Reflexões sobre o Perigo de uma única história

Texto escrito em 19 de junho de 2012, originalmente publicado em: https://kamugere.wordpress.com/2011/06/10/reflexoes-sobre-o-perigo-de-uma-unica-historia/#comments

Por Deivison Nkosi

Gostaria de iniciar esse texto com o belíssimo vídeo da escritora e contadora de histórias nigeriana Chimamanda Adichie.  Esta seção está reservada para comentários, reflexões e críticas a respeito do contexto que estamos vivendo e achei muito oportuno começar por este vídeo.

Como a minha internet é lenta (na periferia de Santo André – Zona Metropolitana de São Paulo – não existe oferta de banda larga L) fui escrevendo enquanto o filme carregava no youtube…

A autora narra a partir de sua trajetória individual o que ela chama de “o perigo de uma história única” e nos expõe questões centrais para pensarmos a nossa época, inclusive no que tange a Lei 10.639/03. Esta lei, que institui a obrigatoriedade de abordagem no ensino público dos conteúdos referentes à história da África, dos Negros no Brasil e das relações raciais em nossa sociedade, alterada em 2008 para  incluir a obrigatoriedade de abordagem da história indígena(Lei 11.645/08) trás como principal pano de fundo a necessidade de se contar o que Chimamanda chamaria de “outras histórias” ocultadas ou distorcidas pelos séculos de racismo presentes em nossa sociedade.

O vídeo dispensa comentários, mas me provoca a refletir sobre aquilo que é o objetivo central deste blog. Como contar as “outras histórias” (ignoradas ou distorcidas) sem que se perca o uno que nos liga enquanto seres humanos?

A história humana enquanto processo de desenvolvimento do ser humano em seu fazer-se no tempo é um processo dialético, contraditório e articulado de fazeres individuais envolvidos no tempo… este processo é tão intenso e objetivo que se torna impossível a existência de “histórias” individualmente isoladas… cada pessoa tem a sua história individual mas o seu desenvolvimento está profundamente marcado pelos limites e possiblidades de seu tempo, bem como a sua relação com os outros indivíduos… o nosso eu se faz na relação com o outro de tal forma que não pode haver “eu” sem os “outros”.

Neste sentido, a história não é uma construção da nossa subjetividade, como defendem os acadêmicos da “Nova História” mas sim um dado real (objetivo) do nosso fazer-se, seja individual ou coletivo. Falar em histórias portanto é sempre delicado, pq exige pensarmos nas influencias recíprocas de uma “história”com outra, da história do meu grupo com a minha história individual”da história do meu grupo com outros grupos.

Considerando que o capitalismo integrou o mundo sob a sua lógica, a nossa história individual nunca foi tão coletiva, de forma que os indivíduos se relacionam multuamente, mesmo sem se conhecer. A ocupação estadunidense no Iraque influencia diretamente no preço do combustível do caminhão que carrega os produtos que compro todo dia, definindo o meu poder de compra, por exemplo, de tal forma que não da mais pra pensar a história do Iraque como se não fosse (também) a minha história.

Reproduzindo um questionamento presente na historiografia contemporânea podemos nos perguntar: A HISTÓRIA é reconhecimento, memória ou interpretação (subjetiva) ou fato concreto, acontecido (objetivo) mesmo que eu não tenha consciencia da sua influencia em minha vida? Uma reposta possível é que a história do Iraque (pra insistir no exemplo) é a minha história, mesmo que eu não reconheça ou não saiba de sua existência real.

VOCÊ QUE É UM LEITOR ATENTO DEVE ESTAR SE PERGUNTANDO: “Mas e o que a lei 10.639/03 (ou a 11.645/08) tem a ver com esta ‘história’?”

O fato é que a HUMANIDADE é a síntese (e não a soma) do conjunto dos indivíduos articulados e se influenciando reciprocamente. Este é um dado da realidade, independente de nosso reconhecimento sobre isto. Ocorre que o RACISMO aliena a nossa percepção sobre a nossa humanidade de tal forma que passamos a não ver (reconhecer subjetivamente) o negro ou o africano como parte da humanidade. A “HISTÓRIA” DA HUMANIDADE passa a ser contada a partir do europeu de forma que por vezes confundimos o universal com o europeu. Falamos em cultura NEGRA (específica), em música NEGRA(específica) em história NEGRA (específica) mas não falamos em cultura BRANCA,  em múcia BRANCA, em história BRANCA… o Branco (europeu) foi apresentado por eles mesmo desde o sec XIX como UNIVERSAIS a ponto de os negros, mesmo os militantes mais radicais no combate ao racismo não se verem no UNIVERSAL.

Esta dificuldade de nos vermos como universal é um dos frutos do racismo e de séculos de negação da nossa humanidade… de exclusão do negro daquilo que se entende por história (a memória, ou a interpretação dos fatos ou da contação de fatos desconexos). Se o negro foi excluído da história, sobrar-nos-ia, portanto sob o risco de ficar excluídos da “história” a tarefa de contar a nossa história, ou seja, CONTAR OUTRAS HISTÓRIAS.

Aqui está uma armadilha gigantesca que devemos estar alertas:

Se por um lado a história oficial UNIVERSAL (ocidental, judaico, cristã e burguesa) nos privou do direito de reconhecimento e quando aparecemos na história somos pintados como bárbaros ou coitadinhos… por outro lado, a recontagem de OUTRAS HISTÓRIAS ESPECÍFICAS tem a tarefa de desconstruir este imaginário, mas acima de tudo, “recuperar” (reconhecer) os nexos de nossas especificidades com a história da humanidade como um todo. Caso contrario, correremos o risco de novamente fortalecer as idéias racistas do século XIX, idéias estas que afirmavam que não éramos humanos, éramos os outros.

A chave para superarmos O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA está na própria HISTÓRIA REAL (não como memória ou interpretação de fatos seqüenciais). Ao contrario do que afirmam os racistas, e muitas vezes repetimos inocentemente, quanto mais estudamos a história da humanidade mais se percebe a presença e ativa contribuição dos africanos para o desenvolvimento humano universal. A humanidade surge na África e lá podemos observar o surgimento primeiro de diversos saltos evolutivos em nossa trajetória enquanto ser social.

A contribuição do continente africano para o conhecimento sobre astronomia, metalurgia, geometria, mineração, arquitetura, cultura, religião, artes, filosofia é imperceptível apenas aqueles que estão cegos pelas lupas do racismo forjado no sec XIX. O próprio pensador grego Heródoto (considerado erroneamente como um dos pais da história) reconhece a superioridade dos egípcios frente ao a muitos conhecimentos de altíssima importância à sociedade grega, como é o caso da astronomia e astrologia. (ver slide: introdução ao estudo das civilizações africanas)

A presença africana na cultura brasileira chega a tal ponto que o pensador de esquerda Darci Ribeiro chegou a dizer (inspirado em Gilberto Freire) que o Brasil não é mais um mosaico de raças, mas a síntese de uma mistura. O que o nosso pensador ignora é que esta mistura não impediu o massacre físico e cultural do negro e que até hoje existe um “gradiente de cor” que faz com que a pessoa sofra os efeitos do racismo mais intenso quanto for a coloração da sua pele.

Ocorre que até hoje, QUANDO O NEGRO APARECE NA MÍDIA, OU NA ESCOLA É SEMPRE COMO COITADINHO OU BÁRBARO… isto quando aparece, e isto tem causado impactos horríveis em nossa subjetividade (tanto negros como brancos, embora os últimos se beneficiem deste processo). Chimamanda nos alerta para o fato de que a história ocidental (não só a disciplina de história, mas a forma que nos vemos enquanto seres humanos) tem estado permeado de um olhar que nos desconhece a humanidade, influenciando o nosso pensar e agir sejamos negros ou brancos.

 

Fui escrevendo este texto enquanto assistia ao vídeo (lembra que a minha internet é lenta né? rs) e confesso que quando cheguei ao final do filme estava em choque… pensei várias vezes em não seguir escrevendo porque o vídeo já havia falado tudo que precisava ser dito no momento. O filme é um tapa na cara que nos questiona sabiamente sobre o que temos feito para ser diferentes de todo este processo de “contação de uma única história”.

Ao trabalhar com a formação de professores e educadores sociais para abordagem dos conteúdos presentes na Lei tenho visto muita iniciativa “bem intencionada” fracassar pelo desconhecimento da historia real da África e da humanidade. Tenho visto que muitas vezes os poucos professores sensibilizados para a importância deste debate só conseguem  falar das contribuições do negro no campo lúdico, confirmando a visão de Hegel de que a África é a infância da humanidade, desconsiderando as contribuições dos africanos para o desenvolvimento humano-universal. Tenho visto militantes negros estudados assumindo desesperadamente uma visão distorcida do que é história (a história como factóides, ou interpretação dos fatos, ou apenas Memória) para se contrapor a esta “história” inventada no sec XIX.

Este é o desafio central da Lei 10.639/03(ou 11.645/08): NÃO É A HISTÓRIA DO NEGRO OU DOS AFRICANOS QUE ESTÁ EM QUESTÃO, não se trata de contar mais uma história. Falar da história da África ou do Negro no Brasil EXIGE SIM RECONTAR A HISTÓRIA DO BRASIL E DA PRÓPRIA HUMANIDADE. O desafio para nós é o que Steve Biko chamava no seu texto “a definição da consciência negra”na BUSCA PELA VERDADEIRA HUMANIDADE. Qualquer coisa abaixo disto será um tiro no próprio pé.

Deivison Nkosi – Professor de História da África

Sobre Cláudias e Adelaides: se “uma piada é só uma piada” porque não rimos do tombo da própria mãe?

artigo originalmente publicado em https://kamugere.wordpress.com/2014/04/21/sobre-claudias-e-adelaides-se-uma-piada-e-so-uma-piada-porque-nao-rimos-do-tombo-da-propria-mae/

Por: Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi)[1]

 

 

“Muito engraçado a bandida sendo arrastada. Lembrei do camarada fazendo isso com um cachorro esses tempos atras…kkkkkkkkkkkkkkkkkkk”[2].

“Atenção, não é a intenção do site formar aqui atitudes preconceituosas e nem ser preconceituoso. São apenas piadas, assim como existe sobre loiras, machismo, portugueses, japoneses, gordos, gagos, bêbados, entre outros temas.[3]”

 

No dia 16 de março de 2014, um caso desastroso toma conta dos noticiários: policiais militares sobem o morro para mais uma incursão bélica na Região de Madureira, na cidade do Rio de Janeiro, e durante a incursão atingem gravemente a uma mulher e dois jovens. Ao perceber se tratar de  uma mulher de meia idade – perfil tipológico de difícil enquadramento nos estereótipos reservados aos jovens vitimados por policiais nos morros – os policiais pegam a mulher ferida e jogam no porta-malas da viatura policial. A pesar do protesto de familiares e vizinhos, seguem em alta velocidade pelas ruas de Madureira num caminho que segundo os moradores da Região não é o mais rápido para o Pronto-Socorro… durante o trajeto, como ocorre num filme antigo de comédia, o porta-malas da viatura se abre deixando a vítima cair no asfalto como um saco de batatas, e como se não bastasse, a sua roupa se enrosca no para-choques traseiro da viatura, enquanto a viatura policial a arrastou por 350 metros, dilacerando sua carne no asfalto.

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Seria cômico se não fosse um ser humano ou alguma forma de vida que não merecesse o nosso sentimento de alteridade: uma outra coisa ontologicamente distinta de nós o suficiente para não despertar em nenhum momento a pergunta: e se fosse a minha mãe? Entretanto, ao assistir ao vídeo em um site de notícias, um internauta –  provavelmente sem saber de quem se tratava, mas de porte das informações recorrentemente veiculadas a cerca das incursões policiais nos morros cariocas – escreve: “Muito engraçado a bandida sendo arrastada. Lembrei do camarada fazendo isso com um cachorro esses tempos atras…kkkkkkkkkkkkkkkkkkk” (Sic). Num contexto completamente distinto,  vemos uma frase escrita logo abaixo da barra de menude um site de piadas avisando que as anedotas contidas na página “piada de preto” não tem intensão de formar “atitudes preconceituosas e nem ser preconceituoso”, pois se trata apenas de piadas “assim como existe sobre loiras, machismo, portugueses, japoneses, gordos, gagos, bêbados, entre outros temas”.

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A reflexão sobre esses dois comentários nos levantam as seguintes perguntas: Existe riso inocente? Pode um simples riso recriminado com o mesmo status político de um tapa na cara ou um tiro? Supondo que sim, que o riso assuma dimensões políticas, a busca por uma convivência solidária entre os seres humanos justificaria a sua interdição? Existem temas sob o qual não se deve rir? Ou o riso tem licença poética para ignorar ou transgredir (auto)censuras impostas pelas diversas coerções sócio individuais que se colocam a frente daquilo que realmente desejamos, sentimos e pensamos? Não seria forçar a barra, trazer a reflexão sobre o riso para o campo político, atribuindo-lhe causas e consequências sociais?

Em um texto intitulado Ensaio sobre a significação do cômico, Henri Bergson (2004) afirma que o riso é sempre um dado social. Independente de suas reações fisiológicas,  há que se entender que é apenas em sociedade que ele surge e é possível. O riso para ele assume a dimensão de uma sanção social, na medida em que apenas o que é considerado um desvio ou uma coisa negativa  pode ser ridicularizado. O cômico é sempre o que foge a ordem e isso significa que o riso é uma punição social que visa, em ultima instância reestabelecer a ordem social.

Pressupõe-se neste sentido que a pessoa alvo do riso ficará envergonhada e voltará à ordem normal. Não é a mudança brusca da ordem que causa o riso, mas o involuntário da mudança: tropeçar, por exemplo, é não conseguir acompanhar a fluidez da vida pela rigidez do seu corpo, como o tombo de alguém pulou do ônibus em movimento.  A rigidez é socialmente suspeita e a  deformidade (do corpo ou da mente), risível por que deforma a norma, desviando a nossa atenção para além daquilo que conhecemos. Rimos sempre de uma coisa que se parece humana, ou de uma pessoa que aparente ser outra coisa que não humana, e é neste aspecto a questão racial se torna relevante à nossa análise, pois nem sempre uma pessoa negra é considerada uma pessoa. Para o padrão eurocêntrico de ser humano, o Branco (europeu, ocidental) é a única expressão possível de homem e mulher e o Negro, por vezes é representado como se fosse uma pessoa branca, comicamente pintada de negra.

Em  1579 o médico francês Laurent Joubert vai escrever um tratado sobre o riso, sustentando essa sua dimensão eminentemente política (ALBERTI, 1995). Segundo ele, nós rimos antes de qualquer coisa, daquilo que é feio e impróprio e não merece compaixão. O ridículo é aquele que se torna alvo do riso dos outros. Para Elias (1993), o “processo civilizador” característico da modernidade destaca-se por sua busca de controle do corpo e ridicularização daqueles sujeitos que “não conseguiam se controlar”. O indivíduo que não se controlava ou aparenta estar fora dos critérios de controle socialmente descritos, será alvo de uma distinção hierarquizada que o desvaloriza diante dos outros, ridicularizando-se.

O ato de ridicularizar alguém, seja pelas normas de etiquetas ou por outros atributos socialmente desvalorizados, vai assumindo na modernidade a mesma importância que os embates físicos e podiam ter como consequência a exclusão social da pessoa alvo do riso. Aquele que fosse ridicularizado poderia perder suas formas de sustento.  Na França pré-revolução, por exemplo, o pecado não tem nenhum valor, mas a ridicularização poderia levar um indivíduo à morte.

Assim, a dimensão política do riso é destacada por autores diversos, como é o caso de George Minois (2003) quando nos explica em seu estudo sobre os Bobos da Corte que o seu papel era expressar verdades que ferem.  O Bobo tinha autorização social para falar de forma risível aquilo que ninguém mais tinha coragem de dizer, alertando a corte de seus limites e equívocos, conformando-se numa figura bastante importante para a manutenção da ordem. A piada, ou outras formas de se fazer rir, aparecem aqui como uma forma de falar a verdade, ou pelo menos, de se falar o que se realmente pensa, e não pode ser dito.

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É sempre de alguém ou de alguma coisa que rimos, e neste sentido, a piada aparece como um entre outros meios de se fazer rir.  Em sua ultima peça, intitulada Doente imaginário (2003), Moliére descreve uma estória que revela a perspectiva da corte em relação à (já concorrente) burguesia ascendente. Na peça, o autor conta a história da filha de um rico e avarento burguês, que se apaixona a contragosto de seu pai por um rapaz, enquanto o pai deseja que ela se case com um médico, a fim de ganhar consultas gratuitas. Dessa forma o autor ridicularizava os burgueses que queriam adquirir hábitos corteses, mostrando como os médicos vão se aproveitar de sua inocência para ganhar poder. O riso assume aqui a dimensão do confronto entre a nobreza ameaçada, onde se posicionava Moliére, e a burguesia ascendente, colocando-a como expressão do ridículo.

No mesmo sentido, mas por outros caminhos, Baktin (1987) afirmará que o riso faz parte de uma visão de mundo. Em sua pesquisa ele mostra como que o riso pode representar a rebelião contra o tom sério e solene das instituições oficiais e os seus aparatos de repressão bélica e ideológica.  Assim, analisa o carnaval medieval como momento em que a ordem se inverte. O Carnaval é visto como uma festa dos loucos; um momento profano em que se pode inclusive criticar o sagrado, ou pelo menos, aquilo que se impõe oficialmente como sagrado.  Ele fala do quanto essas festas populares são uma critica a essa oficialidade. Em consonância com essa reflexão o professor Jorge Leite nos relembra em suas aulas que não foi a toa que durante a ditadura no Brasil, a Pornochanchada foi o gênero estético mais fértil. Enquanto o Estado  a partir dos militares e dos grandes empresários dizia: o Brasil é feito por nós a pornochanchada devolvia toda uma produção que dizia implícita ou explicitamente o Brasil é feito pornôs,romantizando as pessoas  que não queriam trabalhar e preferiam ficar a cortejando garotas para o sexo.

O ponto onde quero chegar é que o riso exprimido por pessoas, ou indivíduos, que estão sempre e inescapavelmente relacionados ao seu tempo, cultura, história e dilemas políticos de toda ordem e em todas as suas dimensões de poder.  Se a política é a guerra empreendida por outros meios, como diria o filósofo francês Michael Foucault, qual é o lugar do riso em sua dimensão política, em uma sociedade marcada pela negação radical da humanidade daqueles que se  consideram “outros”?  Ao me deparar com o comentário alocado no inicio deste texto sou obrigado a questionar:  quem é passível de ser ridicularizado e o que essa ridicularização tem em comum com a recusa de enxergar no “Outro” (ou pelo menos em alguns tipos de outros) um humano como “eu”.

 

“Ninguém ri do tombo da própria mãe”

O provérbio africano que nomeia esse capítulo é aqui retomado para introduzir o seguinte questionamento: até que ponto o inocente ato de rir de (ou fazer) uma piada racista sustenta ou expressa uma negação racializada da humanidade daqueles que são objeto do riso?   Não pretendo com isso dizer que o riso é sempre repudiável e muito menos que existam temas que mereçam o status de tabu (acima da piada do bem e do mal), mas refletir como muitas vezes o humor se coloca a serviço de um conjunto de ações voltadas à negação da humanidade.

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O filme Bamboozled, de Spike Lee, oferece um cenário inquietante para pensarmos essas questões: Em um mundo nada diferente do nosso, produtores televisivos discutem como alavancar a audiência de sua programação, até que um dos profissionais – não por acaso um homem negro – tem a ideia de recuperar os já socialmente repudiados personagens Black Face[4], de forma que fosse possível reconfigurar o seu teor originalmente racista e ao mesmo tempo, dialogar com o imaginário estadunidense a cerca dos estereótipos relacionados ao Negro. Entretanto, dado às pressões econômicas pela audiência, os jogos de poder a ela relacionados e os caminhos escolhidos pelos indivíduos envolvidos, vê-se o surgimento de um programa que retoma e atualiza os preconceitos raciais mais profundos naquele país, recuperando e atualizando as características essencializantes atribuídas aos negros – muito corpo e pouco cérebro –  para leva-las ao limite em uma expressão caricaturadamente risível.

O nome do filme[5] se torna inteligível quando os personagens negros percebem que suas criações estéticas  têm o poder de voltar-se contra eles próprios, na medida em que o riso provocado, em sua dimensão eminentemente política, não é algo que se faz com eles, mas contra eles, legitimando a sua própria negação. A pergunta que proponho lançar é a seguinte: por que diabos, o negro precisa ser considerado ridículo? Se ridículo é sempre a mãe dos “Outros”, e nunca a “nossa”, como se produz esse processo de outrificação do Negro, a ponto de os não-negros (e muitas vezes os negros socializados nessa forma de ver o mundo) não se ofenderem, ou pior, não visualizarem nenhuma ofensa nesse processo de outrificação? Ou se quisermos colocar a pergunta de outra forma, até que ponto a piada de negro não esconderia, e de certa forma legitimaria, a mesma indiferença que autoriza a rir de uma mãe sendo arrastada viva[6] por uma viatura policial em plena via pública?

Frantz Fanon, importante pensador martinicano do racismo, oferece um importante aporte para pensar essa questão. Para ele a sociedade racista nos relega ao seguinte esquema de interpretação: ser Negro é estar distante do Branco e, portanto, distante de toda concepção de humanidade. O extranhamento em relação à humanidade do Negro surge exatamente quando o Branco não o reconhece como igual, mas como Outro:

“Preto sujo!” Ou simplesmente: “Olhe, um preto!”

Cheguei ao mundo pretendendo descobrir um sentido nas coisas, minha alma cheia do desejo de estar na origem do mundo, e eis que me descubro objeto em meio a outros objetos. Enclausurado nesta objetividade esmagadora, implorei ao outro. Seu olhar libertador, percorrendo meu corpo subitamente livre de asperezas, me devolveu uma leveza que eu pensava perdida e, extraindo-me do mundo, me entregou ao mundo. Mas, no novo mundo, logo me choquei com a outra vertente, e o outro, através de gestos, atitudes, olhares, fixou-me como se fixa uma solução com um estabilizador. Fiquei furioso, exigi explicações… Não adiantou nada. Explodi. Aqui estão os farelos reunidos por um outro eu. (FANON, 2008, p.103. Grifos nossos.)

“É o Branco que cria o Negro” (FANON, 1968) na medida em que desconsidera sua humanidade, tornando-o “objeto em meio a outros objetos”, aprisionando-o naqueles referenciais fetichizados que deixou de reconhecer em si. Espera-se assim que o Negro (o Outro) seja sempre emotivo, sensual, viril, lúdico, colorido, infantil, banal; o mais próximo possível da natureza (animal) e distante da civilização.  Estas imagens criadas no seio da situação colonial tinham a função de desarticular os sistemas de referência do povo colonizado para que suas “linhas de força” não atuassem contra a imposição de uma forma específica de relação de produção, útil a determinadas fases de acumulação capitalista.

No universo cômico, espera-se que o negro seja sempre um Mussum alcólotra e inocente, um Tião Macalé desdentado e risível[7], porque aqui, se há alguma valorização do “outro”, ela se faz pela mistificação fantasmagórica de seus atributos, de forma a confirmar, mesmo que pela valorização reificada a superioridade do branco. O negro só pode ser sublime na medida em que se revele o mais grotesco possível diante de uma razão, beleza e  verdade brancas. De sublime na verdade só resta o prazer do riso que a sua imagem jocosa proporciona ao  espectador informado pelos estereótipos que ele personifica e reforça. Se o grotesco é aquilo está confinado às grutas quaresmáticas do processo civilizador, resta ao Negro esperar o carnaval para surgir em público e lembrar ao ocidente o seu eu negado, antes que a quarta-feira de cinzas o relegue novamente às sobras da humanidade ocidental.

O Negro é suspeito nato até que prove o contrário, pois espia para dentro de grutas imaginárias aquilo que o ocidente trás de mais selvagem, sádico e desumano.  É a figura que permite à sociedade carioca, algumas poucas décadas depois da ditatura, dormir sossegada com a notícia de ocupação das ruas (das favelas) por tanques de guerra militares. É a figura animalizada que reforça o quão humano, belo, bom e verdadeiro é todo aquele que se afasta deste referencial macaqueado. O Negro é o outro e, portanto, o riso do tombo de sua mãe, ou dos seus filhos  não exige grandes conflitos éticos: não se trata de um ser humano como eu, mas um Outro, radicalmente oposto ao Nós, “cidadãos de bem”.

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A política é a guerra feita por outros meios, e neste sentido, sou obrigado a concluir que o diretor do Zorra Total e o policial que arrastou Cláudia Silva Ferreira pelo asfalto de Madureira têm muito em comum porque ambos, embora por meios distintos anulam, cada um com sua arma, a possibilidade efetiva de nos vermos e fazermos uns nos outros como humanos. A causa-morte de Cláudia deve ser compreendida para além do asfalto que lhe consumiu a carne em frente de câmeras portáteis; deve ser compreendida para além dos tiros que interromperam violentamente o seu trajeto de casa à padaria, para ser explicada em cada Mussum, Adelaide, Tião Macalé e tantas outras representações animalizadas ou coisificadoras que autorizaram, direta ou indiretamente, um tratamento aos moradores da favela que despreze qualquer sentimento de alteridade.

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Morro com Claudia em sua agonia de dor contra o asfalto cinza do Rio de Janeiro… Morro, mas de uma morte que não se inicia com o tiro perpetrado pelo policial, mas a cada piada desferida quase sempre contra a humanidade do “Outro”, seja ele(a) lá quem for.

 

Referências

Alberti, Verena. “O riso, as paixões e as faculdades da alma”. Textos de História. Revista da Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília. Brasília, UnB, v.3, n.1, 1995, p.5-25.

BAKHTIN, Mikhail, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, São Paulo, Hucitec/ UNB, 1987

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. São Paulo: Martins  Fontes, 2004.

ELIAS, N. O processo civilizador: Formação do Estado e Civilização. Rio de Janeiro:  Jorge Zahar Ed., 1993, v. II.

 FANON. F. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983.

_______. Sociologia dúne révolution. «L’an V de la Revólution algerienne ». François Maspero. París. 1968 (petite collection maspero)

MINOIS, Georges, O riso sensato do bobo da corte in História do riso e do  escárnio, São Paulo, Unesp, 2003

Molière. Jean-Baptiste Pocquelin Le Malade maginaire. Paris: Bordas. 2003.

 

Filmes utilizados:

Bamboozled. Diretor: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee  Ano: 2000. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=VnCkHKlwFnA. Acesso em 23 de fevereiro de 2014.

O riso dos outros. Diretor: Pedro Arantez. Ano 200. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54. Acesso em 20 de fevereiro de 2014.

 

 

[1] Grupo KILOMBAGEM.

[2] Comentários escritos por um leitor do jornal G1.Globo a respeito das imagens de auxiliar de limpeza Cláudia Silva Ferreira sendo arrastada pelo asfalto por uma viatura policial no Rio de Janeiro. http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/03/arrastada-por-carro-da-pm-do-rio-foi-morta-por-tiro-diz-atestado.html. Acesso em 17 de março de 2013.

[3] Anuncio de destaque na página PIADA DE PRETO, de um site de piadas “temáticas” escolhidas por tópicos: http://selecaodepiadas.webnode.com.br/piadas-de-pretos/.

[4] A Black Face é uma performance teatral estadunidense que se apropriava dos estereótipos racistas para representar os negros. Ver nesse sentido: http://en.wikipedia.org/wiki/Blackface.

[5] A palavra bamboozled pode ser traduzida como “AHH! PEGADINHA DO MALANDRO!!!!”, 

[6] O caso em questão gerou muita polêmica e em resposta, foi divulgado um atestado de óbito aferindo os tiros anteriormente recebidos como verdadeira causa da morte de Claudia. O laudo no entanto, não comenta, e nem poderia ser diferente diante da repercussão negativa que o caso assumiu, se o fato de a mulher ter sido arrastada antecipou sua morte por ferimento a bala ou se ela já estava morta no momento em que o seu corpo rola dentro do porta-malas da viatura em movimento em direção ao asfalto. Por um caminho ou por outro, “a trapalhada” policial não resultou apenas na interrupção de uma vida, mas na anulação de sua dignidade.

[7] Referencia a dois personagens bastantes presentes no imaginário social brasileiro: o primeiro interpretado pelo ator de Antônio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994) representa o Musum, uma das personagens do programa Os Trapalhões, veiculado pela Rede Globo. E o segundo, o Tião Macalé, interpretado pelo ator Augusto Temístocles da Silva Costa (1926-1993).

[1] Texto apresentado como trabalho de conclusão de curso para a disciplina Sociologia do Riso, com o Prof. Dr. Jorge Leite – UFSCAR 2014

A formação continuada para educação das relações étnico-raciais: um relato de experiência

FAUSTINO e OLIVEIRA. “A formação continuada para educação das relações étnico-raciais: um relato de experiência“.  in: Cultura afro-brasileira: temas fundamentais em ensino, pesquisa e extensão [recurso eletrônico] / organização José Carlos Gomes da Silva, Melvina Araújo. – 1. ed. – São Paulo : Alameda, 2017. pp. 61-84

Artigo que escrevi com Leila Maria de Oliveira, relatando uma experiência de formação de professores nos temas referentes às Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação das Relações Étnico-Raciais, no município de São Paulo, sob a coordenação da Elisabeth Fernandes de Sousa e supervisão de Billy Malachias e Valter Roberto Silverio.

A coletânea também conta com textos de Salloma Jovino Salomão, Janaína de Figueiredo, José Carlos Gomes da Silva, entre outros.

Acesse a coletânea completa [Aqui]

Artigos diversos sobre Fanon (Nonagésimo aniversário)

Nonagésimo aniversário de Fanon

Neste dia 25 de julho de 2015, Frantz Omar Fanon completaria 90 anos de idade. Até hoje, sua obra é tomada por vertentes teóricas diversas como referencial privilegiado para pensar e intervir nos problemas sociais e raciais que nos rodeiam.  Como homenagem ao autor, mas ao mesmo tempo, apostando em sua contribuição para a realidade atual, retomamos aqui os links de textos de e sobre Fanon.

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Antes disto, retomemos brevemente a sua trajetória:

Como psiquiatra, filósofo, cientista social e revolucionário, Frantz Fanon é sem dúvida um dos pensadores mais instigantes do século XX. Sua obra influenciou diversos movimentos políticos e teóricos na África e Diáspora Africana e segue reverberando em nossos dias como referência obrigatória nos os estudos culturais e pós-coloniais.

Sua trajetória política e teórica impressiona pela grandiosidade e o seu curto espaço de vida. Nasce em Forte de France, Martinica em 1925 no seio de uma família de classe média e patriota. Em 1944 se alista no exercito francês para lutar contra os alemães na segunda guerra mundial e posteriormente segue para Lyon para estudar medicina e psiquiatria. Neste período foi estudante ativo envolvido com a publicação periódica de um jornal mimeografado.

Em 1950 Frantz Fanon escreve o texto que seria a sua tese de douturado em psiquiatria: Peau noire, masques blancs(Peles Negras, Máscaras Brancas), mas a tese, por confrontar as correntes hegemônicas, foi recusada pela comissão julgadora o obrigando a escrever outra tese no ano seguinte em Lyon com o título de Troubles mentaux et syndromes psychiatriques dans l’hérédp-dégénération-spino-cérébelleuse – Um cas de maladie de Friereich avec délire de possession (Problemas mentais e sindromes psiquiatricas em degeneração espinocerebelar hereditária – Um caso de doença de Friereich com delírio de posse).

Em 1952 participa de diversos debates universitários e seminários em que se confronta ou converge com os pensadores franceses da época. Neste mesmo ano publica uma série de ensaios sobre a situação do negro na França, escreve um drama sobre os trabalhadores de Lyon (Les Mains parallèles) e publica o texto da sua primeira tese rejeitada: Peau noir, masques blancs (Peles negras, máscaras brancas) livro que marcaria a história dos estudos o racismo.

Neste livro o autor discute os impactos do racismo e do colonialismo na psique (de colonizadores e colonizados) e mostra o quanto as alienações coloniais são incorporadas pelos colonizados, mesmo no contexto de elaboração do protesto negro.

O ano seguinte é marcado por um casamento e a sua mudança para a Argélia a fim de estudar mais profundamente os problemas enfrentados pelos imigrantes africanos na França. Segundo Oto (2003) estes momento foi fundamental para Fanon compreender os impactos do colonialismo na estrutura psíquica humana:

Ao tentar ampliar suas percepções sobre o problema dos pacientes em territórios coloniais, vinculando as enfermidade ao colonialismo, Fanon aceita neste mesmo ano o contrato com o Hospital Blida-Joinville na Argélia. Durante sua residência neste local os resultados de suas investigações o convenceram das dimensões assumiam o regime colonial e como este regime desarticula a estrutura psíquica das pessoas.( Oto 2003:219)

O ano seguinte foi marcante para o autor ao assistir o nascimento da revolução argelina e a violenta repressão francesa. É neste contexto que Fanon renuncia ao seu cargo no Hospital psiquiátrico para se filiar à Frente de libertação Nacional – FLN (Front de Liberation Nationale) onde contribuirá ativamente como escritor do jornal El Moudjahid, em Túnez.

Os anos seguintes foram marcados por intensa agitação política e participação nos fóruns internacionais dos movimentos de libertação no continente africano. Em 1959 publica L’an V de la Révolution Algérienne, sem publicação em português, e em 1961 se encontra com J. P. Sartre e S. Beauvoir. Neste mesmo ano, após escrever Les dammés de la terre, o ápice de sua atividade política e intelectual seria interrompido por um problema de saúde que levaria a morte.

Boa parte dos textos escritos por Fanon no jornal El Moudjahid foram reunidos por sua esposa e publicados postumamente no livro Pour la révolution africanie (1964), publicado em Portugal apenas em 1980 com o título Em defesa da revolução Africana.

A pesar de sua importância para a compreensão das relações raciais contemporâneas, 50 anos depois de sua morte, a Obra de Frantz Fanon ainda é pouco estudada no Brasil. Espera-se com esta atividade despertar o interesse da comunidade acadêmica como um todo para a discussão dos elementos apresentados pelo autor.

Abaixo, você encontra os links para textos diversos DE Fanon e SOBRE Fanon, comentados pelo pesquisador Deivison Nkosi (Professor da UNIFESP e integrante do Grupo KILOMBAGEM)

Veja também a resenha do livro: What Fanon said, de Lewis Gordon (by Deivison Nkosi)

Dissertação de Mestrado – A PERCEPÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO DO ABC PAULISTA SOBRE A SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA: AGENDAS, AÇÕES E PARCERIAS

Deivison Mendes Faustino

RESUMO

Esta dissertação discute as relações entre o movimento negro da Região do ABC Paulista e à saúde da população negra. A percepção do movimento negro sobre a saúde da população negra, as suas agendas prioritárias e o potencial de adesão das organizações deste movimento social às ações de saúde são analisadas sob a ótica de representantes do próprio movimento negro, entendido aqui como interlocutor privilegiado de diálogo entre as demandas de saúde da população negra e o setor saúde.

A hipótese de que o movimento negro do ABC Paulista tem pouco ou nenhum acesso a literatura produzida referente à saúde da população negra foi confirmada, bem como a hipótese de que algumas entidades já realizavam ações voltadas à saúde, e outras não o fazem por dispor de outros temas prioritários em suas agendas.

Ao relacionar a importância do movimento negro como importante sujeito de promoção á saúde da população negra, o autor discute algumas especificidades deste movimento social, concluindo que o mesmo, apesar de sua diversidade programática, apresenta grande potencial de adesão a ações de parcerias com o setor saúde. A diversidade programática observada nas diferentes organizações do movimento negro se expressa em potencialidades diversas e complementares de abordagem em relação temática saúde, a saber: a atuação sobe os determinantes sociais; a atuação comunitária de sensibilização e multiplicação de informação e as ações voltadas ao controle social das políticas públicas de saúde. A concretização de possíveis parcerias entre o movimento negro e o setor saúde fica condicionada a dois fatores relevantes: o reconhecimento e enfrentamento do racismo e do racismo institucional presente no setor saúde; oferta por parte do setor saúde de formação e qualificação das organizações do movimento para atuarem nas ações de saúde.

 

Texto completo [Aqui]

 

 

Masculinidades Negras

NEGRO TEMA, NEGRO VIDA, NEGRO DRAMA: ESTUDOS SOBRE MASCULINIDADES NEGRAS NA DIÁSPORA

  • RIBEIRO, A., FAUSTINO, D.. NEGRO TEMA, NEGRO VIDA, NEGRO DRAMA: ESTUDOS SOBRE MASCULINIDADES NEGRAS NA DIÁSPORA. Revista TransVersos, Local de publicação (editar no plugin de tradução o arquivo da citação ABNT), 0, ago. 2017. Disponível [Aqui]

 

O PÊNIS SEM O FALO: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE HOMENS NEGROS, MASCULINIDADES E RACISMO

  • FAUSTINO (NKOSI), D. O pênis sem o falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidades e racismo in: Feminismos e masculinidades: novos caminhos para enfrentar a violência contra a mulher / organização Eva Alterman Blay. – 1. ed. – São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014. Pp. 75. Disponível [Aqui]

Artigos e Tese

  • Faustino, Deivison Mendes. “Por que Fanon? Por que agora?” : Frantz Fanon e os fanonismos no Brasil / Deivison Mendes Faustino. — São Carlos : UFSCar, 2015. 260 f.  [Acesse aqui]
  • NOTAS INTRODUTÓRIAS SOBRE O “AFRICANA PHILOSOPHY” E O HUMANISMO PÓS-COLONIAL DE LEWIS GORDON – ENTRELETRAS, Araguaína/TO, v. 9, n. 1, jan./jun. 2018 (ISSN 21793948} [Acesse aqui]
  • Frantz Fanon: capitalismo, racismo e a sociogênese do colonialismo / Frantz Fanon: capitalism, racism and the sociogenesis of colonialism [Acesse aqui]
  • FAUSTINO. Nonagésimo aniversário de Frantz Fanon. Kilombagem. Santo André, 2015. [Acesse aqui)
  • FAUSTINO, Deivison Mendes. O que Fanon disse, afinal? Lewis Gordon e a defesa de uma abordagem fanoniana. Plural (São Paulo. Online), São Paulo, v. 22, n. 2, p. 247-253, dec. 2015. [Acesse aqui] 
  • FAUSTINO, Deivison Mendes. A práxis e a “consciência política e social” em Frantz Fanon. Lutas Sociais, [S.l.], v. 19, n. 34, p. 158-173, jul. 2015. [Acesse aqui] 
  • Esquerda Diário. Aniversário da morte de Fanon. 2015 [Acesse aqui]
  •  FAUSTINO, D. M.. A emoção é negra e a razão é helênica? Considerações fanonianas sobre a (des)universalização do. Revista Tecnologia e Sociedade , v. 1, p. 121-136, 2013.[Acesse aqui]
  • FAUSTINO, D. M.. Colonialismo, racismo e luta de classes: a atualidade de Frantz Fanon. In: V Simpósio Internacional Lutas Sociais na América Latina, 2013. Anais do V Simpósio Internacional Lutas Sociais na América Latina, 2013. p. 216-232. [Acesse aqui]

 

TEXTOS DIVERSOS SOBRE FANON

Abaixo, você encontra os links para textos diversos “DE” Fanon e “SOBRE” Fanon, comentados pelo pesquisador Deivison Nkosi no site do GRUPO KILOMBAGEM

 

Saúde da População Negra

The universalization of rights and the promotion of equity: the case of the health of the black population

  • FAUSTINO, Deivison Mendes. The universalization of rights and the promotion of equity: the case of the health of the black population. Ciênc. saúde coletiva. 2017, vol.22, n.12  pp.3831-3840. Disponível em [Aqui]

 

A universalização dos direitos e a promoção da equidade: o caso da saúde da população negra

  • FAUSTINO, Deivison Mendes. A universalização dos direitos e a promoção da equidade: o caso da saúde da população negra. Ciênc. saúde coletiva. 2017, vol.22, n.12 , pp.3831-3840. Disponível [Aqui]

 

Movimento negro, vulnerabilidade e saúde

  • FAUSTINO, Deivison Mendes and SPIASSI, Ana Lucia. Movimento negro, vulnerabilidade e saúde. BIS, Bol. Inst. Saúde (Impr.) [online]. 2010, vol.12, n.2 [cited 2018-01-04], pp. 162-166. Disponível [Aqui]

 

O Movimento Negro do ABC Paulista: diálogos sobre a prevenção das DST/aids

  • SPIASSI, Ana Lucia et al. O Movimento Negro do ABC Paulista: diálogos sobre a prevenção das DST/aids . Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 19, n. supl.2, p. 121-133 , dec. 2010. Disponível [Aqui]

 

Dissertação de mestrado: A percepção do movimento negro do abc paulista sobre a saúde da população negra: agendas, ações e parcerias (FAUSTINO, 2010). Disponível [Aqui]

 

Curso de Formação: África, Racismo e luta de classes

Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (2013)

aula 1: A desconstrução da África Mítica

 

aula 2: Os Grandes Reinos Africanos

 

aula 3: Racismo e Luta de Classes

 

aula 4: O racismo no Brasil

 

aula 5: Lutas Africanas: África e suas diásporas

 

aula 6: A luta dos trabalhadores e a “questão” racial

 

 

aula 7: Cultura negra e resistência social

 

aula 8: o (re)surgimento do movimento negro contemporâneo

(participação: Prof. Dra. Matilde Ribeiro)

aula 9: Desafios para a luta antirracista

aula 10: Palestra de encerramento e avaliação

 

 

Aulas e Palestras Deivison Nkosi

Curso de Formaçao: África, Racismo e Luta de Classes (sindicato Metalúrgicos do ABC – 2013)

 

Racismo e encarceramento em massa no Brasil

 

Racismo e capitalismo

 

Racismo e luta de Classes

 

Desigualdades raciais no Brasil

 

Racismo e comunicação

podcast: O Rap em debate: alcance institucional do racismo (com Celso Ricardo Monteiro)

 

Frantz Fanon (vídeos)

Aula CyberQuilombo

Podcast: Lado (B)lack #62 • Frantz Fanon (click na imagem)

 

Conferência: Ensaio sobre a alienação do negro: política, cultura e identidade em Frantz Fanon – Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da USP

 

Frantz Fanon e a violência (UNICAMP)

 

Conferência “A lei 10.639/03 em diálogo com o pensamento de Frantz Fanon”

 

Aula: Secretaria Municipal de Educação (2012)

 

Conferência: Terça Afro – 2017 (áudio)

Memória e negritude (2018): Conversas sobre Frantz Fanon (Santos – SP)

Mesquita Jesuíta

Ow, Meu Bom!

firmeza?
Lamento dizê, mano, mas…
não trago boas novas!

A verdade precisa ser dita,
por mais constrangedora que for,
por mais que a sua revelação seja politicamente inconveniente,
um tiro no pé já estraçalhado por tanta bomba!

Faz-se necessário reconhecer:
NÃO EXISTE POSSIBILIDADE DE RETORNO!!!
Não adianta!
desculpa!

Mas é isso mesmo que vc leu!

A história é objetivamente irreversível
e o “retorno” à origem, bem ou mal intencionado
é apenas um novo começo
uma nova invenção de futuro
(preso ao passado, mas não o passado
truncado no tempo, porque também se fecha ao futuro
mas nem presente chega a ser…)

Mano, cê me desculpa, memo,
por ser tão deselegante?
Mas convém informar que a nossa verdadeira identidade verdadeira
indiscutivelmente primordial e radicalmente original
não é mais que uma mesquita em formato de igreja jesuíta,
uma dança sagrada ancestral que se repete rigorosamente desde o princípio de tudo, há duas ou três décadas
um diálogo por telefone entre duas pessoas que não falam a mesma língua.

Mano, cê vai ficar bolado comigo?
Por favor, não mate o mensageiro!
a mensagem acabaria chegando por outros meios
menos solidários…

vc não imagina como dói ter que informar uma coisa dessas
eu to ligado:
era tanta raiz descoberta na terra fofa da desilusão
tanto vento forte que balançava os galhos ressecados da alma
que o medo de cair nos fez agarrar em uma dessas raízes e a chamar de nossa
“uma raiz pra chamar de minha” (Oh! Que poder!)
alguma coisa que ninguém poderia arrancar…

nois num têm culpa de buscar uma raiz, parça,
só que esqueceu que (nois) é dono da floresta toda
e não precisa se prender…

Mas, mano… na humilde!
sem maldade, memo, morô?!
Não há possibilidade de retorno
mas se ainda assim for retornar, não tenha medo de inventar o novo
de se agarrar a raiz
sem esquecer que és parte da floresta toda,
da porra toda, firmeza?
nois, tru!

 

Por Deivison Nkosi – 05 de novembro de 2017

Dia de maldade

Era domingo
o filho mais velho fora visitar a vó
e o bebezinho dormindo…
o olhar denunciava:
“hoje é dia de maldade” 😈…
E o que se seguiu foi o ranger da cama
a mão naquilo e aquilo na mão
aquilo naquilo e a mão na mão
supiros, contrações, uivos..
E o bebe acorda!!

Paramos tudo…
O colacamos pra ninar
ele dorme
a dança recomeça… frenética, com pressa, com sede…
Enchentes de desejos sob o corpo rígido…
carícias
suor
umhé…
Ele acorda novamente…

será um complô? B
rincamos com ele, troco a frauda, ela da peito..
eu pronuncio músicas de ninar enquanto penso em Funk
Ele dorme novamente..

O ritual recomeça..
já tava tudo no gatilho..
numa hora dessas: preeliminar é o caralho (devorado por lábios salivantes)…
ajeita o corpo gostoso pra sentir tudo…
a cama faz barulho!
Ele acorda mais uma vez (sorrindo da nossa cara ou pra gente… ou os dois)
Desistimos sorrindo…
próxima semana, mês? quem sabe?
num da nem pra ficar bravo com aquela carinha de Erê

Pós-verdade

Então, tá!!!
A partir de agora será assim:

a verdade será decretada pelo argumento mais enlouquece, pela quantidade de likes que fomentar ou por contingentes consensos politicamente convenientes;

provas estão dispensadas…

em alguns casos, o nome de uma coisa será suficiente para defini-la:

declaro, portanto, que a palavra “planeta” vem de “plano”, e que portanto, a sua “versão” esférica não será mais válida (aliás, sempre percebi que uma “esfera” em uma folha de papel é apenas um círculo redondamente redondo com efeitos especiais de luz e sombra nas bordas, chupa esferopatas!!!)… os extra-terrestres egípcios, em sua invenção da função do triângulo retângulo foram parte de uma conspiração milenar que envolveu os gregos antigos, árabes, indianos, os cosmólogos modernos e as empresas de aviação para te enganar sobre a verdadeira planicidade do planeta plano… era tudo um maquiavélico plano inter-galático! Pitágoras sabia de tudo, por isso criou uma seita secreta chamada escola dos mistérios, era tudo um PLANO!

sustento, com todas as convicções, que a via láctea é via (avenida expressa) composta pelo leitinho extraído do corpo do animal que dá o nome à constelação Touro… empolgado com a jovem Europa trepada em seu dorso, não aguentou a emoção e descarregou sob o espaço virgem… assim surgiu a nossa galáxia!

afirmo através de palavras chavosas que o nazismo (nacional socialismo) era de esquerda, pois continha a palavra “socialismo” no nome… da mesma forma que o sobrenome da excelentíssima viuva do Enéas Carneiro ( Dra Havinir) é Cabra (Havanir Cabra) e dos seus filhos, cordeiro (O sangue que protegeu a porta dos judeus escravizados das pestes no Egito, era do filho do Dr. Eneas) . O Tony Kanaan (aquele piloto) é neto de Moisés e filho maldito de Cam ( aquele Gênesis 9:18 – 10:32)… uma família que tem problemas com o álcool desde o velho testamento, mas que se redimiu usando motores à gasolina nas corridas…

insisto que o Partido Social Democrata (PSDB) é social democrata, e não liberal, e que o antigo partido Liberal era liberal e não conservador, assim como o Partido dos Trabalhadores é comunista (e não socialista pq socialista é o do Hitler) e não social democrata…

Sem mais!!!

 

Por Deivison Nkosi – 15 de agosto de 2017

facetruque

Oh deuses do algoritimo…

Exploda (pelo menos de vez em quando) a bolha da militância ultra-descontruída-mais-que-revolucionária-problematizadora-portadora-da-única-verdade-que-merece-likes-das-novas-visões-pós-contemporâneas-dos-últimos-dias;

Dai me sabedoria, paciência e tarefas práticas concretas para eu não ter tempo para postar um textao resolutor final de todas as contradições humanas a partir das minhas próprias frustraçoes pessoais mal resolvidas;
Livrai-me do desprazer de ver a minha propria mediocridade refletida nas postagens que visualizo, curto e compartilho, já que elas, e somente elas, refletem não a opinião das pessoas sobre o mundo, mas a frequência de meu proprio histórico de acessos;

Permitam, oh forças superiores, que de vez em quando eu pense duas vezes antes de tratar como inimigo mortal o escritor oculto de uma ideia relativamente diferente da minha, pq a morte dele (ou a minha) não é conveniente para o seu poder e glória… Apenas um adoecimento psíquico que nos mantenha dedidanco o melhor de nossa energia criativa a ti;

Livrai-me de denúncias e bloqueios e, sobretudo, fazei com que eu tenha muitos likes…

Amém!!!#

 

Por Deivison Nkosi – 13/09/2016

ESQUERDOPATA X DIREITOPATO

PRIMEIRO A GENTE TIRA A DILMA,

depois…

– observa caladinho cortarem os recursos para Educação e a Saúde;

– não da um pio a respeito da corrupção (de outros Partidos)

– aceita perder direitos e “PAGAR O PATO” (congelamento de salários, ameaça ao direito às férias, aposentadoria, 13o, etc),

pq afinal, esse papo de “direitos” é coisa de esquerdopata/petralha/comunista

o jeito é voltar a falar do futebol (masculino)… se “eu” fosse o técnico da seleção brasileira, o mundo seria bem melhor.

Agora, se alguém nos questionar  sobre a corrupção no Metrô paulista (administrado pelo PSDB), as confissões de propina da Odebrecht (para o PMDB e PSDB), ou as recorrentes denúncias de violência sexual promovidas pelos deputados-pastores:

– a gente diz que político é tudo filho da puta…

e a vida segue,

bem pior que antes,

mas em espírito olímpico…

afinal, inimigo bom para criticar é aquele que a Globo denuncia…

para todos os outros:

o nosso desdém

e o voto garantido na próxima eleição!

 

Por Deivison Nkosi – 01/08/2016

PROFECIAS PÓS-CONTEMPORÂNEAS

OPRIMIDOS(AS)(x)(@)(..)(” “)(?) do mundo: FRAGMENTAI-VOS!!!
Até o ponto exato em que Tu, estranho à própria imagem refletida no espelho, não se veja mais Um,
apenas cacos fluidamente fragmentados pela contingência desconexa de uma lógica essencialmente anti-essencial:
Sem dor, conflitos e oposições…

REPUDIAI
a toda Identidade que lhe anula a Diferença,
até que você – Medida Transcendental de todas as coisas – não seja mais idêntico a nada… nem mesmo A Ti próprio,
restando só o AÍ no vazio.

AFASTAI-VOS
de todo o Outro que lhe ameaçar oferecer oposição, resistência ou existência que não seja idêntico a si…
de todo o Outro que lhe contraria ao habitar em ti para compor aquilo que és, ou estais sendo (ou projetas ser).

FRAGMENTAI-VOS
até o momento em que o Outro deixe de ser uma ameaça;
até que o Outro deixe de ser,
até que não haja mais ser
até que não haja mais o Outro

Neste momento, talvez, te sentirás pleno
diante do Absoluto Nada que restou.

Por Deivison Nkosi – 29/01/2015