PREFÁCIO DO LIVRO “RACISMO E EUGENIA NO PENSAMENTO CONSERVADOR BRASILEIRO: A PROPOSTA DE POVO EM RENATO KEHL”

FAUSTINO, D. Prefácio. In: GÓES, W. L. . Racismo e eugenia no pensamento conservador brasileiro: a proposta de povo em Renato Kehl. 1. ed. São Paulo: LiverArs, 2018. 226p .

Ao abrir este livro, pode o leitor estar certo de que abriu um estudo de alto valor, feito com tenacidade crítica, força de convicção, solidez de argumentos, coragem mental, clareza expositiva e grande originalidade.

Antônio Cândido

 

As palavras acima transcritas, não foram originalmente dirigidas ao presente livro mas poderiam ser, sem nenhuma forçação de barra. Weber Lopes Góes, em seu Racismo, eugenia no pensamento conservador brasileiro: a proposta de povo em Renato Kehlnos oferece uma análise precisa do racismo no seio do pensamento conservador brasileiro.

O paralelo com o livro elogiado por Antônio Cândido [O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio, de José Chasin, 1978] não é gratuito já que ambos investigam importantes expoentes do pensamento conservador brasileiro tendo como mote, por um lado, as particularidades da organização capitalista brasileira, onde o “moderno” (o desenvolvimento das forças produtivas) entrelaça-se com o “atraso” (o escravismo, a sesmaria, o latifúndio, o coronelismo, o patrimonialismo, e a autocracia institucionalizada) ao invés de instaurar relações novas e, no mínimo, democráticas. Por outro lado, o leitor encontrará aqui – assim como acolá – uma análise da influência desses pensadores no curso de acontecimentos decisivos para a história do Brasil.

A diferença entre eles, entretanto, não está na perspectiva teórica – uma vez que ambos se ancoram no filósofo húngaro Gyorgy Lukács (1979; 1959; 2009) para pensar as particularidades de entificação do capitalismo em seu desenvolvimento desigual e combinado – mas sim nas singularidades dos objetos estudados: se José Chasin analisa o Integralismo de Plínio Salgado como expressão própria do caráter hiper-tardio (débil) do nosso capitalismo, Weber Lopes Góes partirá daí para afirmar que esse capitalismo não pode ser devidamente apreendido sem o equacionamento preciso do racismo em sua gênese e reprodução. Uma tarefa ousada que é cumprida com maestria e farta oferta de dados historiográficos e sociológicos que relacionam articuladamente o autor a obra e o seu contexto de produção.

A ousadia da proposta se apresenta ainda mais evidente quando a equacionamos ao atual contexto político e acadêmico brasileiro: a despeito das raras e valorosas exceções, as análises “sérias” a respeito do capitalismo tendem a ocultar as suas dimensões raciais. No polo oposto do espectro, observa-se, da mesma forma, que boa parte dos estudos sobre o racismo o tomam como algo em si, sem conexões com o modo e as relações de produção existentes em cada sociedade, com exceção ao casos econométricos em que a luta de classes é discursivamente reduzida às suas dimensões aparentes e tomada (apenas) como marcador social de diferença. Ao contrário disso, para Góes, “Renato Kehl é um dos intelectuais que expressa a natureza do pensamento conservador brasileiro, pois é favorável à conciliação do ‘novo’ com o ‘velho’, mediado pela eugenia, isto é, conserva os traços de dominação de classe sem favorecer os setores subalternos, ausentes de qualquer avanço democrático ou distribuição de terras ou rendas” (GÓES, p. 215).

Outra distorção frequente que o autor evita é a redução do racismo a um epifenômeno da luta de classes, ou pior, a um mero resquício da escravidão, posição que leva importantes intelectuais brasileiros a suporem que o desenvolvimento (seja lá o que se entenda por isso) do país ou mesmo a negação discursiva do conceito de raça seria suficiente para sua dissolução.

Num caminho diferente, mas, sobretudo, atento aos descaminhos inocentes ou mal-intencionados do nosso pensamento social (subordinado)[1], Weber Lopes Góes nos faz lembrar a famosa sentença atribuída a Tom Jobim –  quando o mesmo afirma que  “o Brasil não é para principiantes” – ao desvelar a propositura teórica de Renato Kehl em meio ao ambiente intelectual que o gerou. Até hoje, se pode encontrar em alguns clássicos brasileiros uma falsa polarização entre a recusa da miscigenação – identificada como expressão máxima do racismo segregacionista – e o seu elogio, visto quase sempre como símbolo da ausência de racismo.

O que encontramos no programa eugênico de Renato Kehl, precisamente captado na presente publicação, é a apologia crítica à miscigenação como uma espécie de mal necessárioque nos leve, ao final, à cura da fealdade[2]e do atrasosocial brasileiro.

A redenção de Can – 1985

Góes nos ajuda a perceber a existência de um jeitinho brasileirodiante nos rígidos ensinamentos segregacionistas do Conde de Gobineau[3], que faz jus à definição de “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, ao pensa-lo (o homem cordial) não como aquele provido de “civilidade” e “polidez”, mas  sim, no seu oposto à civilidade, em suas dimensões coercitivas e formalistas é substituída pela aversão ao ritualismo e a polidez, expressa apenas de maneira aparente e não de fato: o objetivo da Eugenia, segundo Renato Kehl era  –  assim como nos outros membros de seu círculo intelectual[4]- a nada polida extinção completa dos descendentes de africanos no Brasil.

Mas este objetivo não se apresenta de cara, em uma primeira leitura, nem em Renato Kehl e nem na brilhante exposição Weber Lopes Góes. O autor vai explorando o seu objeto de pesquisa, decompondo suas partes, uma a uma, para durante o percurso, ir apresentando uma síntese, cada vez mais concreta de suas determinações ideológicas e políticas. Por isso, argumenta:

constatamos que seu objetivo era fornecer subsídios para a concretização de um projeto de povo brasileiro, sendo necessário, para isso, enfrentar e resolver as questões relacionadas ao sanitarismo, à educação, delinquência, pobreza, prostituição, raça, imigração e mestiçagem. A eugenia era a ferramenta primordial para disponibilizar os meios de superação dos problemas (GÓES, p. 212).

A ideologia eugênica – que se propunha ao mesmo tempo como ciência e religião – proposta por Kehl é apresentada, primeiramente, em seu contexto histórico mais amplo, remontando ao surgimento do conceito de raça, ao chamado racismo científico e ao darwinismo social na Europa imperialista do século XVIII e XIX. Vale avisar, entretanto, que o leitor não encontrará aqui apenas uma história das ideias eugênicas, mas também, das determinações materiais que as possibilitaram emergir em uma Europa burguesa que opta, de um lado, por explicar biologicamente as contradições de classe no capitalismo maduro e do outro, justificar a ocupação imperial-colonialista de territórios não-europeus.

Em seguida, o autor se debruça sobre as particularidades da formação social do Brasil e a objetivação do conservadorismo em importantes expoentes do pensamento social brasileiro ou das políticas públicas de saúde ou educação como Oliveira Viana, Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Artur Neiva, Belisário Pena, Carlos Chagas, Miguel Pereira, Azevedo do Amaral, Vital Brasil, Dr. Arnaldo, e Afrânio Peixoto. Todos estes inspirados no racismo científico e ativos militantes eugênicos.

É deste ciclo intelectual que surgirão os primeiros encontros e congressos eugênicos, bem com os subsídios políticos para a formulação de políticas públicas implementadas pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. É um pouco frustrante, para quem se engaja em uma luta antirracista apenas por meio das políticas de representação, descobrir que o brilhante psicólogo negro Juliano Moreira – frequentemente lembrado como o pai da psiquiatria no Brasil – também era um adepto do movimento.

É só no final, quando analisa as propostas da Eugenia como nova religião que o autor nos expõe as dimensões de gênero e raça da eugenia. Chama a atenção que Renato Kehl estava atento às diversas vertentes do feminismo e, portanto, se posicionava no debate defendendo aquilo que chamava de “bom feminismo”, em contraponto ao “mal feminismo”.

O primeiro, segundo o pensador eugenista, seria aquele que valorizaria as mulheres incentivando-as a serem boas mães e boas esposas. Nas palavras de Kehl, apresentadas criticamente por Góes, o feminismo deveria “contribuir para a preservação da mulher na posição de companheira do homem, gabaritada para ganhar a vida com o trabalho, caso seja necessário, e ‘cultivando talentos, se o tiver’”. Já o mal feminismo, seria aquele composto por “mulheres extremistas” que tentam se igualar aos homens. Nenhuma novidade no país que realizou agora em 2018 o 1o. Congresso Antifeminista do Brasil[5].

Outro tema, presente na proposta de Renato Kehl, e que a caracteriza, segundo argumenta Góes, como expressão do pensamento conservador no Brasil, é a sua recusa frontal à modernidade e ao humanismo.  Entretanto, dado que a crítica à modernidade não é exclusividade do pensamento conservador, é valido explicar que a sua posição parece estar mais próxima da posição do Nietzsche de O Nascimento da Tragédia e Além do Bem e do Mal (e por que não, Olavo de Carvalho), como afirma, Kehl, citado por Góes:

a civilização mudou por completo os verdadeiros instintos da seleção natural, transformou os ideais da humanidade e interferiu na marcha selecionista da espécie. Os mais fortes foram os que garantiam a vitória benéfica entre os homens, pois a evolução desde o período neolítico até a nossa atualidade tem colocado a espécie humana numa posição superior aos demais animais. Todavia, a “civilização fez que o homem da caverna passasse a habitar palácios; fez que o código da natureza fosse abrigado e substituído pelo código do sentimentalismo humano” (KEHL, 1923b, p. 22, apud GÓES, p. 182).

Por fim, e não menos importante – especialmente neste ano em que a parte da população da cidade de Pacaraima, em Roraima, expulsou violentamente os imigrantes venezuelanos que ali se encontravam[6]- são as proposições do já mencionado autor eugenista às políticas migratórias. O interlocutor do movimento eugênico brasileiro, como nos apresenta Weber Lopes Góes, visualizava a mistura racial como possibilidade de embranquecer a população brasileira e, com isso, diminuir a criminalidade e as demais contradições sociais do país. Assim, defendia a imigração, mas propunha, na mesma medida a existência de leis regulatórias que impedissem certos tipos de imigrantes.  Em outras palavras, a imigração era desejada, desde que oriunda da Europa, para todos os outros imigrantes – especialmente africanos – propunha-se o fechamento da fronteira.

O leitor tem em mãos um estudo muito rico detalhado de Renato Kehl, de sua propositura teórica e de seu período, permitindo-nos uma melhor compreensão não apenas do passado mas também de um certo presente que não acertou as contas com ele. O livro nos provoca a pensar nas permanências fantasmagóricas deste passado quando pensamos na violência, estigma e barreiras vividas por imigrantes e refugiados não-brancos que vivem entre nós, mas também nos índices absolutamente desproporcionais de mortalidade entre a negros/as quando comparados a brancos/as para problemas como assassinatos, morte em função do parto, Aids, tuberculose e etc, quando observamos a dimensão racial do mapa brasileiro do encarceramento ou a distribuição geográfica da população de qualquer capital do pais.

Somente a observação atenta das reminiscências do projeto eugênico entre nós – obviamente de forma “cordial” e mascarada – se pode entender a resistência vivida no Brasil às tentativas de aplicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e da Política Nacional de Saúde da População Negra, bem como ao tratamento violento que a especulação imobiliária e o agronegócio vem tratando as populações indígenas e quilombolas.

genocídios contemporâneos

Weber Lopes Góes nos alerta em seu estudo sobre Renato Kehl que a eugenia não se resumiu à castração dos indivíduos considerados inaptos, mas se fez presente na história do Brasil como um poderoso e eficaz projeto – em franca implementação – de sociedade em que o negro não era bem-vindo. Afinal, como alertou Clóvis Moura (1988), para essa elite, que Kehl compôs e apostou todas as fichas, “o Brasil teria que ser branco, capitalista e cristão” e para que esse objetivo fosse alcançado, não apenas os projetos alternativos de sociedade deveriam ser radicalmente combatidos, mas até a própria democracia (e, principalmente, de assistencialismo) deveria ser erradicada com vistas ao retorno de um hobbesianismo nietzsche-darwinista que favorecesse a multiplicação dos “mais fortes” e “saudáveis” em detrimento daqueles que configurariam o oposto. Como afirma Góes, para Kehl:

O “humanismo” da civilização transformou os verdadeiros intuitos seletivos próprios da natureza, provou a estagnação da humanidade favorecendo a proliferação dos degenerados e criminosos. Entretanto, a civilização ao trazer tais implicações à sociedade, contraditoriamente, nos deu o seu principal mediador, entre a vida social e biológica, neste caso, o remédio da eugenia (GÓES, p. 183).

Para Kehl – mas também para muitos influentes políticos contemporâneos – bolsa família, políticas de ações afirmativas, e outros tipos de políticas de assistência, mas sobretudo, – não esqueçamos – a possibilidade de auto-organização da classe trabalhadora, são problemas que devem ser frontalmente combatidos. Basta assistirmos alguns minutos da propaganda eleitoral para perceber que o clamor para mais cadeias (onde se inclui a castração de criminosos), segregação social e espacial daqueles que são considerados perigosos em potencial, fechamento da fronteira para determinados imigrantes, exaltação de um certo padrão de beleza e estímulo à sua reprodução são consignas que não se restringem aos autores citados no brilhante estudo de Weber Lopes Góes. Mais atual do que isso impossível.

 

Deivison Mendes Faustino

Professor do Departamento de Saúde, Educação e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Integrante do Núcleo Reflexos de Palmares, do Grupo Kilombagem e do Instituto Amma Psique e Negritude

 

São Paulo, 26 de agosto de 2018.

[1]“Pensamento social subordinado” é o termo utilizado por Clóvis Moura (1988) para descrever a vinculação ideológica (conservadora) dos primeiros estudos sobre o negro no Brasil. Trata-se, segundo argumenta, de uma sociologia subordinada aos interesses e privilégios (de raça e classe) ao qual se originam. Tal classificação inspirou-se na constatação Guerreiro Ramos ao afirmar que a “nossa sociologia do negro é, em larga margem, uma pseudomorfose, isto é, uma visão carente de suportes existenciais genuínos, que oprime e dificulta mesmo a emergência, ou a indução da teoria objetiva dos fatos da vida nacional” (Guerreiro Ramos citado por Moura, 1988, p. 20).

[2]Como nos mostra Góes, “A cura da Fealdade” é o título de um dos livros de Kehl, publicado em 1923, onde defende a mistura racial, a chamada mestiçagem, como solução para o país, como afirma, citando o referido autor: “a miscigenação é concebida como projeto inteligentede extinção do negro, ou seja: ‘Sendo o Brasil um cadinho de cruzamentos, pode-se afirmar que ele está avançando para o aperfeiçoamento do seu povo, até constituir uma raça forte, vigorosa e intelectualmente superior’”

[3]Joseph Arthur de Gobineau(1818-1882) foi um diplomata, escritor e filósofo francês. É conhecido como um dos mais importantes teóricos do racialismo do século XIX. Defendia a desigualdade biológica entre as raças e se aliava a outros teóricos que defendiam que a história da humanidade é a história da luta de raças. Entretanto, para ele, a o lado mais forte (europeu) estaria perdendo a luta. É neste contexto que fará sua mais famosa declaração “não creio que viemos do macaco, mas creio que estamos caminhando nessa direção”. Para Gobineau, a miscigenação levaria as espécies à degeneração.

[4]Me refiro aqui a Lobato, Neiva, etc., listados pelo autor neste estudo.

[5]Com os lemas “feche as pernas”, “libertar o Brasil da tirania do comunismo”, o 1º Congresso Antifeminista do Brasil reuniu cerca de 150 pessoas na Igreja de Sant’Ana, no centro do Rio de Janeiro em 4 de agosto de 2018. Ver: https://epoca.globo.com/feche-as-pernas-que-pregam-os-participantes-do-1-congresso-antifeminista-do-brasil-22964525#ixzz5OkO5lvhU.

[6]Ver, nesse sentido:  https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2018/08/18/venezuelanos-atravessam-a-fronteira-apos-ataques-em-rr-veja-video.ghtml.

Reflexões e Informes

Link para a Tese “Frantz Fanon e os fanonismos no Brasil”  – Deivison Faustino (Nkosi) (2015)

Resenha do livro What Fanon said, de Lewis Gordon (2016)

A Série é o ópio do povo (2016)

VICH, FODEU! A ESQUERDA ESTÁ EM CRISE!!! Mas a foda ainda é o melhor maneira de alcançar o orgasmo (2016)

Nonagésimo aniversário de Fanon – seleção de textos de e sobre Fanon (2015)

Je suis… hypocrite et sélective (2015)

Sobre Cláudias e Adelaides: se “uma piada é só uma piada” porque não rimos do tombo da própria mãe? (2014)

Pan-africanismo, marxismo e as encruzilhadas nossas de cada dia (2014)

Apoio à Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta: por que marcharemos no dia 22 de agosto? (2013)

O Governo de São Paulo e a máfia do Metrô (2013)

Os crimes de maio e as manifestações de junho e o Amarildo: o extermínio nosso de cada dia (2013)

TAMBÉM ASSASSINA QUEM APONTA O REVOLVER!!! Por que o Senhor Atirou em mim? (2013)

bell hooks e as Intelectuais Negras (2013)

O Egito (KMT) e a história da perfumaria (2013)

O Encarceramento em massa e os aspectos raciais da exploração de classe no Brasil.(2013)

Heidegger e o Nazismo (por José Pablo Fenmann) (2012)

Reflexões sobre o perigo de uma história única (2012)

Introdução ao Estudo das civilizações Africanas (2011)

 

[LANÇAMENTOS] FRANTZ FANON – UM REVOLUCIONÁRIO, PARTICULARMENTE NEGRO

FRANTZ FANON – UM REVOLUCIONÁRIO, PARTICULARMENTE NEGRO

AGENDA DE LANÇAMENTOS 

07/07: Itapecerica da Serra (VIII Conversa de Terreiro – Nzo Tumbansi )

  • Rodovia Armando Salles, 5205 – Itapecerica da Serra (das 10hs às 20hs)

09/07 e 10/07: BAHIA 

  • 09/07 às 18hs: Local: Centro de Estudos Afro Orientais (CEAO): Praça Gen. Inocêncio Galvão, 42 – Dois de Julho, Salvador – BA – Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em  Estudos Étnicos e Africanos
  • 10/07 – às 10hs:  Local: Rua 13de maio, 13, Centro. Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais – UFRB- Cachoeira-BA –

14/07: Mauá-SP (-Samba de Terreiro de Mauá – Centro Cultural Dona Leonor)

  • Local: Rua San Juan / parque América – Mauá / Ao lado da Estação Guapituba da CPTM

26/07:  Rio de Janeiro –  RJ (UFF)

  • Local: Gamboa (em breve mais detalhes).

 

 Link de compragoo.gl/vE75Bb

“A potência deste conciso ensaio sobre a vida e o pensamento revolucionário de Frantz Fanon está, sem sombra de dúvidas, na extraordinária amplitude de estudos de Deivison Mendes Faustino, na clareza da apresentação e na sobriedade da análise. Este texto maravilhoso é um presente de grande valor não só para o Brasil, mas também para todo o mundo lusófono.” Lewis Gordon, autor de Wath Fanon Said

SOBRE O LIVRO | Há mais de cinco décadas de seu falecimento, Frantz Fanon, publicado em diversos países e analisado por destacados estudiosos do pensamento crítico contemporâneo, é, sem dúvidas, um dos intelectuais negros mais importantes do século XX, que atuou como psiquiatra, filósofo, cientista social e militante anti-colonial.

Sua obra influenciou movimentos políticos e teóricos em todo o mundo e suas reflexões seguem reverberando em nossos dias como referência obrigatória em diversos campos de estudo. Por isso, em Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro, Deivison Mendes Faustino apresenta a trajetória política e teórica de Fanon desde a sua infância na Martinica até a sua participação nos movimentos de libertação na África. Trata-se de uma rigorosa investigação, em que a obra do intelectual martinicano é revisitada com vistas à sua biografia, de forma a oferecer ao leitor brasileiro um panorama mais amplo a respeito do contexto e dos dilemas enfrentados por Fanon no momento de cada escrito seu.

O presente ensaio aqui apresentado é, nesse sentido, corolário de uma séria atividade intelectual e se constitui como uma fundamental contribuição para o debate sobre a presença do pensamento negro e sua resistência política e intelectual na sociedade contemporânea. Que seja este, portanto, um livro para ler e refletir.

SOBRE O AUTOR | Deivison Mendes Faustino, também  conhecido como Deivison Nkosi, possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos. É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do instituto Amma Psique e Negritude e do Grupo Kilombagem. Recebeu, em 2015, a Menção Honrosa do Prêmio CAPES pela tese intitulada Por que Fanon, por que agora? Franz Fanon e os fanonismos no Brasil.

 

Lançamentos já realizados:

11/05 – São Paulo-SP (Al Janiah)

17/05 – Santos-SP ( Semana do Serviço Social – Universidade Federal de São Paulo)

19/05 – Araras-SP (2º Encontro de Estudantes Negras e Negros da União Estadual dos Estudantes; UEE- Quilombo Anastácia)

 

13/06: Campinas-SP ( CRP)

16/06: Juiz de Fora-MG (Coletivo CineFanon)

 

21/01: Grupo Akotirenes (Santos)

No Instituto Procomum Rua Sete de Setembro, 52, 19 horas.

22/06: São Bernardo do Campo-SP (Sindicato dos Metalúrgicos do ABC)

  • Rua Marechal Deodoro 1960

 

 

Borrões

Kitembo (sem data) 

Mesquita Jesuíta (2017) 

Dia de Maldade (2017) 

Pós-verdade (2017)

Facetruque (2016) 

ESQUERDOPATA X DIREITOPATO (2016)

PROFECIAS PÓS-CONTEMPORÂNEAS (2015) 

Like-me (2013) 

Poeteiro (2013)

Violência auto infligida em 3 atos (2013) 

Apelo aos cidadãos de bem (2013)

Leila (2011)

Tantos “tantos” (2011) 

O Tempo (2012)

Dizê o Q? (2010)

Consciência humana (2007) 

Aulas e Artigos Educação das Relações Étnico-raciais

ARTIGOS

Artigo: Reflexões sobre o Perigo de uma única história (FAUSTINO, 2010)

Artigo: A formação continuada para educação das relações étnico-raciais: um relato de experiência (FAUSTINO e OLIVEIRA, 2017)

 

AULAS / SLIDES

Aula: Introdução ao estudos das civilizações africanas

Aula: Síntese: História Geral da África

Aula: Racismo, Colonialismo e Racismo Moderno

Aula: Pan-africanismo

Aula: África em movimento (África contemporânea)

Aula: Education from an Afrocentric perspective

 

Consciência humana

Meu amigo, eu preciso lhe falar

É que ta entalado

Talvez você num me entenda

Mas eu vou ter que falar

 

Eu fui arrancado da minha mãe

Do meu pai, da minha terra

– E você não falou nada

 

Fui estupradA, escravizado, morri aos milhões

Por tortura, maus tratos ou na linha de frente das guerras

– Você num falou nada

Disseram que a minha religião era do demônio

Que eu era feio, que não tinha alma…

– E você não disse nada.

Me obrigaram a virar cristão

Disfarçaram a dor da escravidão, me arrancaram o coro das palmas

E vc… nada!

Quando eu num interessava mais me jogaram na rua

Com nome de abolição

E então dessa vez você… Também não disse nada.

Ah! Mas num dá pra esquecer a vontade que dava de morrer

De ver você na tV e não me ver…

Eu me achava feio, me achava incapaz.

Quantas vezes eu quis ser você, te imitar

Te possuir, pois só assim eu poderia esquecer quem eu era

quem eu fui, quem eu sou… Quem eu sou???

 

Eu sou o menor e você o estudante

Você é a única referência – mas não diz nada!

 

Eu também não me via nos livros, na História

Se bem que até me vêm na memória eu no lixão

No sambão ou sendo pentacampeão

Mas nunca patrão.

Vi você brigando com ele – o patrão

Mas sobre mim… Você num falou nada.

Também não falou nada quando chutaram meus orixás

Quando riem do meu jeito, do meu cabelo

Quando não me contratam no emprego.

Como eu fui esquecer: Disputei a vaga com você!

Me pediram p/ esperar…

Você entrou lá, começou a trabalhar, militar, lutar e eu….

 

Eu fiquei revoltado, irado, não sabia se quebrava tudo ou ficava desanimado

Quis ficar organizado, preparado, o confronto articulado;

Colei em você e te intimei:

“E aí Cara pálida? Viu como tão me tratando até agora?

Essa elite que você também não gosta…

Viu como é foda!

EU VOU EXPLODIR, QUEBRAR, VIRAR O JOGO!!!”

 

E você… não sei bem explicar o porque

Com medo de perder algo, por não ter se incomodado

Ou por ser “humanizado”…

Vem agora e me diz:

“Calma! Somos todos iguais”

 

Deivison Nksoi – 2007

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Antes que esgotem as frases prontas do meu Profile

O Status é a única forma de fazer contato nesse deserto cada vez mais virtual:

uma interligação universalmente solitária

onde contato-me com o mundo

e ignoro quem está do meu lado.

Like-me, por favor!

Não me deixe desapercebido nesta prateleira pública

A minha súplica é ser notado…

falar qualquer coisa que me faça aparecer mais que os outros,
… quem sabe assim eu agrego valor a minha imagem,

AMIGOS A MINHA LISTA,

e não me descubra tão solitário

como realmente sou.

Like-me!

me add pelo $ de um click…

Pois,

destituído de mim mesmo,

so me resta o seu view.

Deivison Nkosi – 2013

Leila

Seu corpo molhado

no meu

pal

mo

a

pal

mo,

apalpo,

olfato

tato

a perna bambeia

e o peito fica farto

laços…

de corpos sedentos

eu quero vc!

 

Sussurra meu nome

me chama de De…

Só se for D

se fô D

me denga

me prenda,

me renda

eu pago pra ver

 

Minha língua

sedenta

tesa

lhe abre… a

percepção

anal

gésicos

nexos

“Sexo”

é pouco para definir

 

sinto pleno em seu existir

sua ginga

que ginga!

Em mim!

Com força

Assim!!!

Vai!

Vem!

Vai!

Vem!

Mais, mais!!!

Vem, v-e-m

Ahhh!

Me explodo!!!

 

Obscenos

jorros,

gozo!

 

Eu sei q ce qué…

tbem quero de novo…

pi- pi- pi – pi- pi – pi

merda! hora de trabalhar

 

Por Deivison Nkosi – 2011

Tantos “tantos”

são tantas vezes que a dor bate forte

e vida parece perecer frente a angustia

que a tempestade arrasta até mesmo as árvores de raízes mais profundas

deixando apenas lama e escombros sob o lindo céu azul

 

são tantos os momentos em que a estiagem seca o solo

onde caminha a alma

que se parece pisar descalço em um vulcão de dor

mais quente que o gelo do inferno

 

são muitas as vezes que de tanta angustia

o choro trava na garganta

retornando em refluxos internos que corroem o peito

 

são muitos os gritos de agonia sussurrados no escuro dos dias poluídos de SP

 

são tantos “tantos”  que que me preenchem o ser

e esvaziam a alma

 

vazio

em demasia

 

Deivison Nkosi – 2011

VIOLÊNCIA AUTO INFLIGIDA EM 3 ATOS

Prelúdio em dó maior 

Houve um dia, em que a poesia, de tão narcisista e vazia

decidiu que naquele dia agrediria a quem vesse primeiro, a esmo…

no entanto, de tão impossibilitada que estava de notar qualquer algo que estivesse para além de si própria só pode ver alguém quando parou na frente de um espelho.

O resultado deste (es)tranho (re)conhecimento revela um diagnóstico mórbido de uma típica violência auto infligida. Agrediu a si mesma com requintes de crueldade utilizando-se do que a fazia mais forte: palavras jogadas ao vento.

 

1º ato

Esta noite eu queria trazer uma poesia

mas não consegui…

tipo, sem inspiração/

Eu queria declamar uma poesia

Mas palavras engasgavam feito espinho na garganta

A sutilidade poética

parecia patética, frente à crua realidade…

verdade!

 

Eu queria fazer uma poesia,

Mas… Seria até ironia, em meio a tanta covardia

acreditar em palavras

tombando o exército da ignorância

 

Eu queria muito fazer uma poesia

Mas senhoras e senhores, eu já ouço rumores de que a vida precisa muito mais!

Palavras não seriam suficientes para tornar consciente a dolorosa corrente indolor da mental escravidão

Neste mundo onde o amor é um escândalo;

Os verdadeiros Vândalos… sugam-nos-sagram, o fruto do trabalho:

A mente, o carinho e o caralho,

Tudo vendável – na banquinha da decepção ///

 

2º ato

Passei a noite pensando, precisamos mesmo é de poesia?

Já declamaram o novo dia, cantaram a revolução… o brasil já foi 5 X campeão

Mas as mãos ainda carregam livres-correntes

e como uma arara a venda numa gaiolinha pequena cantam eu nem sei por quê

 

Eu preferia memo era fazer uma poesia,

mas no fundo eu sabia, que mesmo a revelia,

a inocência só se liberta com a morte

Da opressão /// então…

Embrulhei as poesias num pedra e taquei com força nos vermes (gambé)

Parei de me ajoelhar ao deus – Mercado

E descobri que Pecado – é passar fome p trocar todo mês de celular

É ficar na covardia de fazer poesia – e quando acabar o sarau não mover uma palha p vida melhorar

 

3º ato

Definitivamente! Eu cansei de poesias

Trago o grito entalado na goela

A rebeldia da cinderela, a greve do catador de latinha/

Proponho O amor de corpos pretos, dedos toques uivos, crespos

A pantera preta que desperta e devora os “cochinhas” (gambé)

Infelizmente a poesia não mais me satisfaz…

Desculpe a sinceridade anti-poética mais

“amar e mudar as coisas me interessa mais” (tris)

 

Por Deivison Nkosi – 2013

Poeteiro

A poesia é uma luta injusta

De cinco elementos batendo em um

Repetidamente

Manuseando de um jeito tal

Que de tanto bater

o faz cuspir

prazeres

dizeres

pueris

desejos que deveras sente

 

É o momento em que o dedo

Desliza

Suavemente

As teclas próprias

Ou alheias

Estimula

Massageia

Fantasiando o que quer e não tem

O que tem e não possui

O que pode e não deve

 

Poesia são toques

Uivos

Gemidos

Suspiros

Onde…

Embora imagine um outro

Sou eu mesmo o principal objeto

De um desejo que simula ser desejado

Fingindo ser o outro para se ver

 

A poesia é sempre um “quase”

Que mesmo no clímax

Toca a alma

E os sentidos mais aguçados

Mais não conclui o que deseja de fato

E por vezes se contenta

Em imaginar o que podia ser

 

A poesia excita…

E se pegar de jeitinho

Faz até virar o zoinho

Manus-turbando a pureza fria de uma razão irracionalmente posta

Imposta

Composta

Hipócrita

 

A poesia é o pecado

Sagrado

Deixado

Pra aqueles que ousam fazer do corpo a morada de deus (e das deuzas)

 

É o culto dos ateus crentes dos últimos dias

O fogo que inflama

Enquanto alivia

Toda a tensão

Acumulada por desejos violentamente reprimidos

 

A poesia é

A poesia…

A po…

e…

é…

a

a- ah

ahhhhhhhhhhhhhhh!

POESIA

 

Por Deivison Nkosi – 2013

Kitembo

O Tempo é o deus, desculpe! As vezes penso

O tempo intenso, no silencio, denso,

O tempo tal em que ao mesmo tempo

Mata… e faz a vida germinar.

 

O Tempo é o deus que antes de convento

Antes de deus e outras que invento

Antes da luz, se pá até do vento

Já tava lá, antes da gente pensar

 

Mas sou sincero e falo o que eu penso!

Eu vim aqui utilizar seu tempo

Pra perguntar: o que se faz do tempo

Que o Tempo te deu nas mãos pra vc usar?

Vou repetir:

o que ce faz do tempo… que Tempo te deu nas mãos pra vc usar?

 

Ao mesmo tempo que eu falo de tempo

O tempo passa, lento e irreversível

E cada tempo que eu perco tempo

o meu futuro fica inatingível

 

é so o tempo

erros e acertos

quiçá um dia pra me ensinar

que á agonia, triste ironia!

É a escola pra eu me superar.

 

Tudo junto, assim, ao mesmo tempo

sem tempo nem mesmo pra pensar

cinco mil no facebook e ninguém pra abraçar

trabalhar pra  comprar tudo…

mas sem tempo usar

 

Ao mesmo tempo que o tempo passa

passa e não volta mais

Eu retorno lento ao meu inicio

e não sendo o mesmo mais

choro pra ser homem e luto pela paz

Eu ganho tempo me perdendo no tempo

avanço as vezes voltando para trás

 

Mas é isso aí!

pra não tomar mais tempo

cansando em letras o seu globo ocular

Só vou indagar “o que cê faz do tempo…

que o Tempo te deu nas mãos pra vc usar?”

 

 

Por Deivison Nkosi – Escrito em um tempo que já não se sabe

Dizê o Q?

Mas vo Dizê o que se já foi tudo dito?

Foi tudo visto, tudo listo, quisto…

E eu de tanto que querer ja tive

Hoje nem sei mais o que querer

 

querer sonhar as vezes é difícil

É Tanto olho que molhou no cisco

Que eu já nem disfarço as águas

Que borram a letra que tento escrever

 

Resta escrever o que já foi escrito

Verborrajar para animar o circo

Ou pare o “mundo que eu quero descer”

levando conquistas que quis e não tive

 

eu quiz o tudo e pelo visto o quisto

virou até meu compacto o disco

e eu de tanto que tive querer…

não soube aproveitar o que eu tive

 

Por Deivison Nkosi – 2010

Education from an Afrocentric perspective

postado originalmente em 19 de outubro de 2011

 

This ppt (Education from an Afrocentric perspective) was presented at the CUMBRE MUNDIAL DE JUVENTUD AFRODESCENDIENTE  – Costa Rica 2011

The goal is to conduct a critical dialogue in relation to myths about Africa and African descent in the world.
The presentation shows that Africans contributed actively to the development of universal human

Deivison Nkosi – Kilombagem Group – Brazil

Introdução ao estudos das civilizações africanas

postado originalmente em 7 de junho de 2011 em: Introdução ao estudo das civilizações africanas

 

(O Slide acima não tem pretenção de esgotar o tema, muito menos falar por sí só. Mas pode ser apropriado para fins pedagogicos)

O estudo sobre a África exige estarmos atentos às diversas distorções colonialistas que a historiografia ocidental reservou ao continente.

Contrariando as diversas distorções racistas criadas ao longo dos últimos séculos, o estudo aprofundado sobre a  VERDADEIRA ÁFRICA desmente este olhar distorcido e revela a história dos verdadeiros ancestrais da humanidade, contribuintes ativos do desenvolvimento humano universal.

O Estudo da África não se limita a revisões referentes à história do africano e seus descendentes espalhados pelo mundo moderno, mas, sobretudo exige uma revisão de toda a história da humanidade.  Se por um lado não poderíamos entender a nossa sociedade sem conceber o legado grego para a edificação da civilização ocidental, por outro lado não é possível entender a Grécia sem considerarmos a ativa influência egípcia nesta sociedade.

Ao contrário do que afirma(va) as ideologias racistas, os africanos contribuíram para o desenvolvimento humano universal, desenvolvendo inclusive técnicas e conhecimentos essenciais para aperfeiçoarmos a nossas forças produtivas.

Trazer este debate para o ensino público exige, sobretudo, não nos resumirmos a montar uma roda de capoeira no dia 20 de novembro, mas pelo contrário  reconhecer a participação ativa dos africanos no desenvolvimento humano universal. A própria capoeira contém em si conhecimentos e signos profundamente ancorado na sabedoria ancestral (bantu) africana, conhecimentos estes que transcendem a dimensão lúdica de uma apresentação cultural pontual.

O desafio é imenso, ma existem ferramentas abundantes para oferecermos subsídios para um debate frutífero.

O vídeo abaixo (indicado por Vilma Neres)  revela evidências de como a HISTÓRIA do continente Africano foi distorcida para dar sustentação ideológica ao colonialismo. Ao mesmo tempo, o documentário desmente a idéia de que a CIVILIZAÇÃO  foi trazida ao continente pelos Europeus, mostrando diversos exemplos de riqueza social  e desenvolvimento civilizatório no continente.

Mas não devemos cair em armadilhas saudosistas… A ideologia SANKOFA  nos ensina a olhar o passado não para repeti-lo, mas para aprender com os erros e acertos de nossos ancestrais, desenvolvendo a nossa história ao “tirar poesia do futuro”!!!

É movido por problemas do presente que (re)visitamos a história dos africanos e de seus descendentes, buscando “recuperar” nossa humanidade “subtraída” pelos séculos de escravismo e racismo. O Racismo permanece vivo e atualizado pelo desenvolvimento das relações de produção capitalistas contemporâneas exigindo novamente que pensemos a história dos africanos e de seus descendentes articulada aos conflitos da humanidade como um todo.

Aprendem-se na Capoeira de Angola que somos nós os responsáveis por nossa história e que, portanto, frente às ofensivas da vida cabe a nós mesmos buscar a emancipação. Talvez seja esta a principal mensagem que a Lei 10.639/03 (ou 11.645/08) deve enfatizar ao olhar para o passado de glória das civilizações africanas: o fato de que este legado nos oferece subsídios para lutar no presente em busca de um futuro melhor.

Deivison Nkosi – Professor de História da África

Aula: Racismo, Colonialismo e Racismo Moderno

Postado originalmente em 08 de junho de 2011

 

Existem atualmente muitas “visões” em disputa sobre o que é o Racismo. A visão mais difundida é a que confunde o racismo ao preconceito (em geral). Em alguns casos chega-se a dizer que existe racismo contra gordo ou homossexual. Outros (às vezes bem intencionados) afirmam que a “questão não é racial e sim social”.

Estas visões reducionistas do racismo além de confundi-lo com preconceito acabam por ignorar que o racismo não se resume a pré-jugamentos a cerca do negro, mas que está sim relacionado à divisão e conservação “racial” de privilégios (de classe).

Nas palavras de Fanon:

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais  vasto: a opressão sistematizada de um povo(…) Assiste-se à destruição dos valores culturais, das modalidades de existência. A linguagem, o vestuário, as técnicas são desvalorizados. Na realidade, as nações que empreendem uma guerra colonial, não se preocupam com o confronto das culturas. A guerra é um negócio comercial gigantesco e toda a perspectiva deve ter isto em conta.

A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone.Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência. A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objetivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas afirmado, com todo o seu peso de canhões e de sabres.” (Frantz Fanon)

Nesta perspectiva, podemos afirmar que o racismo está associado aos interesses econômicos das classes dominantes.  E este fator sugere que o seu fim esteja relacionado e exija a socialização da economia (dos meios de produção).

Por outro lado, a não compreensão correta do racismo pode levar-nos (mesmo nos casos em que bem intencionados) a mobilizar forças e concentrar energia em ações que não combatem o racismo de fato, mas nos dão a (muitas vezes falsa) sensação de que estamos avançando rumo a uma sociedade mais fraterna.

Para uma compreensão adequada do racismo é importante considerar em primeiro lugar as diferenças entre preconceito, discriminação e racismo.

Em segundo lugar o racismo não é um fenômeno cultural autônomo, e nem está inacessível para ser transformado. A constituição  histórica do Racismo esta profundamente relacionada ao desenvolvimento do modo de produção capitalista.

Em terceiro lugar o racismo atravessa o tempo e se renova durante o século XXI a partir da opressão não assumida dos africanos e seus descendentes em todo o globo terrestre, agora unificado pela mundialização do capital. Em todos lugares que observamos, os africanos (e/ou seus descendentes) são os mais pobres, inclusive no continente africano, em contraste com um melhor padrão de vida dos Europeus (e seus descendentes pelo mundo, inclusive nos países africanos).

A aula apresentada no slide acima comenta alguns destes pontos objetivando a construção de uma análise crítica sobre as relações raciais, apontando para a transformação da nossa sociedade e alertando para armadilhas conceituais freqüentemente difundidas a respeito do racismo.

 

Deivison Nkosi

Reflexões sobre o Perigo de uma única história

Texto escrito em 19 de junho de 2012, originalmente publicado em: https://kamugere.wordpress.com/2011/06/10/reflexoes-sobre-o-perigo-de-uma-unica-historia/#comments

Por Deivison Nkosi

Gostaria de iniciar esse texto com o belíssimo vídeo da escritora e contadora de histórias nigeriana Chimamanda Adichie.  Esta seção está reservada para comentários, reflexões e críticas a respeito do contexto que estamos vivendo e achei muito oportuno começar por este vídeo.

Como a minha internet é lenta (na periferia de Santo André – Zona Metropolitana de São Paulo – não existe oferta de banda larga L) fui escrevendo enquanto o filme carregava no youtube…

A autora narra a partir de sua trajetória individual o que ela chama de “o perigo de uma história única” e nos expõe questões centrais para pensarmos a nossa época, inclusive no que tange a Lei 10.639/03. Esta lei, que institui a obrigatoriedade de abordagem no ensino público dos conteúdos referentes à história da África, dos Negros no Brasil e das relações raciais em nossa sociedade, alterada em 2008 para  incluir a obrigatoriedade de abordagem da história indígena(Lei 11.645/08) trás como principal pano de fundo a necessidade de se contar o que Chimamanda chamaria de “outras histórias” ocultadas ou distorcidas pelos séculos de racismo presentes em nossa sociedade.

O vídeo dispensa comentários, mas me provoca a refletir sobre aquilo que é o objetivo central deste blog. Como contar as “outras histórias” (ignoradas ou distorcidas) sem que se perca o uno que nos liga enquanto seres humanos?

A história humana enquanto processo de desenvolvimento do ser humano em seu fazer-se no tempo é um processo dialético, contraditório e articulado de fazeres individuais envolvidos no tempo… este processo é tão intenso e objetivo que se torna impossível a existência de “histórias” individualmente isoladas… cada pessoa tem a sua história individual mas o seu desenvolvimento está profundamente marcado pelos limites e possiblidades de seu tempo, bem como a sua relação com os outros indivíduos… o nosso eu se faz na relação com o outro de tal forma que não pode haver “eu” sem os “outros”.

Neste sentido, a história não é uma construção da nossa subjetividade, como defendem os acadêmicos da “Nova História” mas sim um dado real (objetivo) do nosso fazer-se, seja individual ou coletivo. Falar em histórias portanto é sempre delicado, pq exige pensarmos nas influencias recíprocas de uma “história”com outra, da história do meu grupo com a minha história individual”da história do meu grupo com outros grupos.

Considerando que o capitalismo integrou o mundo sob a sua lógica, a nossa história individual nunca foi tão coletiva, de forma que os indivíduos se relacionam multuamente, mesmo sem se conhecer. A ocupação estadunidense no Iraque influencia diretamente no preço do combustível do caminhão que carrega os produtos que compro todo dia, definindo o meu poder de compra, por exemplo, de tal forma que não da mais pra pensar a história do Iraque como se não fosse (também) a minha história.

Reproduzindo um questionamento presente na historiografia contemporânea podemos nos perguntar: A HISTÓRIA é reconhecimento, memória ou interpretação (subjetiva) ou fato concreto, acontecido (objetivo) mesmo que eu não tenha consciencia da sua influencia em minha vida? Uma reposta possível é que a história do Iraque (pra insistir no exemplo) é a minha história, mesmo que eu não reconheça ou não saiba de sua existência real.

VOCÊ QUE É UM LEITOR ATENTO DEVE ESTAR SE PERGUNTANDO: “Mas e o que a lei 10.639/03 (ou a 11.645/08) tem a ver com esta ‘história’?”

O fato é que a HUMANIDADE é a síntese (e não a soma) do conjunto dos indivíduos articulados e se influenciando reciprocamente. Este é um dado da realidade, independente de nosso reconhecimento sobre isto. Ocorre que o RACISMO aliena a nossa percepção sobre a nossa humanidade de tal forma que passamos a não ver (reconhecer subjetivamente) o negro ou o africano como parte da humanidade. A “HISTÓRIA” DA HUMANIDADE passa a ser contada a partir do europeu de forma que por vezes confundimos o universal com o europeu. Falamos em cultura NEGRA (específica), em música NEGRA(específica) em história NEGRA (específica) mas não falamos em cultura BRANCA,  em múcia BRANCA, em história BRANCA… o Branco (europeu) foi apresentado por eles mesmo desde o sec XIX como UNIVERSAIS a ponto de os negros, mesmo os militantes mais radicais no combate ao racismo não se verem no UNIVERSAL.

Esta dificuldade de nos vermos como universal é um dos frutos do racismo e de séculos de negação da nossa humanidade… de exclusão do negro daquilo que se entende por história (a memória, ou a interpretação dos fatos ou da contação de fatos desconexos). Se o negro foi excluído da história, sobrar-nos-ia, portanto sob o risco de ficar excluídos da “história” a tarefa de contar a nossa história, ou seja, CONTAR OUTRAS HISTÓRIAS.

Aqui está uma armadilha gigantesca que devemos estar alertas:

Se por um lado a história oficial UNIVERSAL (ocidental, judaico, cristã e burguesa) nos privou do direito de reconhecimento e quando aparecemos na história somos pintados como bárbaros ou coitadinhos… por outro lado, a recontagem de OUTRAS HISTÓRIAS ESPECÍFICAS tem a tarefa de desconstruir este imaginário, mas acima de tudo, “recuperar” (reconhecer) os nexos de nossas especificidades com a história da humanidade como um todo. Caso contrario, correremos o risco de novamente fortalecer as idéias racistas do século XIX, idéias estas que afirmavam que não éramos humanos, éramos os outros.

A chave para superarmos O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA está na própria HISTÓRIA REAL (não como memória ou interpretação de fatos seqüenciais). Ao contrario do que afirmam os racistas, e muitas vezes repetimos inocentemente, quanto mais estudamos a história da humanidade mais se percebe a presença e ativa contribuição dos africanos para o desenvolvimento humano universal. A humanidade surge na África e lá podemos observar o surgimento primeiro de diversos saltos evolutivos em nossa trajetória enquanto ser social.

A contribuição do continente africano para o conhecimento sobre astronomia, metalurgia, geometria, mineração, arquitetura, cultura, religião, artes, filosofia é imperceptível apenas aqueles que estão cegos pelas lupas do racismo forjado no sec XIX. O próprio pensador grego Heródoto (considerado erroneamente como um dos pais da história) reconhece a superioridade dos egípcios frente ao a muitos conhecimentos de altíssima importância à sociedade grega, como é o caso da astronomia e astrologia. (ver slide: introdução ao estudo das civilizações africanas)

A presença africana na cultura brasileira chega a tal ponto que o pensador de esquerda Darci Ribeiro chegou a dizer (inspirado em Gilberto Freire) que o Brasil não é mais um mosaico de raças, mas a síntese de uma mistura. O que o nosso pensador ignora é que esta mistura não impediu o massacre físico e cultural do negro e que até hoje existe um “gradiente de cor” que faz com que a pessoa sofra os efeitos do racismo mais intenso quanto for a coloração da sua pele.

Ocorre que até hoje, QUANDO O NEGRO APARECE NA MÍDIA, OU NA ESCOLA É SEMPRE COMO COITADINHO OU BÁRBARO… isto quando aparece, e isto tem causado impactos horríveis em nossa subjetividade (tanto negros como brancos, embora os últimos se beneficiem deste processo). Chimamanda nos alerta para o fato de que a história ocidental (não só a disciplina de história, mas a forma que nos vemos enquanto seres humanos) tem estado permeado de um olhar que nos desconhece a humanidade, influenciando o nosso pensar e agir sejamos negros ou brancos.

 

Fui escrevendo este texto enquanto assistia ao vídeo (lembra que a minha internet é lenta né? rs) e confesso que quando cheguei ao final do filme estava em choque… pensei várias vezes em não seguir escrevendo porque o vídeo já havia falado tudo que precisava ser dito no momento. O filme é um tapa na cara que nos questiona sabiamente sobre o que temos feito para ser diferentes de todo este processo de “contação de uma única história”.

Ao trabalhar com a formação de professores e educadores sociais para abordagem dos conteúdos presentes na Lei tenho visto muita iniciativa “bem intencionada” fracassar pelo desconhecimento da historia real da África e da humanidade. Tenho visto que muitas vezes os poucos professores sensibilizados para a importância deste debate só conseguem  falar das contribuições do negro no campo lúdico, confirmando a visão de Hegel de que a África é a infância da humanidade, desconsiderando as contribuições dos africanos para o desenvolvimento humano-universal. Tenho visto militantes negros estudados assumindo desesperadamente uma visão distorcida do que é história (a história como factóides, ou interpretação dos fatos, ou apenas Memória) para se contrapor a esta “história” inventada no sec XIX.

Este é o desafio central da Lei 10.639/03(ou 11.645/08): NÃO É A HISTÓRIA DO NEGRO OU DOS AFRICANOS QUE ESTÁ EM QUESTÃO, não se trata de contar mais uma história. Falar da história da África ou do Negro no Brasil EXIGE SIM RECONTAR A HISTÓRIA DO BRASIL E DA PRÓPRIA HUMANIDADE. O desafio para nós é o que Steve Biko chamava no seu texto “a definição da consciência negra”na BUSCA PELA VERDADEIRA HUMANIDADE. Qualquer coisa abaixo disto será um tiro no próprio pé.

Deivison Nkosi – Professor de História da África