaço foi marcante para muita gente que viveu essa época, porque reunia grupos de várias partes do Brasil e possibilitava a difusão de ideias subversivas, troca de fanzines e, sobretudo, a ampliação das alianças políticas entre os grupos artísticos organizados ou não em Posses. Toda essa movimentação política acontecia sem a participação dos grupos de rap famosos, todavia, foi importante porque aglutinava a nata politizada do hip-hop (o hip-hop militante) e contribuiu para fortalecer o que chamávamos de movimento hip-hop.

Durante o Rap em Festa, os debates pegavam fogo e os grupos discutiam com muita paixão e, às vezes, até de forma agressiva, qual era o eixo central da “luta revolucionária”: se era o racismo (posição defendida pelo Junac, de orientação afrocêntrica) ou o capitalismo (defendido pelo Força Ativa, de orientação marxista); a cada debate, todos voltavam para as suas bases mais fortalecidos e armados teoricamente para debater com qualquer playboy de faculdade que pretendesse falar por nós:

Parabéns o diploma e o primeiro capítulo
/ de uma história bem-sucedida, Só pelo ridículo… / estudou em Sorbone? Então enfia no CU – rículo / teoria inútil sim base, bobagem só mais um título /quer falar de mim, da minha cultura, Tia?
/ Se quer entender os pretos não vai ser na academia / Não entende o hip-hop, distorce o candomblé / Teoriza por cima dos seus dez livros de pé
/ Não existe um sociólogo sem prática
/ E sua prática me atrapalha, o saco de teses falhas / Fica puto quando ouvir, mas meu som não é pra vc /  Lava a boca quando for falar de preto no seu TCC
/ O que você aprende no seu livro pra mim é vivido / Cuspo na sua coluna do jornal de domingo[[xii]]

Os debates eram tão qualificados que obrigavam os outros grupos a também se preparar teoricamente. No caso da nossa Posse, pressionados entre as diversas influências teóricas e políticas presentes no Rap em Festa, decidimos nos pautar politicamente por um tripé Raça, Classe e Gênero. A nossa escolha foi influenciada pela presença da Mara e pelos euxaustivos estudos dos textos traduzidos da nossa diva afro-revolucionária, Ângela Davis.

A essa altura, já envergonhado com o nome do meu grupo de rap (Crime e Cautela) e insatisfeito com as letras falando de crime e pobreza, rompi com o grupo e, inspirado na Banda Uafro[[xiii]], de Santo André, compus com a Mara e o Ney, o grupo Amandla Awetu, termo que remonta à luta contra o apartheid africano que significa “poder ao povo”.

Show do Amandla no Espaço Che Guevara – Mauá (2000). Mara Assentewa, Deivison Nkosi, Nem, Gerônimo, Daniela Olinka e Angela Medeiros

O grupo Amandla tinha como mote estético a difusão de “ideias revolucionárias” a partir da performatização de rimas agressivas tocadas ao doce som de violão, berimbau e percursão. Assim, apresentamos-nos em muitas cidades do interior de São Paulo e em outros Estados, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Porto Alegre:

Vejam bem estão aqui / os herdeiros de zumbi / tá ligado que é foda, / ser preto não é moda / a vida segue andando sempre numa bamba corda / Jamaica, Somália, Ruanda, Haiti / Na França, nos States, no Uruguai ou por aqui / Os dilemas são iguais / Racismo ao provo preto / Privilégio aos europeus e descedentes (é desse jeito)… [[xiv]]

O momento mais glorioso do Núcleo R.O.T.Ação foi quando iniciamos um trabalho de base na Escola Estadual Profa. Clotilde Peluso – que na época era considerada uma das piores escolas da cidade – para oferecer oficinas de rap, grafite e break, e entre uma atividade e outra  mobilizar a comunidade para passeatas em protestos dos mais diversos. A direção da escola confiou em nós e o trampo foi muito bem-sucedido. Para alcançar o sucesso é importante destacar que, entre nós militantes, existiam pessoas de referência no rap, no break e no grafite, além de habilidosos articuladores políticos do grêmio da escola. Nessa época, o grupo aumentou consideravelmente, chegando a ter cerca de 40 integrantes ativos, todos residentes na região do Sítio dos Vianas.

Participação da nossa Posse na reunião do Movimento Negro de Santo André – 2000

Foi nesse contexto de movimentação política intensa que a militância me colocaria frente a um desafio que mudaria mais uma vez o rumo da minha vida.  Kátia, que a esta altura já era uma velha conhecida, começou a nos incentivar a cursar a faculdade. Eu via tudo aquilo com desconfiança, já que, até aquele momento, não havia uma só pessoa que corresse com gente que já tivesse feito faculdade. Na minha concepção, naquele tempo, a universidade era um local reservado apenas para os filhos da elite e, por isso, não fazia sentido gastar energia com esse espaço. Acreditava nos trechos que eu conhecia do Velho Barbudo, que uma possível revolução só poderia se concretizar pelas mãos daqueles que “nada tem a perder a não ser os seus grilhões” e, por isso, até aquele momento, não havia visto razão para me misturar com os playboys.

Além do mais, até aquele momento, com a exceção de Spensy Pimentel e  sua mongrafia intitulada “O Livro Vermelho do Hip-Hop” a maioria dos contatos que tínhamos estabelecido com  os pesquisadores eram marcados por um certo estranhamento. Queríamos “destruir o sistema” e a faculdade, para muitos dessa geração de militantes das ruas, representava ser parte dele e não a sua contraposição estando, portanto, lamentavelmente fora dos planos de muitos intelectuais brilhantes que hoje mal conseguem sustentar suas famílias.

Mas a Kátia era osso duro de roer e, embora eu acreditasse que a venceria pelo cansaço, comecei a lhe dar ouvidos e no ano de 2000 eu acabei me inscrevendo no vestibular do curso de Ciências Sociais da Fundação Santo André. Acho que prestei o vestibular só para ela parar de encher o saco.

Paguei a inscrição do vestibular graças a uma vaquinha promovida entre  Matilde Ribeiro, futura ministra daSecretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir)/Governo Federal, que, na época era assessora na Prefeitura de Santo André; Maraisa, grande intelectual do movimento negro de Santo André; Sueli Chan; e a própria Kátia.

Eu gostava muito de cosmologia e demonstrava algum interesse por psicologia, mas, como era militante, escolhi o curso de Ciências Sociais na Fundação Santo André, visando a apoiar a Posse com os estudos. Fiz a prova do vestibular com bastante descrença e cansaço, já que passara a madrugada anterior acordado, me apresentando em um show de rap. Entre pescadas e escritos, terminei a prova e, para a minha surpresa, fui aprovado, e logo entraria em uma nova fase da minha vida.

A essa altura, depois de trabalhar em todo tipo de emprego, tais como: feirante, balconista, ambulante, lavador de carros, catador de papelão, office boy durante a adolescência, tinha dificuldade para vencer o desemprego iniciado na época do alistamento militar. Depois de muita procura, consegui trabalho em um Projeto Social gerenciado pelo Movimento Nacional de Defesa dos Direitos dos Favelados (MDDF).   Fui contratado  como “educador social” registrado, e, na Prefeitura de Santo André, eu era um “oficineiro de rap”.

 

Encruzilhadas políticas

Se, por um lado, eu sabia que a nossa forma de fazer hiphop não era hegemônica, por outro, sabia que não estávamos sós. Ao longo da caminhada, fomos nos deparando com diversos tipos de militância  e agremiações ideológicas e, enquanto isso, o nosso repertório político foi se ampliando. Nessa trajetória, um dilema constante, para nós, sempre foi o envolvimento com os partidos políticos de esquerda.

Se, na década de 1990, nós nem mesmo éramos considerados “movimento social” pelos teóricos e políticos partidários, a partir dos anos 2000, na medida em que avançava o poder de mobilização do hip-hop,   víamos crescer o interesse dessas instituições por nossas agendas.

Em alguns lugares do Brasil, essa relação foi positiva e fortaleceu articulações de hip-hop já existentes, mas, em outras, o assédio foi agressivo e destrutivo, dada a nossa inocência diante de uma lógica viciada. A resposta do Nucleo R.O.T.Ação foi se afastar relativamente dessa forma de fazer política. Esse afastamento nos causou algumas tensões com grupos políticos ligados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e ao Partido do Trabalhadores (PT), da cidade, ao passo que também  nos possibilitou a aproximação com  grupos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), com   núcleos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e com o  saudoso Espaço Che Gevara, em Mauá.

Em 2002, graças à articulação com esses grupos, tivemos a oportunidade de viajar para Porto Alegre/RS e participar do II Fórum Social Mundial. As notícias do I Fórum Social Mundial davam conta de que o processo foi exitoso, ao reunir militantes representantes de movimentos sociais de todas as partes do globo terrestre. Estávamos empolgados para apresentar o grupo Amandla em um evento internacional e ainda estabelecer parcerias que pudessem fortalecer o nosso trabalho de base na quebrada. Viajamos a Porto Alegre em sete representantes do Núcleo R.O.T.Ação.

O Fórum Social Mundial superou as nossas expectativas: Debates qualificados, teorias de ruptura, experiências inesquecíveis, relações pessoais e apresentações culturais. Tudo ia muito bem, até que um incidente político abriria uma nova etapa na história do movimento hiphop brasileiro. A União da Juventude Socialista (UJS), grupo de jovens ligados ao PCdoB, organizou um evento de hip-hop no Acampamento de Juventude [[xv]]. Nesse evento, os representantes da UJS apresentaram um documento intitulado:  Manifesto do Movimento Hip-Hop.

Durante a leitura, Lamartine, um MC do Grupo Clan Nordestino, do Maranhão, subiu ao palco sem autorização dos organizadores, pegou o microfone e perguntou aos presentes quem dali era integrante do hip-hop.  Cerca de duzentas pessoas ergueram o braço. Em seguida, Lamartine perguntou quais dos militantes presentes havia assinado aquele “Manifesto” que falava em nome do hip-hop. Ao ver que ninguém havia levantado as mãos, Lamartine rasgou o documento e disse que havia chegado a hora de os partidos políticos pararem de utilizar o hip-hop como objeto.

A atitude radical do MC foi seguida por um grande tumulto, que se intensificou quando os organizadores do evento cortaram a eletricidade dos microfones para calar Lamartine. Em resposta, outro MC propôs que nos reuníssemos, somente artistas  e militantes do hip-hop,  do lado de fora do evento para conversar sem intervenção externa. Assim o fizemos, e, nessa reunião, em que se encontravam pessoas de todo o Brasil, foi denunciado o “uso político escuso do hip-hop por parte de Organizações não Governamentais (ONGs), Partidos Políticos, Governos e empresas privadas” e, em resposta, foi proposto que criássemos uma articulação nacional de hip-hop para que tivéssemos voz própria.

A ideia proposta, e aceita por todos nós, era que estivéssemos mobilizados nos bairros, cidades, estados e regiões do país, com vistas a uma articulação política autônoma e autofinanciada a partir das produções artísticas locais dos próprios grupos. Voltamos para nossos Estados muito felizes e com o compromisso de construir, durante o ano, um Fórum Nacional de Hip-Hop autogestionado.

O ano que se seguiu foi de intensa movimentação para todos nós. Em resposta às tarefas assumidas, organizamos diversas articulações de hip-hop na Região do ABC Paulista, Região de Campinas, Região de Sorocaba, Bauru, Salto, São Carlos, no município de São Paulo, e em várias outras localidades. Para subsidiar e centralizar esse rolê,criamos o Fórum de Hip-Hop do Estado de São Paulo. Ao Núcleo R.O.T.Ação foi atribuída a responsabilidade de viajar para outros Estados que não haviam enviado integrantes para o II Fórum Social Mundial, com o objetivo de estimular a organização de Fóruns Estaduais nesses locais e assim o fizemos.

I encontro de Hip Hop – criação do Fórum Estadual de Hip Hop de São Paulo (2002)

Na ocasião, conseguimos criar uma estrutura organizativa com presença   em muitos Estados e municípios e, a partir daí, foi possível descobrir que havia centenas de Posses e talvez milhares de grupos de rap, break ou grafite espalhadas pelo Brasil; a maioria sedentos por transformar a realidade em que estavam inseridos. O hip-hopmilitante, outrora ignorado pelos grupos famosos de rap, marcava a sua presença em todo o País e nós, como parte disso, sentíamo-nos cumprindo uma profecia:

É o Terror é o terror / Rap nacional é o terror que chegou é o terror / Aí sistema sou o rap nacional / Linha de frente trema! / Minha mente talvez algum humano não entenda / Será que algum cientista desvenda esse mistério / Eu quero gentilmente / Eu quero o raio x do meu cérebro / Eu quero saber porque eu penso diferente / Quem morre no dia a dia ladrão é gente / Da gente um desespero / Um sonho um pesadelo o sangue / O crime está no ar e você é mais um herdeiro / Vou novamente me apresentar / Sou revolucionário sou nova forma de pensar. [[xvi]]

Neste mesmo ano, nos aproximamos das organizações de hip-hop do Maranhão e Piauí e criamos, com membros de outros 15 Estados, o Movimento Hip-Hop Organizado do Brasil (MHHOB), que era liderado pelo intelectual e ativista político Preto Ghoes e pretendia se tornar uma organização negra e de esquerda do movimento hip-hop. A missão do Núcleo R.O.T.Ação no MHHOB, segundo pactuado com ele, seria a socialização da nossa experiência em militância de base, e, principalmente, a nossa circulação entre os Estados membros para estimular a criação de grupos de estudos e fomento à organização política. Essa atividade política seria subsidiada pela criação de uma rede autogestada de divulgação e distribuição de produtos (roupas estilizadas, CDs dos grupos membros, e shows) dos grupos [[xvii]]. Nosso plano, a partir dessa rede, era realizar manifestações políticas articuladas ao mesmo tempo nos diversos Estados.

Num primeiro momento, a articulação foi um sucesso e enquanto nos fortalecíamos recebíamos notícias de que outras organizações locais passaram também a se articular em nível nacional. Para nós, as coisas estavam saindo como planejado e, em pouco tempo, poderíamos organizar ações mais agressivas:

Ocupar! O coração da periferia / Resistir aos ataques da burguesia 
Produzir! / Os versos loucomunistas de um novo dia / Clã Nordestino! A peste negra do nordeste. [[xviii]]

No ano seguinte, quando regressamos a Porto Alegre para participar do III Fórum Social Mundial, já havia diversas Organizações Nacionais de Hip-Hop estruturando-se, algumas das quais, atualmente, são bastante conhecidas, e, em dada medida, a realização, durante o evento, do I Encontro Nacional de Hip-Hop foi marcada por disputas gigantescas. A vertente militante do Hip-Hop estava se organizando e enfrentando os problemas comuns da militância de esquerda no Brasil. Nós, do MHHOB, nos sentíamos fortalecidos para esse embate e, nele, nosso líder incontestável era o Preto Ghoez, MC do Grupo Clã Nordestino, do Maranhão.

Da minha perspectiva na época, o Ghoez, em sua genialidade e rara habilidade política, conseguia dialogar e aglutinar  em torno de si  setores diversos, como os ongueiros (o pessoal que queria montar uma ONG para captar recursos e oferecer oficinas de arte e educação); os partidários (militantes do hip-hop vinculados principalmente ao PT e ao debate sobre políticas públicas); os artistas (que priorizavam a sua produção artística e, em geral, não tomavam muito partido das discussões políticas que se travavam) e nós, os que se achavam revolucionários (e, embora artistas, priorizássemos a luta política a partir de posturas que acreditássemos ser radicais).

No entanto, a Organização levaria um duro golpe do destino. No dia 29 de janeiro de 2004, Márcio Vicente Góis, o Preto Ghoez, principal mentor e articulador político do MHHOB morria em um acidente de carro. A Organização, agora acéfala, começa a desabar em intensos embates políticos/ideológicos e dissidências internas que custaram alianças e amizades.

No âmbito nacional, as disputas por legitimidade entre as diversas organizações nacionais de hip-hop também crescia. Se o ano anterior foi marcado pelo desejo de unidade política e aglutinação de forças em nome de uma autonomia em relação aos partidos, às empresas e ao governo, agora, com a comemorada eleição do Governo Lula, as coisas começavam a mudar substancialmente.

O então ministro da Cultura, Gilberto Gil, avisou que estaria disposto a dialogar com as organizações de hip-hop para estabelecer parcerias em um projeto inovador que eles nomearam como Ponto de Cultura. O projeto consistiria em disponibilizar recursos às organizações culturais atuantes, de forma potencializar as suas ações comunitárias. Tudo muito atraente e aparentemente coerente com o que se vinha discutindo. Entretanto, o que se seguiu foi uma corrida fratricida por legitimidade política. A disputa resultou no desmembramento do Fórum Nacional de Hip-Hop,  no redirecionamento das atenções e dos discursos – anteriormente  voltados à auto-gestão política e financeira – para uma busca pelo reconhecimento do Estado.

Para nós, do Núcleo R.O.T.Ação, a situação piorou ainda mais quando, em 2004, após o golpe político/militar no Haiti, o Brasil aceitou a liderança das tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) naquele país. Tentamos iniciar uma campanha nacional pela retirada das tropas brasileiras, mas, na época, a maioria dos grupos que compunham o MHHOB temia que a manifestação fosse atrapalhar as negociações e a corrida pelos Pontos de Cultura. A discussão foi seguida por um racha no MHHOB e nosso grupo retirou-se da organização, assim como  outros parceiros do Rio de Janeiro e Santa Catarina, para  fazer uma campanha pela retirada das tropas do Haiti.

A reação do Governo ao nosso protesto foi criar uma campanha que se contrapunha à nossa. A campanha intitulada Zele pelo Haiti, organizada pela Seppir/PR propunha financiar shows de rap com artistas famosos e anônimos para arrecadar material escolar que seria enviado ao Haiti; tudo isso, desde que não se mencionasse a presença das tropas brasileiras. Foi um golpe de mestre: A campanha Zele pelo Haiti não chegou a emplacar, mas cumpriu o seu papel ao enfraquecer a campanha pela retirada das tropas e nos isolar politicamente.

Passado algum tempo, foi possivel perceber que muitos grupos  dessa época – como a Rede Mocambos, Coletivo Quilombaque, a Casa de Cultura Tainã e outros espalhados pelo País – conseguiram aproveitar essa abertura política criada no Governo Lula e desenvolver parcerias frutíferas com o Estado, que fortaleceram as ações que já existiam e/ou ainda incentivaram novos polos de resistência política e cultural. Mas também é verdade que outros tantos, em meio às exigências burocráticas implícitas a essas parecerias, acabaram por se atolar na institucionalização, para se converterem em expressoes empobrecidas dos aparatos neogovernamentais. Em meio a essas duas perspectivas pragmáticas, seguimos em frente, endurecidos por nossas pretensas perspectivas revolucionárias, em um universo político em que a “revolução” ficava cada vez mais distante.

Fala no IV Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo, RJ – 2007

Desgastados e, a essa altura, já bastante distantes de nossa base de atuação no Sítio dos Vianas – onde tudo começou – o Núcleo R.O.T.Ação desiste dos esforços de articulação nacional e tenta voltar-se para as suas origens. Entretanto, uma série de fatores, dentre os quais destaca-se a nossa excessiva “intelectualização” e dedicação exclusiva às articulações políticas em âmbito nacional, tiveram como consequência a nossa desmobilização nas quebradas em que exercíamos alguma influência.

Para além disso, o assédio exercido por grupos organizados a alguns militantes do R.O.T.Ação apresentava conflitos que nem sempre podíamos superar. O tráfico, a Igreja e os partidos políticos sempre disputaram nossos quadros, mas, nessa época de crises, perdemos três dos mais brilhantes membros do grupo para essas agremiações. Progressivamente, o Núcleo foi ficando sem a capacidade de influenciar a dinâmica da quebrada e se perdeu em um processo progressivo de dissolução.

 

“Os tempos mudaram, Neguin!

Hoje cedo, quando eu acordei / Não te vi, eu pensei em tanta coisa / [..]. / Vagabundo, a trilha é um precipício, tenso, o melhor / Quero salvar o mundo, pois desisti da minha família e numa luta mais difícil / A frustração vai ser menor / Digno de dó, só o pó, vazio comum / que já é moda no século 21 / Blacks com voz sagaz gravada / Contra vilões que sangram a quebrada / Só que raps por nóiz, por paz, mais nada / Me pôs nas gerais, numa cela trancada / Eu lembrei do Racionais, reflexão / Aí, os próprio preto num tá nem aí com isso, não / É um clichê romântico, triste / Vai perceber, vai ver, se matou e o paraíso não existe / Eu ainda sou o Emicida da Rinha / Lotei casas do sul ao norte / Mas esvaziei a minha / E vou por aí, Taleban / vendo os boy beber dois mês de salário da minha irmã / Hennessys, avelãs, camarins, fãs, globais / Mano, onde eles tavam há dez anos atrás / Showbiz como a regra diz, lek / A sociedade vende Jesus, por que não ia vender rap / O mundo vai se ocupar com seu cifrão / dizendo que a miséria é quem carecia de atenção[[xix]]

Um dia desses, na calada da noite, quando eu voltava pra goma injuriado, com uns livros nas mãos, parei na viela, como de costume, para cumprimentar os irmãos e lá, depois de uns minutos de ideia, um camarada falou-me: Aí neguin, cê é mó orgulho pra os moleques daqui… Cê tá ligado que os mulekes precisa de mais gente assim, correndo pelo certo. Eu reagi com emoção, de ouvir aquelas palavras, mas sem saber o que dizer, e ainda pensando nas dificuldades relacionadas à militância respondi, na humildeOw Meu Bom, agradecido pela ideia… mas é foda, Mano… não é fácil ser homem de aço no dia a dia” [[xx]].

Enquanto eu pensava na música do DMN, ele interrompe minha brisa para dizer: Os tempos mudaram, Neguin… Mas, de qualquer forma, é nois que tá, Meu Querido! Despedi-me da rapa e voltei para casa pensando: Realmente, os tempos haviam mudado!

Desde a década de 1990, quando essa história começa para mim, muita coisa havia mudado em São Paulo e a favela já não era mais aquele amontoado de barracos tortos no barro escorregadio. Aliás, muita gente agora preferia não se referir à quebrada como “favela”, dado a presença de asfalto, alvenaria e ônibus passando perto. O próprio Crime havia mudado e as suas novas dinâmicas passaram a ser sentidas por todos, independentemente da sua função na cadeia produtiva.

Não se viam mais tiroteios e mortes a toda hora e as disputas de território passaram a ser resolvidas longe dos olhos de quem num era do corre. Ao mesmo tempo, os confrontos empreendidos em 2006, pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), com a Polícia Militar, tiveram um impacto político e psicológico gigantesco em parte da juventude da periferia. A impressão que eu tive, naquele momento, é que, nas quebradas, onde a polícia sempre violou direitos e agiu com truculência – aquele enfrentamento dialogou com um desejo coletivo de vingança, presente em gente que nem era envolvida com o corre.

Manifestação em São Bernardo contra a violência policial (2006) Atividade preparatória para o ENJUNE – Na Imagem, Mara Assentewa, Carlos Wellington, eu e Honerê Oadq

Em certa ocasião, durante o ano de 2006, um ex-integrante do Núcleo R.O.T.Ação e, naquele momento, envolvido com o tráfico de drogas, desabafou em resposta aos meus “comentários sociológicos” sobre o sequestro de uma equipe de jornalistas da Rede Globo pelo PCC:  Cê é loco, filhão? Enquanto os vermes passam o cerol na quebrada, a militância política fica falando e falando, mas faz pouco… Já o Partido conseguiu fazer em pouco tempo o que vocês sonham, mas nunca tiveram a capacidade...

O fato é que a realidade estava mudando e o hip-hop que eu ajudei construir parecia estar ficando para trás. “Outros atores entraram em cena”, e, num primeiro momento, no meu bairro, o que passou a mexer com o emocional dos mulekes era passear pelas ruas com um carro devagarinho, escutando o Funk Proibidão.

Mas se mexer com nós / A bala come / O bonde da capela mete bala até nos home (2x) [[xxi]]

Em um segundo momento, a sexualidade, tema que sempre buscamos limitar nas nossas produções, foi retomada de forma explicitamente provocativa e desinibida pelos funkeiros. A associação à pornografia, ou mesmo o confronto a alguns valores sexuais, foi uma novidade que atraiu muitos jovens aos bailes enquanto esvaziava os nossos eventos “politicamente corretos” e, se pá, até recalcados.

No caso do hip-hop as mudanças também eram visíveis: a relação com ONGs, partidos políticos e mesmo com os governos locais de esquerda, foi sempre marcada por ambíguos desafios. Se antes – com raras e conhecidas exceções –, não era possível a um MC sustentar-se financeiramente, a partir da sua arte, agora, começavam a surgir diversas oportunidades de profissionalização que nasciam já prenhes de limites políticos e ideológicos dos mais diversos. Como oficineiro, ou cargo comissionado, a energia criativa e rede de contatos do artista/militante ficava a serviço de forças e interesses que nem sempre eu controlava.

Outro fator importante a ser considerado, nesse “novo cenário”, foi o avanço da indústria fotográfica sobre os generos artísticos relativos ao hip-hop. Aquilo que na década de 1990 nem era considerado música, pelas rádios comerciais –  com  excessão das rádios comunitárias, que foram praticamente eliminadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), na primeira década dos anos 2000  – passou a ser absorvido e vendido como mais um produto rentável. A observação do Emicida é perfeita, quando argumenta: “A sociedade vendeu Jesus, por que não ia vender rap?” [[xxii]]. Vendeu, mas o fez de forma a incentivar o tipo de mercadoria que seria produzida, na medida em que só veiculava (repetidamente) um único modo de fazer rap – o que se pautava pela formulazinha crime, sangue e favela – condenando ao limbo todas as produções que fugiam dessa lógica.

Se, na década de 1990, a crítica social, mesmo que garantida por chavões políticos e pretensões juvenis radicais,  era apresentada com regra a qualquer hip-hopper que almejasse algum respeito no movimento, chegamos à segunda década do século XXI com um contexto em que a “crítica” à miséria foi se limitando quase que a uma apologia da miséria material e da espiritual.

O grupo de rap (Amandla), que me acompanhou, secundarizado por todo esse percurso, foi ficando cada vez mais sem espaço entre as minhas prioridades e o desafio criativo de fazer rap político com banda musical tornava a nossa sobrevivência cada vez mais difícil, em um cenário que ainda não estava preparado para isso. A saída da Mara desfalcou o grupo, mas ainda resistimos por muitos anos, tendo ao nosso lado a presença alternada de artistas brilhantes, como a Katiara, a Fabiana (Bio), o Bebe do Gois, o Gigante, o Edson Ike, o Bá Kimbuta, a Silvia, a Dani Olinka, a Ângela, o Buias, e outros, como o Ticha, o Robson Dio e etc., que nos ajudavam sempre que precisávamos. Mas o tempo passou.

O mundo havia mudado e com ele, eu, já pai de um filho maravilhoso, ingressando no mundo acadêmico como professor e pesquisador e ainda militante de outras frentes, como parte do movimento negro, através do Grupo Kilombagem – daria outro filme – já não era mais o mesmo.

Sempre achei exagerada e meio religiosa aquela assertiva que dizia “o hip-hop salva”. Mas olhando “postumamente” para essa caminhada, que continua viva por outros meios, percebo que, a partir dela, eu pude ver, sentir e viver coisas que a maioria dos manos que cresceram comigo nem imaginam. Corta o coração saber que vivi ricos momentos, ao lado de brilhantes intelectuais, artistas e/ou articuladores políticos que, por falta de estímulo, oportunidade, ou amor próprio, ficaram pelo caminho.  De todo modo, a MC Larissa Borges Amorim tinha razão, em sua advertência. Não é possível passar por tudo isso e não trazer no corpo e na alma esse legado a cada novo ciclo e desafio que encaramos.

Reconheço que o hip-hop foi muito maior do que as cenas e perspectivas que eu figurei neste texto e, mesmo ao fim do período aqui descrito, ele seguiu renovando-se. Alguns antigos artistas, como o Bá Kimbuta, Marechal, OPNI, e outros, conseguiram se renovar esteticamente, de forma a dialogar com os anseios das atuais gerações e outros, frutos desses novos tempos, como Opaninjé, Emicida, conseguiram inovar a forma e o conteúdo do hip-hop,apresentando-lhe respostas para perguntas que não fomos capazes de fazer em nossa época.

Se essas novas perguntas, bem como as possíveis respostas, são coerentes e adequadas, aguardemos as futuras reflexões e memórias de outros MCs. Da minha parte, resta um respeito muito grande a quem fica e uma coleção de histórias que não cabem nestas páginas.

Diretamente de outros palcos, mas não morto, “Tenta me catar se for possível” [[xxiii]], pois aqui quem fala é Deivison Nkosi, mais um sobrevivente.

 

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[i] Reviso essas linhas em outubro de 2014 quando o Preto Goes – que será melhor apresentado ao longo do texto – completaria 43 anos de idade. É em sua memória que dedico esse texto para, quem sabe, os que estão chegando não se esqueçam que “os nossos passos vêm de longe”.  Ao escrever o manuscrito, contei com as preciosas contribuições da a Jornalista Vilma Neres do Rio de Janeiro, do Mc Riso do grupo De Falange e do intelectual saxofonista Edson Ike de Mauá, e dos integrantes do grupo de pesquisa “Na Mergem”, coordenado pelo professor Gabriel Feltran,  a todas essas pesssoas sou muito grato.

 

[ii] Trecho da música: Senhor Tempo Bom. Album Prete Atenção (Thaide e Dj Hum, 1996). Ver música completa: https://www.youtube.com/watch?v=4JDcbop5fjc.

 

[iii]  Trecho da música Fórmula Mágica da Paz. Album Sobrevivendo no inferno (Racionais MC’s, 1997). Embora a música tenha sido gravada em 1997, já era cantada pelo grupo em shwos ao vivo desde 1995. ver:  https://www.youtube.com/watch?v=nCBjkrHJ0gs.

 

[iv] Trecho da música: Rajada. Albun: Enxergue seus próprios erros (Consciência Humana, 1993). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=GpypjqXMGbg .

 

[v]  alusão ao trecho “e a maioria por aqui se parece comigo” da música: Fim de Semana no Parque, Álbum: Raio X do Brasil(Racionais MC’s, 2003). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=37uL-WfTBx0 .

 

[vi] Música Um Homem na Estrada. Álbum: Raio X Brasil (Racionais MC’s, 2003). Ver: http://www.youtube.com/watch?v=02-h9t0VpVI

 

[vii]  Música: Negro Limitado. Álbum Escolha o seu caminho (Rcionais MC’s, 1992).Ver: https://www.youtube.com/watch?v=diRzSxMgDmY .

 

[viii]  Trecho da música: Brasília Periferia parte 1. Álbum Dia a dia da Periferia (GOG, 1994),. Ver: http://www.youtube.com/watch?v=9geTcAG2dV8.

 

[ix]  Trecho da música Assim que se fala. Album Todos são Manos (RZO, 1999). Ver: http://www.youtube.com/watch?v=E_HMcE4ThGE&feature=related .

 

[x]  Trechos da música Assassinos sociais. Álbum Dia a dia da Periferia (GOG, 1994). Ver: http://www.youtube.com/watch?v=IXPdwNoZdYQ.

 

 

[xi]  Os Fanzines eram veículos de informação informal, criado artesanalmente. A minha geração conheceu este instrumento através do contato com alguns integrantes do movimento Anarco-Punk.

 

[xii] Trecho de música ainda não gravada gentilmente cedido pelo compositor MC Raphão. É nois q tá mlk!

 

[xiii] Fomos completamente influenciados pela estética e ideologia do Grupo Uafro. Robson Dio,  Preto Bá (que depois se tornaria o grande Bá Kimbuta) e Edson Ike além de nos ajudar em muitas situações, ofereciam-nos uma ideia muito sofisticada do que era fazer música. Ver a música Descobrimento segundo Adal gravada em 2005, mas cantada desde a década anterior: https://www.youtube.com/watch?v=b8eLu4-2Etw.

 

[xiv]  Trecho da música: A luta negra não se cala. Cantada (mas nunca oficialmente registrada) pelo grupo Amandla: verhttps://www.youtube.com/watch?v=u-oOSEcXjfk. Veja também a música Emancipação Pretahttps://www.youtube.com/watch?v=uwVzrdyCCew  e a música Bonecas brancas para meninas pretashttps://www.youtube.com/watch?v=_HHy3uJcgXc.

 

[xv] Espaço do Fórum Social Mundial destinado a atividades auto-gestionadas ligadas ou protagonizadas pela Juventude participante.

 

[xvi] Trechos da musica É o Terror. Álbum: CPI da Favela. (GOG, 200O), Ver: http://www.youtube.com/watch?v=-zAWu6UYYyw.

 

[xvii]  Para entender as pretenções políticas e econômicas implícitas à essas propostas é fundamental a leitura do artigo do MC Joge Hilton (MIRANDA) entitulado: Relação de Mercado e Trabalho Social, disponível em:futraco.wikispaces.com/file/view/HipHopMercado.doc e a dissertação de mestrado da MC Jaqueline Jaqueline Lima dos Santos, entitulado Re–Significando a negritude através do movimento Hip Hop (2007).

 

[xviii] Interludio: Ocupar, Resistir e Produzir.. Álbum, A peste negra (Clan Nordestino, 2003). Ver: http://www.youtube.com/watch?v=tY40K-qshyA.

 

[xix] Trecho da música Hoje cedo. Album O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui. (EMICIDA, 2013). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=AaHbRJYapJ0.

 

[xx]  Referencia à música H.Aço do album Saída de Emergência (DMN, 2002).. Ver:https://www.youtube.com/watch?v=vonxGs1mSRw.

 

[xxi] trecho da música Se mexer com nóis (MC Careca e MC Pixote, data não identificada). Ver: http://www.youtube.com/watch?v=wZnYcn6XIEw.

 

[xxii] Trecho da música “Hoje cedo” do album “o glorioso retorno de quem nunca esteve aqui (EMICIDA, 2013). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=AaHbRJYapJ0 .

 

[xxiii] trecho da música Tenta me catar se for possível (Bá Kimbuta, 2012). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=P0l0K_qFoFc.

 

 

 

 

 

SARTRE, FANON E A DIALÉTICA DA NEGRITUDE: DIÁLOGOS ABERTOS E AINDA PERTINENTES

Acesse o artigo completo aqui

Nesta comunicação problematizo as influências do filósofo francês Jean Paul Sartre (1905-1980) para o pensamento do psiquiatra martinicano, ativista anticolonial Frantz Omar Fanon (1925-1961) bem como as aproximações e diferenças teóricas entre ambos diante de temas como colonialismo, violência, negritude e dialética. Inicio a discussão apresentando alguns referenciais teóricos que compuseram o pensamento fanoniano, destacando a importância do Marxismo e da Fenomenologia Existencialista em seu movimento de autorreflexão filosófica. Para além disso, relaciono estas matrizes teóricas à outras duas, de fundamentais importância à Fanon: a Psicanalise e Négritude. Posteriormente, problematizo a importância dada por Fanon ao desvelamento do “colonialismo” e as suas implicações para a singularidade e a universalidade humana, para em seguida, apresentar seus diálogos com Sartre a respeito da dialética. É de conhecimento comum para a fortuna crítica existencialista que o filósofo francês se posicionou em diversas ocasiões contra o colonialismo e o racismo, assim como, argumentou publicamente em favor do movimento de Négritude e das lutas pela independência dos territórios ocupados pela França colonial. Frantz Fanon estabeleceu diálogos vigorosos com alguns dos principais expoentes do existencialismo francês, entre os quais se destaca Sartre. Este diálogo, no entanto, foi marcado por apropriações e críticas que permitiram ao psiquiatra martinicano apresentar respostas próprias a algumas questões estéticas, políticas e teóricas enfrentadas em sua época. É, portanto, essa relação crítica, o objeto privilegiado da reflexão aqui oferecida.

Palavras-chave: Fanon. Sartre. Colonialismo. Negritude. Dialética

Tópicos 

1. PRELÚDIO À UMA LEITURA FANONIANA DE SARTRE

2 OS REFERENCIAS TEÓRICOS DE FRANTZ FANON

3. O COLONIALISMO E A RACIALIZAÇÃO

4. A DIALÉTICA DA NEGRITUDE

Imagens do referencial teórico impresso utilizado

 

Aniversário de lançamento: “Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro”

Hoje, 11 de maio (2019), completa-se um ano de lançamento do “Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro”. Este livro, que caminha para a terceira impressão,   me proporcionou  muitas alegrias e a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas e comprometidas  em várias partes do Brasil. Fizemos lançamentos (e debates calorosos) em locais como universidades, terreiros de candomblé, coletivos, bares, web-TVs, roda de samba, escolas, livrarias, museus, entre outros e  ainda temos lançamentos agendados.

Em comemoração, publico aqui  as duas primeiras devolutivas escritas que recebi após o lançamento. A primeira (transcrita integralmente abaixo) foi escrita por Felipe de Oliveira (Choco) um dia depois do lançamento (ele leu em um dia e enviou a resposta na madrugada do dia 12 para o dia 13 de maio). A segunda (disponível nesse link) foi escrita por Rafaela Maga a partir do lançamento na Escola Winnie Mandela, na Bahia.

 

SobreFrantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro, lançado em 11/05/2018

Por Felipe Oliveira (Choco)

Lewis Gordon não forçou nota quando escreveu que “este texto maravilhoso é um presente de grande valor não só para o Brasil, mas também para todo o mundo lusófono”. Realmente ele preenche uma lacuna e certamente figurará como um divisor de águas para o estudo sobre as ideias de Fanon (Fanon Studies?) nas regiões de língua “portuguesa”. Pretendo não forçar nota também quando comparo você (Deivison Mendes Faustino), a partir desse livro, a um Carlos Nelson Coutinho (traduzindo Gramsci, introduzindo e desenvolvendo suas ideias no Brasil) e um Leandro Konder – entre outros – fazendo o mesmo com Lukács. Ambos autores brasileiros traduzindo a trajetória e ideias de indivíduos revolucionários em contextos que dialogam, apesar da matriz europeia dos primeiros.

Em tempos de polarizações histéricas e nem sempre proveitosas, defender um humanismo radicalem que ateste “a busca incessante de uma unidade maior que amplie a nossa humanidade para além de si mesma”, sem a vertigem das particularidades fechadas e nem dos universalismos abstratos, é um bom parâmetro e uma boa resposta. Aliás, “como dizia Fanon, a percepção e a afirmação de si não deve implicar o fechamento ao outro, mas o esforço constante para identificar os elementos que lhes são comuns” (p.127).

Por isso não me restam dúvidas que o lançamento desse livro é um marco. Possibilitará uma riqueza de interpretações de nossa realidade nacional, principalmente a particularmente negra.Já que um dos maiores méritos desse livro é apresentar não um mito, muito menos um mártir, mas um indivíduo que age sobre circunstâncias não escolhidas por ele próprio, e busca a partir da reflexão apurada respostas para os dilemas que a vida sempre nos apresenta. Respostas que, vale lembrar, envolvem os indivíduos sempre em relação a uma coletividade, ou particularidades e singularidades em relação ao universal.

Capítulos muito bem desenvolvidos e virtuosamente bem escolhidos. Demonstram domínio e maturidade intelectual na apresentação das passagens de vida do biografado, com uma prosa agradável, sem no entanto reduzir momentos complexos à saídas mecânicas, como se houvessem sempre uma única estratégia – “sem alternativas”. Os temas abordados e desenvolvidos por Fanon ganham força pela contextualização do período em que foram gestados. Maestria na relação entre indivíduo e sociedade sem deixar escapar as particularidades de espaço e tempo. Da criança que toma a frente dos primeiros socorros ao amigo, passando pelo adolescente que junto ao irmão jogava futebol com “um time da região”, ao jovem que vai à guerra e nos momentos limites “se descobre”, ao adulto “pai ausente” como o seu próprio, psiquiatra de profissão, revolucionário internacionalista, particularmente negro.

Só tenho a agradecer por todo seu esforço!

Felipe Oliveira (Choco)

13/05/2018

 

IMAGENS DE ALGUNS LANÇAMENTOS

Deivison Faustino (Nkosi) e Denis de Oliveira – Al Janiah (11/05/2018)
Créditos: Marciano Ventura
Al Janiah (11/05/2018) Grupo Conde Favela Créditos: Marciano Ventura
Al Janiah (11/05/2018) Créditos: Marciano Ventura
Al Janiah (11/05/2018) Créditos: Marciano Ventura
Da esquerda para a direita: Pai Celso de Oxaguiam (Celso Ricardo Monteiro), Maria Lúcia, Jussara Dias e Marli Medeiros – Al Janiah (11/05/2018)
Ao lado de Edna Roland – Al Janiah 2018
Ao lado do Prof. Dr. Lewis Gordon (MASP – São Paulo – 2018)
Ao lado das queridas Jurema Werneck e Fernanda Lopes – ABRASCO 2018 (FIOCRUZ )
Apresentando o livro ao lado do Orientador Prof. Dr. Valter Silvério – UFSCAR 19/11/2018
com Hassan Kodak Macmez (cineasta e produtor do filme Fanon hier, aujourd’hui) Paris, 2019
Lançamento no CRP Campinas (2018)

Lançamento: Museu Ferroviário de Juiz de Fora – Coletivo Fanon e Movimento Negro de Juiz de Fora – 2018
Lançamento: Semana do Curso de Serviço Social – UNIFESP – BS 2018 – Com sempre parceira Profa. Dra. Renata Gonçalves
Lançamento na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Ao lado do Prof. Dr. Osmundo Pinho (2018) – Crédito: Vinícius Zacarias
Lançamento no terreiro Ilê Axé de Iansã, durante o 2º Encontro de Estudantes Negros e Negras da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE) – 2018
Lançamento entrevista: Canal Brasil de Fato, com Ivani Oliveira (CRP e Kilombagem)
Lançamento: Museu Afro-Brasil – SP 2018 Créditos: Museu Afro-Brasil

Lançamento Grupo GIRA – Ciência Política da USP 2018 – Créditos Grupo GIRA

Lançamento NEAB- UFU (Uberlândia, 2018) – Créditos Uà Flor do Nascimento

Lançamento ECA-USP ao lado do cartunista Marcelo D’Salete e do Prof. Dr. Rosenilton Silva de Oliveira

Curso preparatório (pós-graduação) Abdias do Nascimento – NEAB Unifesp (Guarulhos)
Lançamento no IFCH-UNICAMP, com Mário Augusto da Silva – Créditos: Adriano Bueno
Lançamento Rio de Janeiro (2018) Créditos: Claudina Osório
Lançamento São Bernardo do Campo, com Deputado Federal Vicentinho (2018)
Falando sobre Fanon em algum lugar que nem eu sei mais…

 

O livro segue disponível no site da editora

 

ESTAMOS PRESOS, BABACA!!! Sobre Lula, os ciclos históricos e o cárcere de nós mesmos

Por Deivison Faustino (Nkosi)

Estou assistindo a  entrevista que o Ex-presente  Luiz Inácio Lula da Silva concedeu aos repórteres Florestan Fernandes Jr (El País) e Mônica Bergamo (Folha)  e lamentando: caraca, o nosso país trocou um Homão da P*** desses por um…   A entrevista foi tão pujante que um internauta –  infelizmente não consegui identificar a fonte – escreveu em seu facebook: : “Será que o Lula não está livre e nós é que somos os verdadeiros presos do lado de fora da cela com o Bolsonaro?”. Essa  pergunta, se a analisarmos um pouco além dos limites da própria política, pode ser completada com uma outra de ordem retórica: “Afinal, não somos nós que estamos presos?”

Jornalistas Florestan Fernandes Jr (El País) e Mônica Bergamo (Folha)

O que se vê na entrevista é um político altamente antenado, coerente e consciente das principais questões e contradições do nosso tempo. Quem já está se acostumando com as frases polêmicas de twitter e textos curtos e mal lidos em declarações gravadas, assistiu a uma aula-show de retórica e inteligência… concordemos ou não com suas ideias, teremos  de convir que o entrevistado é certamente uma das mentes mais brilhantes da atual política brasileira.

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No entanto, não se pode deixar de observar, na entrevista, uma ausência de autocrítica em relação a escolhas políticas passadas que ajudaram (tanto ou mais que a Globo e suas concorrentes) o Brasil a chegar onde está e, sobretudo, a ausência  da crítica honesta  honesta a uma prisão ainda maior que aquela imposta injustamente (se é que existe alguma prisão justa) ao Ex-presente Lula pelo então Juiz Sergio Moro. É possível que o desafio da nossa época não se restrinja a constatar que o Lula foi preso injustamente mas, sobretudo, que os presos somos nós (Babaca!!!).

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O ex-Presidente Lula não está errado ao reclamar que “todo mundo pede autocrítica ao PT e não à elite brasileira que está aceitando a atual conjuntura”, no entanto, há que se lembrar que a explicitação insistentemente  dos erros dos outros não anula os seus, mas pode esconde-los. Se foi a estratégia de conciliação de classes (como ele disse: “maior parceria política que já se viu, representada por um empresário e um operário”) que permitiu ao PT chegar ao governo em 2003 e fazer as benesses que fez, foi essa mesma estratégia que inviabilizou mudanças de longo prazo na estrutura da desigualdade no país.

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Ao mesmo tempo que o governo Lula ampliou o acesso ao consumo de determinados setores vulneráveis (ao qual eu me incluo), abriu mão de democratização verdadeira dos meios de comunicação (e fortaleceu as famílias e igrejas donas da Globo, Record e Bandeirantes); protelou uma reforma agrária radical que desmantelasse o ou, ao menos, relativizasse o poder do latifúndio (propriedades das mesmas famílias acima) e o Estado-Policial, aliás… a política carcerária e as atuais leis de segurança (em sua criminalização de movimentos sociais), de que hoje o presidente é vítima, cresceu nos governos petistas.

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Se e verdade que o assunto “corrupção” foi uma grande distração pública (financiada por Grandes interesses) para tirar o PT da jogada e preservar outros partidos muito mais corruptos, também é necessário reconhecer que a própria luta de classes foi dando lugar – teórica e politicamente – na retórica e horizontes do Partido a jargões despolitizantes como “cidadania” e acesso ao consumo. Não se pode desconsiderar que em um país como o nosso, que foi forjado a partir da escravidão e uma abolição inconclusa, a garantia de um mínimo de direitos sociais é algo nobre e o ponto de partida de qualquer projeto transformador, mas em alguns momentos, ao observar a trajetória desse grande Partido (não confundir com o esforço sobre humano de parte aguerrida de sua base)  surge a dúvida se ele realmente buscava a transformação radical ou apenas a adaptação e continuidade às atuais estruturas de poder.

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 Embora tenha o mérito de acolher parcialmente e dado vazão à reivindicação de importantes movimentos sociais, como o movimento de mulheres, ambientalista, LGBTTIQ e movimento negro, o Partido não conseguiu democratizar (do ponto de vista racial) nem o seu próprio organograma político e mesmo diante da crise e de uma percepção aguda de que o partido precisa mudar, lideranças negras expressivas (como Paulo Paim e tantos outros anônimos nas estruturas municipais e estaduais) continuam à margem das grandes negociações, decisões e distribuição dos recursos de campanha. Embora seja um partido criado a partir dos sindicatos – espaços legítimos de organização dos trabalhadores – o PT seus limites politicistas (quando se ignora a preponderância do econômico sobre o político) mobilizou mais trabalhadores para protestar contra a prisão injusta de Lula do que para protestar contra a Reforma Trabalhistaque tramitava no Congresso e hoje, a Reforma da Previdência, que aliás, iniciou no Governo Lula.

Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

Lula, o preso político mais importante do Brasil, mostrou que continua sendo um gigante em suas ideias, humanismo e apreensão do mundo, mas perdeu uma grande oportunidade, ao sustentar uma retórica onde apenas os “outros” erram e traem. O ciclo histórico– do qual ele foi principal sujeito, mas não o único, como ele sugere em sua fala – se esgotou.E a História não se repete, sa não ser não como farsa e depois ainda, como tragédia. Se o Lula voltasse hoje, assim como um Messias, não conseguiria repetir alguns dos feitos da década passada porque a conjuntura econômica, política e cultura não é a mesma. Como ele disse, “a classe trabalhadora de agora não é mais a mesma da década de oitenta”, e também não é, graças ao seu Governo (para bem e para mal) a mesma do início dos anos 2000.

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 Talvez não seja a hora de mexer em time que está perdendo, ou a crítica pública de si mesmo só alimente a sede voraz de inimigos oportunistas que explorarão as nossas fraquezas contra nós mesmos; Talvez a crítica reforce os erros e contradições e dê pouco espaço para os acertos e possibilidades criadas no período; talvez, o próprio emissor da crítica seja um ingrato que só pode fazer-la porque se beneficiou daquilo que está criticando, com políticas e possibilidades rasgadas sob barreiras reais que existiram… talvez essa crítica seja inadequada no momento exato em que milhões de pessoas, baqueadas pela derrota nas urnas, precisavam de um referencial positivo, de um líder ou um Messias anti-Messias  (diferente do Messias eleito).

Entretanto,  não reconhecer os limites do próprio projeto diante da realidade concreta do presente, Lula, a maior liderança que a esquerda já teve – perde a oportunidade de apontar para algo maior que ele mesmo ou a política que representae com isso, nos convida à perigosa aventura de desejar o velho, ao invés de almejar um novo em que ele próprio – ou seu legado – pudesse estar incluído de outra forma e em um outro lugar. Mas seria cobrar demais (mesmo de uma das mentes mais  brilhantes) que em uma situação de inegável injustiça contra a sua vida, ideologia e projetos políticos propusesse que seguíssemos sem Ele (O verdadeiro Messias) ou o superássemos  uma vez que ele não voltará (a tempo) para nos salvar.

LULA CONTINUA SENDO UM GIGANTE, mas precisamos ir além (e não contra) – dele, do PT e de um certo jeito de pensar a política que também está presente em seus concorrentes –   em direção à árdua construção  novos ciclos políticos-ideológicos que acertem as contas com esse passado sob o risco de ficarmos presos infinitamente naquele CÁRCERE  que Luís Fernando Veríssimo constata quando diz que no Brasil “a história não se repete como farsa, as farsas se repetem como história”.

 

A CIÊNCIA, A FÉ E O ERRO DE EINSTEN: Sobre a Deusa preta da Verdade e a fotografia do buraco Negro

É verdade que o conhecimento científico também exige uma certa crença… 
Por Deivison Faustino (Nkosi)
Deusa Ma’at: a verdade é uma Deusa Preta
 
Você observa que as galáxias estão se afastando: calcula a posição e a direção de cada uma no espaço observável e refaz o caminho retrospectivamente (com base em todo conhecimento físico que obtemos), concluindo que um dia toda essa matéria esteve concentrada em UNICO PONTO. Aplica-se a essa informação o fato (observado por Newton) de que a gravidade faz com que os corpos se atraiam mutuamente, e depois de se aproximar, conforme a massa, vão ficando tão juntinhos, mas tão juntinhos, que até o volume diminui (quanto maior a massa maior a sua gravidade). Conclui-se a partir daí que esse único ponto  que continha toda a matéria do universo era infinitamente pequeno (menor que a cabeça de um alfinete). Por alguma razão que ainda não foi explicada, em algum momento (ou em nenhum, pq até o Tempo estava comprimido nesse minúsculo e infinitamente pesado ponto) ele “explode'”(embora didático, os físicos afirmam que o termo explosão não é o mais adequado) e os elementos ali contidos se espalham, chocano-se, fundindo-se e criando aos poucos novas formas das matérias que hoje compõem o universo em expansão e que hoje estudamos na tabela periódica. Vem daí a teoria do Big Bang… e depois do Big Crunsh (não, não é Crush, mas o sentido é parecido, pq a gente se atrai s2).
 
Tem que ter uma certa nos cálculos observáveis e em sua capacidade de generalização para acreditar em determinadas teorias. No nosso caso (moderno), enquanto avança a consciência a respeito desse movimento histórico do mundo, um físico Alemão retoma a teoria da gravidade de Newton e a eleva a um novo patamar mostrando, a partir de complexas equações, que a gravidade não apenas aproxima os corpos mais os distorce a medida em que os aproxima, a depender da quantidade de massa e energia que possuam. A Relatividade Geral é a teoria da distorção do espaço e o do tempo. E o Einstein prova isso a partir de equações que eu só não explico aqui, porque eu simplesmente, não entendo nada… rsrs mas tenho convicções! É preciso de um pouco de fé, na ciência rsrs…
A gravidade na Relatividade Geral de Einstein
Essas equações do físico alemão foram a base para a hipótese de buracos negros. Porque se a massa de um objeto é proporcional à sua gravidade, e por isso distorce proporcionalmente o espaço tempo a sua volta… uma imensa quantidade de massa cria também uma gravidade imensa que, a partir de determinado ponto, suga não apenas aquilo que está a sua volta, mas, sobretudo, a si mesma… inclusive a luz… rasgando o espaço tempo de uma forma que ainda não somos capazes de explicar. Nasce aí a teoria dos Buracos Negros.
Buraco negro
Mas a ciência exige um quantidade de fé e o Einstein, herege da maior proporção, ao observar os resultados de seus próprios cálculos não acreditou. Ele não acreditava  que pudessem existir buracos negros, e contra essa ideia maluca (olha, que fita!!!), chegou a escrever um artigo contestando a hipótese.
 
Não há ciência sem fé, mas o que  faz a primeira tão interessante – e nisso ela lembra a antiga crença kemética (egípcia) na Deusa Ma’at, a divindade da Verdade – é a capacidade de se rever a partir do momento em que surgem novas descobertas…  Como pesava o ensinamento egípcio, a Verdade deve estar acima de tudo, inclusive da crença. E se por um acaso, as informações (que conseguimos obter até aquele momento) mostrarem que a nossa fé estava errada… não é pecado ter a humildade de rever as posições.
 
Em Ma’at, a Verdade deve estar acima das crenças, mas não as substituem ou as invalidam. Essa posição presente no Antigo Egito (KMT) fez (somadas à necessidade racista de mostrar a Europa como o local mais desenvolvido do globo terrestre) com que os historiadores modernos da filosofia não incluísse essa região nos manuais de história da filosofia. Aprendemos que o “milagre grego” (aquilo que permitiu a filosofia surgir) foi justamente o fato deste povo separar fé e razão. Essa separação ajuda explicar o trato hostil da Igreja Cristã européia com alguns de seus melhores cérebros como Giordano Bruno, Nicolai Copernico, Galileu e tantos outros.
Simulação feita com os cálculos de Einstein X fotografia real do Buraco Negro
 
O desafio para nós, ocidentais (ou não-ocidentais ocidentalizados = o que dá no mesmo) que repetimos a 500 anos que ciência e fé são coisas distintas, é conseguir fazer o que, provavelmente, Einstein faria diante das informações hoje disponíveis (tenho convicções mas não posso provar rs): teria  a humildade de reavaliar a própria crença a partir das evidências que a vida (mas também as pesquisas) nos oferecem. Exatamente o contrário do que está fazendo o nosso Governo que ao se deparar com dados crescentes de desigualdades e injustiça no Brasil (a febre) ou de análises técnicas e teóricas que discordem de seus pressupostos (o diagnóstico)  , opta por quebrar o termômetro  e os profissionais que o manuseiam (desmontando  e criminalizando o IBGE e as universidades públicas).
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A Verdade é uma Deusa preta, subversiva demais para ser aceita por pessoas fracas e de pouca convicção, inclusive na sua própria fé… e por isso, precisa ser, mais uma vez, queimada na fogueira.  Felizmente, na física, nada se perde, e  ela, a Verdade, mesmo esmagada pelas grandes mãos do poder, sempre dá um jeitinho de escapar pelos poros infinitamente imensos  da nossa própria existência: 

A Crossroad, o Diabo e as encruzilhadas escorregadias da cultura

*Mpambu Njila Njila vua! Kiambote! Mutu e mutu ave hanga ko
Por Deivison Faustino (Nkosi)
O  Documentário ReMastered: O Diabo na Encruzilhada‘, a ser lançado  pela Netflix em breve, trará  à tona a fascinante história do músico do Blues Robert Leroy Johnson (May 8, 1911 – August 16, 1938), que segundo conta a lenda, fez um pacto na encruzilhada para tocar bem e ter sucesso. Depois do suposto pacto e o seu desaparecimento por um ano, o músico regressou aos palcos  com habilidades e desenvoltura rítmica jamais vistas.  O seu sucesso meteórico foi interrompido aos 27 anos após uma morte “misteriosa”.

O documentário, que se compromete a resgatar a história do músico, acaba por evidenciar um tema nem sempre debatido no Brasil: a influência das crenças sagradas de matriz africana nos EUA.
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Dado à sua influência protestante, o modelo de colonização adotado nos EUA (Segregação), sustentou-se por uma negação QUASE absoluta dos valores culturais (estéticos) trazidos à diáspora pelos africanos escravisados e os seus descendentes. Não apenas os tambores foram proibidos  como também as diversas crenças religiosas trazidas de regiões que hoje são conhecidas como Congo, Angola, Senegal, Nigéria, Gâmbia, Camarões, Namíbia, e Costa do Marfim, entre outros. Pode-se imaginar o terror que essas crenças exerciam  às mentalidades escravistas  estadunidenses quando vemos os seus esforços de demonização do que chamam genericamente de Vodum (ou vodoo): do desenho do Picapau à conhecidos filmes de Hollywoodeanos, essas crenças são geralmente cobertas de estigmas, distorções fantasmagóricas e preconceitos. 
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Ainda assim, como mostram os principais estudiosos da cultura… a relação entre povos, mesmo sob dominação colonial, resulta sempre em influências múltiplas quem nem sempre são percebidas ou reconhecidas, mas estão la, tensionando as noções simplistas de existir e resistir. Se é verdade que as culturas de matriz africana foram violentamente perseguidas e demonizadas naquele país, diversos de seus elementos insistiram em se fazer visíveis. Não sem o atravessamento de importantes contradições. 
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No caso da música, como lamentava o trompetista Dizzy Gillespie a proibição dos tambores na terra do Tio San resultou em uma menor complexidade rítmica da música afro-americana (quando comparada aos ritmos afro latino-americana), mas também em um hipnotizante trato percussivo com o corpo ou os instrumentos de cordas
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No caso da religião, mesmo nas regiões católicas como a Luiziana, a proibição das crenças trazidas de África não resultaram na sua extinção – como queriam desesperadamente os racistas, mas na transfiguração delas em outros termos, como a musicalidade e espiritualidade corporal do Gospel ou mesmo na permanência de símbolos africanos adaptados ou em tensão com os binários códigos cristãos.
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É sabido que esse negócio de Diabo é uma invenção judaico cristã que não comporta a complexidade cosmogonica africana. A inexistência de uma visão binária (entre natureza e sociedade, espiritual e humano, liberdade e necessidade, bem e mal, masculino e feminino, etc…) permitiu, em diversas crenças africanas, a compreensão de entidades ou divindades mediadoras das dimensões que compõe a existência. A possibilidade de mediação é tão sofisticada que alguns teóricos chegam a questionar se   o termo “religião” realmente se aplicaria às  crenças sagradas africanas uma vez que inexiste, na  maioria delas, a ideia de expulsão do paraíso ou pecado original que exigisse o re-ligare.  
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O ponto que interessa, quando olhamos a história do Gospel, Blues ou Spirituals  é a dinâmica nada linear dos encontros (e dês-encontros) culturais. Os colonizadores acreditavam piamente que a sua cultura era superior à dos povos dominados por eles e que estes, no contato com a cultura ocidental, assimilariam os valores espirituais e estéticos considerados superiores e abandonariam as suas crenças originais, entendidas como atrasadas.
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Ao que parece – e isso fica gritante no caso de Robert Leroy Johnson –  não se pode manipular mecanicamente os jogos dos significados sem ter que se deparar com efeitos colaterais imprevistos. Como revela um famoso ditado iorubá: Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje…”
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Em primeiro lugar, como alertava o sociólogo Clóvis Moura, o “sincretismo” cultural não é, como se costuma pensar um processo unilateral de imposição de uma cultura dominante sobre um povo dominado, mas também a influência dos elementos culturais negados sobre a cultura dominante. Moura afirmava, olhando para o cenário brasileiro, que assim como houve uma influência cristã sobre as crenças de matriz africana, houveram influências simbólicas de matriz africana sobre as crenças cristãs, especialmente naquilo que se denomina “catolicismo popular”.  
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Em segundo lugar, e não menos importante, aquilo que se busca enterrar vivo e para sempre – uma ideia, um jeito de olhar o mundo material ou sagrado, um movimento – depois de agonizar sem ar por debaixo da terra, pode se decompor e se recompor como sementes e, eventualmente emergir sob novas formas de vida, à revelia dos sistemas de crenças vigentes. Não estou me referindo ao “Diabo” (ou o Satan cantado por Johnson). Aliás, o cristianismo jamais o enterraria ou abriria mão dele porque ele é figura central nesse sistema de crenças. Sem  medo  d’Ele, não haveria razão procurar intermediários humanos que institucionalizam a possibilidade do religare (igreja com instituição). Me refiro  à milenares crenças africanas, levadas pelos diversos povos sequestrados para as Américas.
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Qualquer brasileiro – independente de sua concepção religiosa – sabe o valor das encruzilhadas para os diversos sistemas de crenças de matriz africana. Da Umbanda, Quimbanda, Terecô, Batuque aos Candomblés de qualquer nação que se observe, encontra-se na encruzilhada uma dimensão espaço temporal de fundamental importância.
Cruz Bakongo
É na encruzilhada (Mpambu= cruzar e Njila= caminho) que uma série de caminhos se cruzam e abrem a possibilidade para novas escolhas e contradições. Seja como fronteira, limite, ponte ou portal, é nela que as contradições se explicitam, e se permitem ser superadas dando vida a novas outras contradições. É também na fronteira entre o masculino e o feminino (e porque não, entre masculino e masculino, feminino e feminino e tantas outras infinitas combinações), mas principalmente no cruzamento dessas fronteiras que os polos inter-sexionam-se sexuadamente.   Esse caráter dinâmico da vida (mas também da história) está fartamente representado, nas religiosidades de matriz africana no Brasil,  em divindades como Exu (candomblé Ketu), Legba (candomblé jeje) Mpambu Njila (candomblé congo-angola),  Pombagiras e Exus (umbanda e quimbanda).
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Esses sistemas de crenças não são pautados, como no cristianismo pela ideia de pecado ou de oposição entre bem e mal, como algo definido a priori por um sagrado absoluto, mas sim pela ideia de liberdade, necessidade e responsabilidade ou, se preferirmos, causa e efeito de nossas próprias ações. Isso significa que o universo sagrado não está radicalmente oposto à existência material (mas a compõe em todos os aspectos) mas, sobretudo, que a nossa ação na terra exerce influência sobre  esse universo ao mesmo tempo que este exerce a sua influência sobre nós.
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Assim, as divindades são entendidas – não como bem ou mal, anjos ou demônios, mas –  como forças da natureza ou ancestrais desencarnados que podem nos auxiliar (e eventualmente atrapalhar) na tomada de escolhas ou mesmo interceder por nós naquelas instancias da existência que não alcançamos materialmente, mas esse contato com aquilo que “está além” do que vemos pressupõe mediações e atravessamentos que são possíveis na encruzilhada (fronteira ou ponte). Assim, a encruzilhada é uma dimensão espaço temporal sagrada privilegiada para qualquer pedido e os seus guardiões, cultuados com destaque em qualquer culto  realizado no âmbito desses sistema de crenças.
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Não é atoa que essas representações (Exu, Mpambo Njila, Pombagira, Legba, etc) foram demonizadas no âmbito do colonialismo escravista. Esse conjunto de crenças representavam riscos reais ao colonialismo porque permitia em uma só tacada que: 1. os africanos (e seus descendentes) preservassem o seu sistema de referencia e memória coletiva  (negando, pelo menos simbolicamente, a máxima colonial segundo o qual os africanos eram coisas e não humanos); 2. fosse possível esboçar relações de poder, ideologia e hierarquia que fugissem ao controle da casa grande, representando grande ameaça e; 3. organizar resistência política implícita ou aberta contra  o regime escravista.
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O irônico, para retomar ao hipnotizante blues de Robert Leroy Johnson, é que ao associar esse sistema de crenças ao demônio enquanto impunham o cristianismo como única forma de interpretação do mundo, os escravistas cristãos não não contavam com o caráter escorregadio e contraditório dos significados: se o Sinhô afirmava e fazia repetir – sob a força do chicote e da baioneta – que as divindades dinâmicas  da existência eram o diabo ou o mal (Evil)… e diziam ainda que o Bem Supremo era Aquele que abençoava a escravidão, a tortura e o estupro… então, que mal havia em cultuar esse nomeado “mal”  para garantir um bem imediato  que podia variar entre o alívio da dor física ou mental da escravidão, até a tentativa de uma conquista maior como o sucesso no mundo da música, depois de uma abolição que continuou marginalizando e violentando a população negra?
Colonos belgas lendo a Bíblia antes de enforcar uma criança negra de 7 anos de idade, no Congo governado pelo rei Leopold.
Ainda não assisti o Documentário, mas pode ser que Robert Johnson tenha pregado uma grande peça em nosso imaginário judaico-cristão.
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Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo ávores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como ávores e montes e flores e luar e sol.

“Deus”, por Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Parafraseando o ateísmo spinosiano de Fernando Pessoa  , poderíamos dizer que se “Deus” é a ordem que mata e legitima a escravidão, e o “Diabo” a possiblidade de subverte-la – quem disse isso foram os missionários cristãos nas Américas – então, parceiro… chame-os do que quiser  desde que possamos aliviar ou nos livrar, tanto no plano material como sagrado, dos  traumas da tortura, estupro e do linchamento…
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O problema, para os africanos e seus descendentes na Diáspora escravagista é que essas encruzilhadas da cultura não tiveram efeitos apenas sobre o dominador, mas também sobre si, e eles próprios (nós), a jogar o jogo de dentro  dos significado, também foram (fomos)  jogados para além do que suponhamos ir e ao longo dos tempos e espaços, e acabaram(acabamos) interiorizado parcialmente os valores que outrora lhe(nos) contrapunham. Muitos de nós também acreditamos que Exu era o mal, pouco importando aí se o mal era  o mau a se combatido ou o bem a ser almejado. Quando os evangélicos neo-petqencostais descobriram isso, exploraram essa informação com eficácia mortal que explica hoje o porquê boa parte da  população negra do continente americano fugir como “como o diabo foge da cruz” (?) das representações  sagradas referentes às encruzilhadas. Mas isso é outra história que desfocaria o grandioso e enigmático Robert Johnson.

Não é pelos franceses, é por você, mesmo! Sobre o porquê também deveríamos chorar a queima da Catedral

Por Deivison Faustino

 

Tenho visto muita gente que eu respeito  compartilhando memes em comemoração à queima da Catedral Notre-Dame, um dos símbolos franceses mais conhecidos da dita “cultura universal”. A nossa comemoração à essa perda,  em um país tão violentamente colonialista como a França, é compreensível uma vez que fomos (e somos) colonizados, mas este ato convidativo é tão equivocado quanto a postura de um certo presidente que ignora o incêndio no museu do próprio pais para se solidarizar com perda “dos outros”.  Vou tentar explicar o porquê: 

É verdade que  a  Europa colonial atribuiu narcisicamente  um caráter de universalidade aos seus símbolos (religiosos ou laicos) enquanto desumanizou (ou se apropriou de) tudo o que não era europeu. Se você for no museu do Louvre (em Paris) verá obras roubadas de KMT, Pércia, Península Arábica, América, etc, mas esses povos nunca são representados como universais., apenas os Europeus. É o racismo colonial moderno… e em função dele, o mundo chora a morte de alguns franceses em um atentado terrorista  (ja que toda morte merece o seu luto) mas ignora o genocídio de milhões provocados pelo neo-colonialismo (inclusive francês) então, a comemoração à queima dessa igreja (justo a igreja) que logo será reconstruída  é super compreensível. E esse genocídio também se concretiza  no campo do conhecimento:

XXVII antes de Cristo.  – e no momento em que os europeus ainda estavam nas cavernas  ou saqueando-se entre si  em um sangrento  “jogo de tronos” – o matemático, arquiteto, médico, poeta e filósofo In-hotep já projetava a primeira pirâmide que deu certo (houveram muitas tentativas anteriormente fracassadas)  utilizando, para tal, cálculos geométricos hj conhecidos como “triângulo retângulo. Mas de acordo com os narradores modernos, o “pai” da matemática (e da geometria é o Pitágoras).

Mil anos antes de Darwin, o filósofo árabe  Abu Usman Amr Bahr Alkanani al-Basri (conhecido como  al-Jahiz) formulava, em meio o califado Abássida, publicava  “O livro dos animais” com observações e afirmações que mais tarde seriam consideradas invenções de Darwin (que obviamente aperfeiçoou os saberes com novas observações e conclusões – mas atribuir a ele o  título de Pai da Biologia é desconsiderar a contribuição inclusive de outros europeus como Aristóteles). 

Darwin: o pai do evolucionismo?

Um século antes de Kant (1724-1808) o filósofo etíope Zera Yacob (1599-1692)  misturava Platão e Aristóteles à filosofia etíope e árabe para formular o seu livro “Hatãta”(investigação)  onde defendia que Deus estava na razão (lembra muito a filosofia de Ma-at – que não era desconhecida pelos etíopes) e  não nas escrituras (bíblia) e na igreja. Esses  posicionamentos são a base do que depois seria conhecido como Iluminismo. Mas nenhum africano é mencionado na história dessa filosofia. 

Para o eurocentrismo europeu… de Hegel à Heidegger, a Europa (e nem é qualquer região da Europa)  é o patamar mais avançado da humanidade: é universal e os não-europeus nem são gente, ou não são tão gente assim como eles. Por isso não choramos (nem ficamos sabendo) do bombardeio que destruiu vidas humanas e relíquias culturais no Yemem e nem o extermínio indígena nas Américas… até hoje, a escravidão não foi reconhecida como um crime contra a humanidade e os descendentes dessas vítimas não foram reparados… e assim seguimos… 

No entanto, há uma pegadinha nesse esquema que só é possível perceber se avançarmos para além do imediato em direção à uma série de mediações que por vezes são ignoradas nestes assuntos. 

Narciso antes de morrer afogado por se apaixonar à própria imagem

Foram os europeus que atribuíram a si próprios a pecha de universal , e aos não-europeus o caráter de  especíe(ficos)… mas em resposta a essa mentira narcisista, ao invés de tomarmos de volta a percepção de nós também como universais – afinal, o universal do humano é a sua capacidade de transformar a natureza e a si proprio nesse ato transformador (o trabalho ) – mantivemos intacto o pressuposto eurocentrico  deixando pra eles a ideia de universalidade, e em troca, adquirimos uma espécie de narcisismo invertido (o Fanon chamava isso de “duplo narcisismo”) que nos faz apegar-se a nossa espécie(ficidade) de migalhas. Os mais radicais de nós, em resposta ao racismo europeu e o ódio anti-negro, afirmam só gostar “do que é nosso”… mas nem sempre explicitam quais os critérios que definem “o que é deles” e “o que é nosso”. É o crime perfeito!!! 

Quando a Catedral Gótica de Paris pega fogo…  ela não queima porque o povo percebeu o papel histórico da Igreja na dominação colonial dos povos não-europeus ou na manutenção da sua sua própria  miséria material e espiritual ao longo de dois milênios e resolveu tomar para si o seu destino (material ou espiritual) sem intermediários humanos pseudo-iluminados (isso ocorreu na Revolução Francesa).. ela pega fogo, não se sabe ainda o porquê, mas nesse contexto, nos adiantamos para comemorar porque não conseguimos mais nos ver  naquilo  que não é imediatamente idêntico a nós mesmose isso é uma grande perda humana, aliás… é a expressão do triunfo do colonialismo.  A comemoração só é possível  porque interiorizamos os pressupostos eurocêntricos – que afirmam que  ela não é nossa também… àquilo que está na Europa aparece como se fosse deles (dos “nossos inimigos”), assim como também seria deles a razão, o Iluminismo, a biologia e a matemática… “que queimem então  no inferno todos esses saberes brancos opressores enquanto eu toco o meu tambor”… oi? Quem foi mesmo que inventou e definiu os critérios de marcação entre o “nós” e “eles”? Quem foi que disse que o “deles” não é “nosso”?… e quem foi que acreditou? 

Em primeiro lugar, quem separou  tambor  e razão foram “eles” – os ocidentais racistas, na tentativa de nos animalizar. Em segundo lugar, aquilo que eles disseram ser “deles”, só existe entre eles porque beberam (ou expropriaram ou aprenderam com ) o “nosso” conhecimento, assim como o conhecimento meso-americano, árabe, indiano, persa, chines, etc… não estou colocando em debate se o cristianismo ou a cultura judaica tem raizes africanas (daria um bom debate), mas estou chamando à atenção para o fato de que se tem alguma universalidade na Catedral, não é porque ela é europeia, mas pq é uma obra humana que nos ajuda a entender uma parte importante da história (humana – europeia ou não)… o fato dela ser “cultura universal”  não significa (como defendiam os racistas) que as Igrejas esculpidas em rocha, em Lalibela (Etiópia) ou as universidades de Machu Picchu (Peru) não sejam, mas sim, que o “Nós”, não se resume a uma geografia humana e historicamente inventada (no caso da moderna, inventada por brancos racistas)… o “Nós” se refere   a espécie humana , mas o racismo ensinou aos negros que eles não são parte “disso daí ” (Sic) e eles (nós) obedientemente rebeldes acreditaram…. 

A Catedral de Notre-Dame  mantém viva arquitetura (gótica) muito rica que só foi possível  no contexto europeu mediante séculos de influências entre os godos (tribo germânica) com uma série de culturas antigas (especialmente do mediterrâneo árabe e norte-africano) no âmbito da cultura romana.  Tem saber humano (inclusive africano, mas não só) acumulado ali que também é meu – mesmo que os godos tivessem vindo da Groelândia ou do Polo Norte.

Se a gente levar a sérios os ensinamentos de Cheikh Anta Diop, podemos sugerir que a devoção  dos cristãos patriarcais europeus às várias Virgens Marias (Notre-Dame = Nossa Dama = Madona mia = nossa mãe )  só é possível (olhem o lugar das mulheres nas hierarquias do catolicismo), pq antes das chegadas dos povos setentrionais (saqueadores patriarcais e vindos do extremo norte europeu) ao sul da Europa e depois, com o advento do Cristianismo sob o julgo do Império Romano, vigorava nessas regiões uma série de cultos matriarcais. É possível que o cristianismo, para se estabelecer, tenha tido que negociar  interiorizando elementos nãos cristãos (pagãos) em seu próprio sistema teológico. O culto às madonas podem ser uma grande concessão dessa religião patriarcal a milênios de crença daquilo que eles chamaram de paganismo e depois, ao não conseguir controlar, criminalizaram e queimaram milhares de sacerdotisas (a chamada caça as bruxas europeia). O curioso, é que por uma série de razões que não cabem nesse artigo, a representação destas Madonas (Notre-Dames) em geral é negra. 

Não estou convidando ninguém a se tornar cristão e nem esquecer as atrocidades cometidas em nome do cristianismo, mas o  ponto que gostaria de colocar em debate (inclusive para ser corrigido por dados mais precisos ou reflexões mais rigorosas) é que o  renascimento, o iluminismo, a industrialização, a desenvolvimento do próprio capitalismo seriam impossíveis, na Europa sem o saque, a rapinagem, o estupro, a apropriação de conhecimento do restante do mundo, mas também troca de saber e influências múltiplas.  Se deixarmos o eurocentrismo europeu de lado, veremos que o “nós” é muito mais que aquilo que eles disseram que somos… o “nós” também está “neles”, ou melhor, é obra de toda a humanidade, com as suas diferenças, contradições e diversidades… 

Não estou dizendo com isso, que podemos abolir as  divisões e hierarquias raciais existentes apenas negando verbalmente a sua existência ou afirmando uma “consciência humana” abstrata… o “fogo nos racistas é necessário” de que fala Djonga  é necessário, pois sem a afirmação daquilo que foi negado em contraposição à própria negação  não há movimento social emancipador… e por isso, a “consciência negra” de que falava Steve Biko nunca foi tão necessária como agora, no entanto, o horizonte que  ele via não não pode se perder de vista:  “a busca da verdadeira humanidade”… a superação da racialização imposta pelo colonialismo e a possibilidade de concretizar o sonho de Beatriz do Nascimento…  do contrário, perderemos a guerra antes de começar.

“a terra é o meu quilombo,
meu espaço é o meu quilombo.
onde eu estou, eu estou,
onde eu estou, eu sou.”
Maria Beatriz do Nascimento

A grande pegadinha da história – que infelizmente não cabe em um meme viral –  é que o universal do humano é o próprio humano, em sua atividade sensível de transformação da natureza para satisfazer as suas necessidades e com isso, na transformação progressiva e infinita de seus próprios pressupostos (cada vez mais sociais). O  conhecimento humano é universal, e não alguns humanos particulares. O conhecimento é universal pq é historicamente acumulado a ponto de cada novo salto de saber, acumula em sua raiz, todos os saberes humanos anteriormente desenvolvidos por indivíduos e povos diversos… o Egito (KMT) só foi o grande Egito pq gozou de um contexto geológico  (a cheia do Nilo) e geográfico (o Delta do Nilo permitia o contato com a cima do rio e ao Mediterrâneo)  que favorecia a troca de saberes com povos de outras partes da África e de outros conhecimentos .  

O saber só se desenvolve  quando transborda nacionalidades e geografias… é humano e todos os humanos pertence.. é por isso que deveríamos ter chorado os bombardeios do Daesh (conhecido no ocidente como Estado Islâmico) às ruinas da antiga cidade de Palmira (na Síria)  ou Hatra (no Iraque) – mesmo sem ser sírios ou iraquianos) assim como o incêndio da biblioteca de Alexandria e no terreiro de candomblé de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás…  foi fundamental, na história francesa, enforcar os reis e os padres, mas do ponto de vista humano, se quisermos questionar o papel colonial da igreja, ou nega-la radicalmente em sua existência concreta, faz mais sentido preservar  o prédio como museu ou parlamento (como fizeram os comunista russos) do que incendia-los como fazem os radicais do Daesh, pq afinal de contas, esses espaços (e construções arquitetônicas antigas trazem  traços importantes do que somos ou fomos… se  estes traços se perdem e o único resultado é o empobrecimento ainda maior da nossa própria humanidade… e exatamente ai que o racismo foi tão eficaz:  o branco  racista disse que alguns saberes são brancos… e os não brancos acreditaram, aponto de comemoram a sua destruição. 

O problema aqui considerado situa-se na temporalidade. Serão desalienados pretos e brancos que se recusarão enclausurar-se na Torre substancializada do Passado. Por outro lado, para muitos outros pretos, a desalienação nascerá da recusa em aceitar a atualidade como definitiva.

Sou um homem e é todo o passado do mundo que devo recuperar. Não sou responsável apenas pela revolta de São Domingos.

Todas as vezes em que um homem fizer triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disser não a qualquer tentativa de opressão do seu semelhante, sinto-me solidário com seu ato.

[…]

O indochinês não se revoltou porque descobriu um cultura própria, mas “simplesmente” porque, sob diversos aspectos, não lhe era mais possível respirar.

Frantz Fanon (1952)

PREFÁCIO DO LIVRO “RACISMO E EUGENIA NO PENSAMENTO CONSERVADOR BRASILEIRO: A PROPOSTA DE POVO EM RENATO KEHL”

FAUSTINO, D. Prefácio. In: GÓES, W. L. . Racismo e eugenia no pensamento conservador brasileiro: a proposta de povo em Renato Kehl. 1. ed. São Paulo: LiverArs, 2018. 226p .

Ao abrir este livro, pode o leitor estar certo de que abriu um estudo de alto valor, feito com tenacidade crítica, força de convicção, solidez de argumentos, coragem mental, clareza expositiva e grande originalidade.

Antônio Cândido

 

As palavras acima transcritas, não foram originalmente dirigidas ao presente livro mas poderiam ser, sem nenhuma forçação de barra. Weber Lopes Góes, em seu Racismo, eugenia no pensamento conservador brasileiro: a proposta de povo em Renato Kehlnos oferece uma análise precisa do racismo no seio do pensamento conservador brasileiro.

O paralelo com o livro elogiado por Antônio Cândido [O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio, de José Chasin, 1978] não é gratuito já que ambos investigam importantes expoentes do pensamento conservador brasileiro tendo como mote, por um lado, as particularidades da organização capitalista brasileira, onde o “moderno” (o desenvolvimento das forças produtivas) entrelaça-se com o “atraso” (o escravismo, a sesmaria, o latifúndio, o coronelismo, o patrimonialismo, e a autocracia institucionalizada) ao invés de instaurar relações novas e, no mínimo, democráticas. Por outro lado, o leitor encontrará aqui – assim como acolá – uma análise da influência desses pensadores no curso de acontecimentos decisivos para a história do Brasil.

A diferença entre eles, entretanto, não está na perspectiva teórica – uma vez que ambos se ancoram no filósofo húngaro Gyorgy Lukács (1979; 1959; 2009) para pensar as particularidades de entificação do capitalismo em seu desenvolvimento desigual e combinado – mas sim nas singularidades dos objetos estudados: se José Chasin analisa o Integralismo de Plínio Salgado como expressão própria do caráter hiper-tardio (débil) do nosso capitalismo, Weber Lopes Góes partirá daí para afirmar que esse capitalismo não pode ser devidamente apreendido sem o equacionamento preciso do racismo em sua gênese e reprodução. Uma tarefa ousada que é cumprida com maestria e farta oferta de dados historiográficos e sociológicos que relacionam articuladamente o autor a obra e o seu contexto de produção.

A ousadia da proposta se apresenta ainda mais evidente quando a equacionamos ao atual contexto político e acadêmico brasileiro: a despeito das raras e valorosas exceções, as análises “sérias” a respeito do capitalismo tendem a ocultar as suas dimensões raciais. No polo oposto do espectro, observa-se, da mesma forma, que boa parte dos estudos sobre o racismo o tomam como algo em si, sem conexões com o modo e as relações de produção existentes em cada sociedade, com exceção ao casos econométricos em que a luta de classes é discursivamente reduzida às suas dimensões aparentes e tomada (apenas) como marcador social de diferença. Ao contrário disso, para Góes, “Renato Kehl é um dos intelectuais que expressa a natureza do pensamento conservador brasileiro, pois é favorável à conciliação do ‘novo’ com o ‘velho’, mediado pela eugenia, isto é, conserva os traços de dominação de classe sem favorecer os setores subalternos, ausentes de qualquer avanço democrático ou distribuição de terras ou rendas” (GÓES, p. 215).

Outra distorção frequente que o autor evita é a redução do racismo a um epifenômeno da luta de classes, ou pior, a um mero resquício da escravidão, posição que leva importantes intelectuais brasileiros a suporem que o desenvolvimento (seja lá o que se entenda por isso) do país ou mesmo a negação discursiva do conceito de raça seria suficiente para sua dissolução.

Num caminho diferente, mas, sobretudo, atento aos descaminhos inocentes ou mal-intencionados do nosso pensamento social (subordinado)[1], Weber Lopes Góes nos faz lembrar a famosa sentença atribuída a Tom Jobim –  quando o mesmo afirma que  “o Brasil não é para principiantes” – ao desvelar a propositura teórica de Renato Kehl em meio ao ambiente intelectual que o gerou. Até hoje, se pode encontrar em alguns clássicos brasileiros uma falsa polarização entre a recusa da miscigenação – identificada como expressão máxima do racismo segregacionista – e o seu elogio, visto quase sempre como símbolo da ausência de racismo.

O que encontramos no programa eugênico de Renato Kehl, precisamente captado na presente publicação, é a apologia crítica à miscigenação como uma espécie de mal necessárioque nos leve, ao final, à cura da fealdade[2]e do atrasosocial brasileiro.

A redenção de Can – 1985

Góes nos ajuda a perceber a existência de um jeitinho brasileirodiante nos rígidos ensinamentos segregacionistas do Conde de Gobineau[3], que faz jus à definição de “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, ao pensa-lo (o homem cordial) não como aquele provido de “civilidade” e “polidez”, mas  sim, no seu oposto à civilidade, em suas dimensões coercitivas e formalistas é substituída pela aversão ao ritualismo e a polidez, expressa apenas de maneira aparente e não de fato: o objetivo da Eugenia, segundo Renato Kehl era  –  assim como nos outros membros de seu círculo intelectual[4]- a nada polida extinção completa dos descendentes de africanos no Brasil.

Mas este objetivo não se apresenta de cara, em uma primeira leitura, nem em Renato Kehl e nem na brilhante exposição Weber Lopes Góes. O autor vai explorando o seu objeto de pesquisa, decompondo suas partes, uma a uma, para durante o percurso, ir apresentando uma síntese, cada vez mais concreta de suas determinações ideológicas e políticas. Por isso, argumenta:

constatamos que seu objetivo era fornecer subsídios para a concretização de um projeto de povo brasileiro, sendo necessário, para isso, enfrentar e resolver as questões relacionadas ao sanitarismo, à educação, delinquência, pobreza, prostituição, raça, imigração e mestiçagem. A eugenia era a ferramenta primordial para disponibilizar os meios de superação dos problemas (GÓES, p. 212).

A ideologia eugênica – que se propunha ao mesmo tempo como ciência e religião – proposta por Kehl é apresentada, primeiramente, em seu contexto histórico mais amplo, remontando ao surgimento do conceito de raça, ao chamado racismo científico e ao darwinismo social na Europa imperialista do século XVIII e XIX. Vale avisar, entretanto, que o leitor não encontrará aqui apenas uma história das ideias eugênicas, mas também, das determinações materiais que as possibilitaram emergir em uma Europa burguesa que opta, de um lado, por explicar biologicamente as contradições de classe no capitalismo maduro e do outro, justificar a ocupação imperial-colonialista de territórios não-europeus.

Em seguida, o autor se debruça sobre as particularidades da formação social do Brasil e a objetivação do conservadorismo em importantes expoentes do pensamento social brasileiro ou das políticas públicas de saúde ou educação como Oliveira Viana, Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Artur Neiva, Belisário Pena, Carlos Chagas, Miguel Pereira, Azevedo do Amaral, Vital Brasil, Dr. Arnaldo, e Afrânio Peixoto. Todos estes inspirados no racismo científico e ativos militantes eugênicos.

É deste ciclo intelectual que surgirão os primeiros encontros e congressos eugênicos, bem com os subsídios políticos para a formulação de políticas públicas implementadas pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. É um pouco frustrante, para quem se engaja em uma luta antirracista apenas por meio das políticas de representação, descobrir que o brilhante psicólogo negro Juliano Moreira – frequentemente lembrado como o pai da psiquiatria no Brasil – também era um adepto do movimento.

É só no final, quando analisa as propostas da Eugenia como nova religião que o autor nos expõe as dimensões de gênero e raça da eugenia. Chama a atenção que Renato Kehl estava atento às diversas vertentes do feminismo e, portanto, se posicionava no debate defendendo aquilo que chamava de “bom feminismo”, em contraponto ao “mal feminismo”.

O primeiro, segundo o pensador eugenista, seria aquele que valorizaria as mulheres incentivando-as a serem boas mães e boas esposas. Nas palavras de Kehl, apresentadas criticamente por Góes, o feminismo deveria “contribuir para a preservação da mulher na posição de companheira do homem, gabaritada para ganhar a vida com o trabalho, caso seja necessário, e ‘cultivando talentos, se o tiver’”. Já o mal feminismo, seria aquele composto por “mulheres extremistas” que tentam se igualar aos homens. Nenhuma novidade no país que realizou agora em 2018 o 1o. Congresso Antifeminista do Brasil[5].

Outro tema, presente na proposta de Renato Kehl, e que a caracteriza, segundo argumenta Góes, como expressão do pensamento conservador no Brasil, é a sua recusa frontal à modernidade e ao humanismo.  Entretanto, dado que a crítica à modernidade não é exclusividade do pensamento conservador, é valido explicar que a sua posição parece estar mais próxima da posição do Nietzsche de O Nascimento da Tragédia e Além do Bem e do Mal (e por que não, Olavo de Carvalho), como afirma, Kehl, citado por Góes:

a civilização mudou por completo os verdadeiros instintos da seleção natural, transformou os ideais da humanidade e interferiu na marcha selecionista da espécie. Os mais fortes foram os que garantiam a vitória benéfica entre os homens, pois a evolução desde o período neolítico até a nossa atualidade tem colocado a espécie humana numa posição superior aos demais animais. Todavia, a “civilização fez que o homem da caverna passasse a habitar palácios; fez que o código da natureza fosse abrigado e substituído pelo código do sentimentalismo humano” (KEHL, 1923b, p. 22, apud GÓES, p. 182).

Por fim, e não menos importante – especialmente neste ano em que a parte da população da cidade de Pacaraima, em Roraima, expulsou violentamente os imigrantes venezuelanos que ali se encontravam[6]- são as proposições do já mencionado autor eugenista às políticas migratórias. O interlocutor do movimento eugênico brasileiro, como nos apresenta Weber Lopes Góes, visualizava a mistura racial como possibilidade de embranquecer a população brasileira e, com isso, diminuir a criminalidade e as demais contradições sociais do país. Assim, defendia a imigração, mas propunha, na mesma medida a existência de leis regulatórias que impedissem certos tipos de imigrantes.  Em outras palavras, a imigração era desejada, desde que oriunda da Europa, para todos os outros imigrantes – especialmente africanos – propunha-se o fechamento da fronteira.

O leitor tem em mãos um estudo muito rico detalhado de Renato Kehl, de sua propositura teórica e de seu período, permitindo-nos uma melhor compreensão não apenas do passado mas também de um certo presente que não acertou as contas com ele. O livro nos provoca a pensar nas permanências fantasmagóricas deste passado quando pensamos na violência, estigma e barreiras vividas por imigrantes e refugiados não-brancos que vivem entre nós, mas também nos índices absolutamente desproporcionais de mortalidade entre a negros/as quando comparados a brancos/as para problemas como assassinatos, morte em função do parto, Aids, tuberculose e etc, quando observamos a dimensão racial do mapa brasileiro do encarceramento ou a distribuição geográfica da população de qualquer capital do pais.

Somente a observação atenta das reminiscências do projeto eugênico entre nós – obviamente de forma “cordial” e mascarada – se pode entender a resistência vivida no Brasil às tentativas de aplicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e da Política Nacional de Saúde da População Negra, bem como ao tratamento violento que a especulação imobiliária e o agronegócio vem tratando as populações indígenas e quilombolas.

genocídios contemporâneos

Weber Lopes Góes nos alerta em seu estudo sobre Renato Kehl que a eugenia não se resumiu à castração dos indivíduos considerados inaptos, mas se fez presente na história do Brasil como um poderoso e eficaz projeto – em franca implementação – de sociedade em que o negro não era bem-vindo. Afinal, como alertou Clóvis Moura (1988), para essa elite, que Kehl compôs e apostou todas as fichas, “o Brasil teria que ser branco, capitalista e cristão” e para que esse objetivo fosse alcançado, não apenas os projetos alternativos de sociedade deveriam ser radicalmente combatidos, mas até a própria democracia (e, principalmente, de assistencialismo) deveria ser erradicada com vistas ao retorno de um hobbesianismo nietzsche-darwinista que favorecesse a multiplicação dos “mais fortes” e “saudáveis” em detrimento daqueles que configurariam o oposto. Como afirma Góes, para Kehl:

O “humanismo” da civilização transformou os verdadeiros intuitos seletivos próprios da natureza, provou a estagnação da humanidade favorecendo a proliferação dos degenerados e criminosos. Entretanto, a civilização ao trazer tais implicações à sociedade, contraditoriamente, nos deu o seu principal mediador, entre a vida social e biológica, neste caso, o remédio da eugenia (GÓES, p. 183).

Para Kehl – mas também para muitos influentes políticos contemporâneos – bolsa família, políticas de ações afirmativas, e outros tipos de políticas de assistência, mas sobretudo, – não esqueçamos – a possibilidade de auto-organização da classe trabalhadora, são problemas que devem ser frontalmente combatidos. Basta assistirmos alguns minutos da propaganda eleitoral para perceber que o clamor para mais cadeias (onde se inclui a castração de criminosos), segregação social e espacial daqueles que são considerados perigosos em potencial, fechamento da fronteira para determinados imigrantes, exaltação de um certo padrão de beleza e estímulo à sua reprodução são consignas que não se restringem aos autores citados no brilhante estudo de Weber Lopes Góes. Mais atual do que isso impossível.

 

Deivison Mendes Faustino

Professor do Departamento de Saúde, Educação e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Integrante do Núcleo Reflexos de Palmares, do Grupo Kilombagem e do Instituto Amma Psique e Negritude

 

São Paulo, 26 de agosto de 2018.

[1]“Pensamento social subordinado” é o termo utilizado por Clóvis Moura (1988) para descrever a vinculação ideológica (conservadora) dos primeiros estudos sobre o negro no Brasil. Trata-se, segundo argumenta, de uma sociologia subordinada aos interesses e privilégios (de raça e classe) ao qual se originam. Tal classificação inspirou-se na constatação Guerreiro Ramos ao afirmar que a “nossa sociologia do negro é, em larga margem, uma pseudomorfose, isto é, uma visão carente de suportes existenciais genuínos, que oprime e dificulta mesmo a emergência, ou a indução da teoria objetiva dos fatos da vida nacional” (Guerreiro Ramos citado por Moura, 1988, p. 20).

[2]Como nos mostra Góes, “A cura da Fealdade” é o título de um dos livros de Kehl, publicado em 1923, onde defende a mistura racial, a chamada mestiçagem, como solução para o país, como afirma, citando o referido autor: “a miscigenação é concebida como projeto inteligentede extinção do negro, ou seja: ‘Sendo o Brasil um cadinho de cruzamentos, pode-se afirmar que ele está avançando para o aperfeiçoamento do seu povo, até constituir uma raça forte, vigorosa e intelectualmente superior’”

[3]Joseph Arthur de Gobineau(1818-1882) foi um diplomata, escritor e filósofo francês. É conhecido como um dos mais importantes teóricos do racialismo do século XIX. Defendia a desigualdade biológica entre as raças e se aliava a outros teóricos que defendiam que a história da humanidade é a história da luta de raças. Entretanto, para ele, a o lado mais forte (europeu) estaria perdendo a luta. É neste contexto que fará sua mais famosa declaração “não creio que viemos do macaco, mas creio que estamos caminhando nessa direção”. Para Gobineau, a miscigenação levaria as espécies à degeneração.

[4]Me refiro aqui a Lobato, Neiva, etc., listados pelo autor neste estudo.

[5]Com os lemas “feche as pernas”, “libertar o Brasil da tirania do comunismo”, o 1º Congresso Antifeminista do Brasil reuniu cerca de 150 pessoas na Igreja de Sant’Ana, no centro do Rio de Janeiro em 4 de agosto de 2018. Ver: https://epoca.globo.com/feche-as-pernas-que-pregam-os-participantes-do-1-congresso-antifeminista-do-brasil-22964525#ixzz5OkO5lvhU.

[6]Ver, nesse sentido:  https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2018/08/18/venezuelanos-atravessam-a-fronteira-apos-ataques-em-rr-veja-video.ghtml.

Reflexões e Informes

Link para a Tese “Frantz Fanon e os fanonismos no Brasil”  – Deivison Faustino (Nkosi) (2015)

Resenha do livro What Fanon said, de Lewis Gordon (2016)

A Série é o ópio do povo (2016)

VICH, FODEU! A ESQUERDA ESTÁ EM CRISE!!! Mas a foda ainda é o melhor maneira de alcançar o orgasmo (2016)

Nonagésimo aniversário de Fanon – seleção de textos de e sobre Fanon (2015)

Je suis… hypocrite et sélective (2015)

Sobre Cláudias e Adelaides: se “uma piada é só uma piada” porque não rimos do tombo da própria mãe? (2014)

Pan-africanismo, marxismo e as encruzilhadas nossas de cada dia (2014)

Apoio à Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta: por que marcharemos no dia 22 de agosto? (2013)

O Governo de São Paulo e a máfia do Metrô (2013)

Os crimes de maio e as manifestações de junho e o Amarildo: o extermínio nosso de cada dia (2013)

TAMBÉM ASSASSINA QUEM APONTA O REVOLVER!!! Por que o Senhor Atirou em mim? (2013)

bell hooks e as Intelectuais Negras (2013)

O Egito (KMT) e a história da perfumaria (2013)

O Encarceramento em massa e os aspectos raciais da exploração de classe no Brasil.(2013)

Heidegger e o Nazismo (por José Pablo Fenmann) (2012)

Reflexões sobre o perigo de uma história única (2012)

Introdução ao Estudo das civilizações Africanas (2011)

 

Education from an Afrocentric perspective

postado originalmente em 19 de outubro de 2011

 

This ppt (Education from an Afrocentric perspective) was presented at the CUMBRE MUNDIAL DE JUVENTUD AFRODESCENDIENTE  – Costa Rica 2011

The goal is to conduct a critical dialogue in relation to myths about Africa and African descent in the world.
The presentation shows that Africans contributed actively to the development of universal human

Deivison Nkosi – Kilombagem Group – Brazil

Aula: Racismo, Colonialismo e Racismo Moderno

Postado originalmente em 08 de junho de 2011

 

Existem atualmente muitas “visões” em disputa sobre o que é o Racismo. A visão mais difundida é a que confunde o racismo ao preconceito (em geral). Em alguns casos chega-se a dizer que existe racismo contra gordo ou homossexual. Outros (às vezes bem intencionados) afirmam que a “questão não é racial e sim social”.

Estas visões reducionistas do racismo além de confundi-lo com preconceito acabam por ignorar que o racismo não se resume a pré-jugamentos a cerca do negro, mas que está sim relacionado à divisão e conservação “racial” de privilégios (de classe).

Nas palavras de Fanon:

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais  vasto: a opressão sistematizada de um povo(…) Assiste-se à destruição dos valores culturais, das modalidades de existência. A linguagem, o vestuário, as técnicas são desvalorizados. Na realidade, as nações que empreendem uma guerra colonial, não se preocupam com o confronto das culturas. A guerra é um negócio comercial gigantesco e toda a perspectiva deve ter isto em conta.

A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone.Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência. A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objetivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas afirmado, com todo o seu peso de canhões e de sabres.” (Frantz Fanon)

Nesta perspectiva, podemos afirmar que o racismo está associado aos interesses econômicos das classes dominantes.  E este fator sugere que o seu fim esteja relacionado e exija a socialização da economia (dos meios de produção).

Por outro lado, a não compreensão correta do racismo pode levar-nos (mesmo nos casos em que bem intencionados) a mobilizar forças e concentrar energia em ações que não combatem o racismo de fato, mas nos dão a (muitas vezes falsa) sensação de que estamos avançando rumo a uma sociedade mais fraterna.

Para uma compreensão adequada do racismo é importante considerar em primeiro lugar as diferenças entre preconceito, discriminação e racismo.

Em segundo lugar o racismo não é um fenômeno cultural autônomo, e nem está inacessível para ser transformado. A constituição  histórica do Racismo esta profundamente relacionada ao desenvolvimento do modo de produção capitalista.

Em terceiro lugar o racismo atravessa o tempo e se renova durante o século XXI a partir da opressão não assumida dos africanos e seus descendentes em todo o globo terrestre, agora unificado pela mundialização do capital. Em todos lugares que observamos, os africanos (e/ou seus descendentes) são os mais pobres, inclusive no continente africano, em contraste com um melhor padrão de vida dos Europeus (e seus descendentes pelo mundo, inclusive nos países africanos).

A aula apresentada no slide acima comenta alguns destes pontos objetivando a construção de uma análise crítica sobre as relações raciais, apontando para a transformação da nossa sociedade e alertando para armadilhas conceituais freqüentemente difundidas a respeito do racismo.

 

Deivison Nkosi

A formação continuada para educação das relações étnico-raciais: um relato de experiência

FAUSTINO e OLIVEIRA. “A formação continuada para educação das relações étnico-raciais: um relato de experiência”.  in: Cultura afro-brasileira: temas fundamentais em ensino, pesquisa e extensão [recurso eletrônico] / organização José Carlos Gomes da Silva, Melvina Araújo. – 1. ed. – São Paulo : Alameda, 2017. pp. 61-84

Artigo que escrevi com Leila Maria de Oliveira, relatando uma experiência de formação de professores nos temas referentes às Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação das Relações Étnico-Raciais, no município de São Paulo, sob a coordenação da Elisabeth Fernandes de Sousa e supervisão de Billy Malachias e Valter Roberto Silverio.

A coletânea também conta com textos de Salloma Jovino Salomão, Janaína de Figueiredo, José Carlos Gomes da Silva, entre outros.

Acesse a coletânea completa [Aqui]